Ensaios e Resenhas

maio 2015 / Ensaios e Resenhas / Exercício

Texto publicado na edição #180

Exercício

Encontramos nos livros e esboços de Hilda Hilst o milagre de sua presença e os traços de sua humanidade

> Por VANESSA C. RODRIGUES

Hilda Hilst por Fábio Abreu.

Hilda Hilst por Fábio Abreu.

Antes avara deste tempo que me resta

Hilda Hilst

1.

No primeiro plano a menina de cabelos claros ajoelhada dentro de seu vestido branco. As mangas não chegam aos punhos, as mãos estão cobertas por luvas anacrônicas e ao seu lado dois anjos de auréola de papel laminado olham sem sorrir para o fotógrafo. Os três elementos humanos da cena formam um ângulo inclinado bonito, assim como está inclinada a imagem sobre o papel fotográfico revelado sem esmero, um branco iluminado belíssimo contrasta com a sujeira de uma parede de alvenaria comum. De divino só os anjos, nada além deles nos diz se tratar de uma recordação religiosa — nenhuma decoração, nenhuma imagem, nada além de um espaço simplíssimo ocupado por três figuras quase irreais. No canto esquerdo, perto do anjo mais bonito, há um pequeno triângulo formado pelo canto de outro vestido branco, quem sabe de uma garota que, assim como a menina da foto, acabou de experimentar a transubstanciação pela primeira vez e espera seu momento de ser retratada. A menina não olha para o fotógrafo. Segura um olhar para si mesma como se não notasse que faz parte de uma imagem posada. Seu olhar intenso é o de quem de fato testemunhou um milagre — um olhar de quem já não pode ter tanta inocência diante do mundo agora que seu corpo digere o corpo de Cristo. É a foto mais bonita que tenho comigo. A foto de minha mãe aos dez anos na manhã de sua primeira comunhão.

Por um tempo achei que tinha perdido essa fotografia. Seria uma grande perda. Mas enquanto arrumava meus livros nas estantes do apartamento onde moro agora, ela caiu aos meus pés. Estava dentro de minha edição de Exercícios, de Hilda Hilst.

2.

Roland Barthes escreveu certa vez[1], enlutado pela perda da mãe, que ele lia sua inexistência nas roupas que sua mãe usava antes que ele pudesse se lembrar dela. Certos detalhes de moda e de velhos costumes naqueles retratos o lembravam que ele nem sempre existiu. Quando eu olho a fotografia da primeira comunhão de minha mãe eu também tomo ciência dessa História barthesiana, isto é, daquilo que existia antes de mim. Mas sinto, ainda, uma confusão de tempo e uma prova inconteste de mortalidade. Como os gregos citados por Barthes, também eu entrei na morte caminhando para trás — sou absolutamente prescindível para aquela menina, ela viveria muito bem sem mim.

O que mais atrai nas fotografias é exatamente esse aspecto vazio. Não apenas a possibilidade de uma presença impossível (como posso agora aos trinta sentir ternura por minha mãe aos dez?), essa presença fantasmagórica que geram, mas sobretudo a não presença, a mortalidade revelada.

3.

E o motivo de a foto ter parado no meio daquele livro é um só: minha ilusão de imortalidade. Há quatro anos, tanto a fotografia quanto o livro estavam sobre minha escrivaninha. Naquela época, eu ainda trabalhava em uma editora, tinha menos liberdade de tempo e, ao que parece, pelo menos duas ideias para ensaios. Esses objetos continuaram sobre minha mesa me cobrando sem muito esforço para que eu fizesse logo o que eu gostaria de fazer. Mas tinha o trabalho, a casa, minha família; e, além disso, eu estava prestes a me mudar de cidade.

Procrastinar, essa palavra estranha que temos ouvido com mais frequência agora quando parece viver melhor quem está sempre ocupado, é uma (in)ação de quem acha que é eterno. Quando o universo inteiro se equilibrar, quando houver silêncio, quando os dias estiverem livres, a mesa organizada, quando todas as leituras tiverem sido feitas, quando a insegurança finalmente deixar de amedrontar, aí sim, quem sabe, eu consiga fazer o que eu quero fazer. Mas é preciso ainda lidar com a angústia, vinda dessa espera pelo momento perfeito, de me imaginar, daqui vinte ou trinta anos, lamentando todos os textos que não escrevi. Procrastinar não é um alívio.

4.

Exercícios reúne quase uma década de poesia de Hilda Hilst, de uma poesia feita antes de suas experimentações em prosa, que se iniciariam com Fluxo-floema em 1970. Gosto em particular de uma série de sete “Exercícios” numerados, poemas, como tantos outros de sua obra, que tentam se aproximar de uma “Ideia de Deus”. A aproximação com o divino, uma busca recorrente em toda a Hilda (uma amiga dela disse numa entrevista que na Casa do Sol, onde Hilda morou a maior parte da vida, havia um grande altar sincrético com imagens de santos e orixás e budas e amuletos porque ela dizia acreditar em tudo), aqui é feita à maneira dos místicos: não é uma reflexão sobre o divino, mas exercícios para se chegar a ele. Tanto pela beleza de um canto quanto pela geometria (E se a mão se fizer/ De ouro e aço,/ Desenharei o círculo. E dentro dele// O equilátero), o que remete a experiências abstratas místicas como as pinturas e desenhos de Hilma af Klint (1862-1944) e aos cantos extáticos do poeta persa Rumi (1207-1273).

Para os artistas místicos, a arte era um caminho, não o fim. Era uma forma de dizer o indizível e também uma estratégia de preparar o corpo para a experiência; e era ao mesmo tempo um produto dessa experiência. Diz-se que os poemas de Rumi foram todos compostos em estado de transe místico, durante as danças girantes dos dervixes.

Para os místicos, o importante não é aquilo a que eles chegam, mas a que, a partir disso, se transubstancia.

5.

Eu ainda não tinha entrado no curso de letras quando conheci Hilda Hilst. Encontrei na casa do meu irmão um livro de poemas dela, não lembro qual, que li numa tarde sem entender quase nada. Mas de alguma maneira aquilo me fascinou. A música das palavras, a dicção elevada, esses grandes temas. Por isso estranhei quando soube, já num círculo de entendedores absolutos, que é o que se tem nos primeiros anos da faculdade, que Hilda Hilst era mais conhecida pelas suas ousadias pornográficas. Uma vez, assistimos na faculdade a uma conferência sobre mulheres escritoras contemporâneas e, depois de ouvir uma longa exposição sobre O caderno rosa de Lori Lamby, uma colega me olhou aterrorizada. “Como você consegue gostar disso”, ela me disse. Uma história de estripulias sexuais contadas por uma criança deve ter sido demais para ela.

Mas esses textos pornográficos sempre ficaram em segundo plano para mim. Eram os poemas e as outras prosas que me atraíram. E todo mundo parecia saber do meu quase amor por esses textos, eu era um tipo de sacerdotisa da Hilda, ainda que não fosse possível existir, considerando o modo como eu levava a vida, pessoa mais inadequada para isso.

6.

Alguém já deve ter dito que criamos nossos gênios e santos para justificar nossa própria ignorância e fraqueza. Fica mais fácil encarar nossas incapacidades diante de um grande feito se o tomarmos como resultado de um esforço extra-humano. Os grandes artistas parecem chegar, porque de fato chegam, a lugares que o resto de nós, vis mortais, nunca chegaria.

Nessa época de que falo, meus vinte anos, o começo da vida que levo hoje, eu já queria escrever, assim, para valer. Mas também tinha começado a trabalhar com livros, a lidar diariamente com textos. Com a faculdade e o trabalho eu não tinha tempo para mais nada a não ser estudar e cumprir meus horários e metas naquela editora. Além do mais, sempre fui covarde. Foi muito mais fácil me acomodar nesse espaço confortável que enfrentar minha insegurança diante da minha turma de faculdade, dos meus professores, dos escritores imaginários que olhavam sobre meus ombros meus cadernos adolescentes. E, afinal, quem eu pensava que era para escrever se o mundo já tinha Hilda Hilst? Essas conclusões, no entanto, não me acalmavam. Eu sabia que no fim das contas o que me faltava era coragem, coragem e teimosia.

O fato é que mesmo se ela soubesse que eu passaria o dia 4 de fevereiro de 2004 enlutada como quem perde uma amiga muito íntima, Hilda Hilst não se interessaria por mim. Me dei conta disso depois de assistir, na exposição em sua homenagem[2], a alguns vídeos de depoimentos dos artistas que moraram com ela na Casa do Sol. O que eu tenho em comum com essas pessoas? Eu jamais teria coragem de abandonar tudo e viver numa comunidade de artistas. Eu nunca conseguiria bater à sua porta e me apresentar como uma artista. Entre minhas anotações de compromissos semanais, eu não incluo o que preciso escrever, eu quase não recuso trabalho, eu leio menos do que gostaria, eu não seguro um olhar de deslumbramento diante do mundo porque estou sempre com pressa, eu não seguro um olhar de deslumbre diante do mundo mesmo sabendo que é curtíssimo o tempo que terei para observá-lo. Eu não tenho coragem de me lembrar daquilo que eu devia me lembrar todos os dias: não sou imortal, não devia viver como se fosse. Também Hilda, que morreu há 11 anos, não era.

7.

Hilda Hilst era mortal e humana. Ela teve uma mãe para quem escrevia cartinhas do colégio e dedicava poemas ao pai. Ela teve amantes. E muitos cães. Ela listava seus amigos, que frequentavam sua casa e ela tirava fotos com eles, ela gostava de festas, ela lia muito, ela tinha medo de morrer, tinha medo de pegar aids, ela teve dificuldades financeiras, ela queria falar com os mortos, ela perdia a linha e se irritava publicamente com o descaso que recebia do mercado editorial e, pela consciência de sua grandeza, soava um pouco arrogante às vezes. Toda essa prova de humanidade está lá, em meio aos objetos e rascunhos à mostra na exposição.

E o que mostrar numa exposição sobre um poeta senão sua humanidade? Cada rasura, cada anotação dispersa, as palavras desistidas, as substituídas, os erros, são provas que o fazer poético é também um exercício. Quando perdemos os sussurros das musas, ganhamos a humanidade dos poetas. Não se trata de seres escolhidos, separados do resto mundo. Ao contrário, para mim, os maiores poetas (aqui um sinônimo para artistas) são aqueles que se afundam no mundo — mundo que é tanto a repartição pública quanto uma casa repleta de santos e cães e árvores antigas.

8.

Uma vez, o escritor português Gonçalo Tavares disse que a literatura oferece um risco de vida, no sentido em que ler é deixar de prestar a devida atenção aos perigos do mundo. Os olhos, feitos para movimentos mais amplos, são obrigados a seguir a ordem imposta pelas linhas do texto. Nada mais veem a não ser as palavras, nos tornamos, enquanto lemos, um tipo de presa frágil.

E justamente por esse estado de entrega e concentração, ler também é um tipo de delírio. O que aconteceu comigo lendo aqueles poemas aos dezesseis anos, além de uma experiência diante de uma beleza formada de palavras esquisitas cujo sentido não parecia ser aquele do dicionário, foi experimentar pensamentos muitíssimos maiores do que qualquer um que eu tivera até então. Experimentar essa agudeza conduziu a maneira como eu enxergaria a literatura na minha vida a partir dali. Não foi o suficiente, como disse, para um arrebatamento completo. Apesar de me fascinar pelos artistas livres, por me encantar com o romantismo de uma vida dedicada à arte, apesar de nunca ter nutrido ambições materiais que justificassem as dez horas que tenho passado a voltas de textos alheios, eu jamais consegui escapar (e na verdade sequer tentei) de ter uma vida obscenamente comum. No entanto eis outro milagre da literatura: carrego comigo, atadas às minhas memórias simples, algumas palavras grandiosas.

9.

Encontramos nas rasuras do caderno de esboço de um poeta os traços de sua humanidade. Mas também uma extensão de tempo, do mesmo tipo que experimentamos diante de fotografias. São, esses objetos postos à mostra postumamente, provas de uma vida que acabou, mas também produzem, com mistério, uma presença. E esse milagre não é conseguido apenas diante de objetos raros como os garimpados entre o espólio de um artista. Basta abrir um livro, ler um poema.

Um tempo atrás, visitei uma grande exposição coletiva e lá encontrei uma amiga. Ela ocupava duas paredes com suas obras mais recentes e, apesar de uma sensação de familiaridade, levei um tempo até perceber que eram mesmo obras dela. Joana morreu em 2014, não pude ir ao seu funeral, o que me deixou arrasada. Mas aquela não foi, tive certeza naquela tarde no museu, a última oportunidade que teria para vê-la. É por isso, também, que fazemos arte.

E se o que está em jogo, então, é a vida e a morte (e a ressurreição), como seria possível deixar a escrita lá embaixo numa lista de prioridades?

Naquela fotografia, no retrato do primeiro grande ritual de que minha mãe se lembra, ela estava séria provavelmente porque seu vestido, emprestado, era pequeno demais para ela, e resolveu ajoelhar-se também pelo mesmo motivo. Ela estava séria porque estava com vergonha. Ela estava tímida porque se sentia inadequada e um pouco humilhada em ser tão pobre que não pudesse ganhar um vestido que lhe cobrisse adequadamente no dia de sua primeira comunhão. Ela estava com vergonha do que pensariam dela. E, o mais aterrorizante, ela não podia esconder todas essas fraquezas porque teria de caminhar na frente de todo mundo. Todos esses medos, e sua falta de experiência, a impediram de notar, por exemplo, a beleza daquele dia. Acreditando ou não nas sacristias cristãs, a transubstanciação e essa possibilidade de uma comunhão corporal direta com o divino são criações belíssimas. Ela estava mais preocupada com o que pensariam dela e por isso deixou de perceber que, pela primeira vez, aquilo que seria o corpo de Cristo se misturaria ao seu próprio corpo. Não houve reflexões sobre vida, nem sobre morte naquele dia, nem curiosidades pelos mistérios milagrosos do cotidiano, mas estava tudo ali, este ensaio (exercício) é uma prova disso.

Epílogo

Com Hilda também conheci o conceito de potlatch, que ela retoma de Georges Bataille. É uma cerimônia praticada por muitas nações antigas do mundo, mas, sobretudo, pelos indígenas das regiões do norte dos Estados Unidos. O potlatch é um ritual em que se evidencia um aspecto positivo da perda, quando se desafia um rival doando a ele a maior parte de sua riqueza. O desafiado fica, por isso, obrigado a dar uma prova de dispêndio ainda maior a seu desafiante. Em seu ensaio sobre o assunto[3], Bataille conta, por exemplo, que “acontecia de um chefe Tlingit se apresentar perante seu rival para degolar alguns de seus escravos diante dele. Essa destruição era retribuída em um determinado prazo pela degolação de um número maior de escravos”.[4]

Hilda lançou ao centro do ritual sua vida como dispêndio. Aos seus leitores ela entregou, não sem a malícia dos participantes de um potlatch, uma agudeza e uma intensidade imensuráveis. E um potlatch não se recusa. Mas até agora, não pude retribuí-lo — o potlatch ideal, segundo Marcel Mauss, seria aquele que não pudesse ser retribuído. A não ser com esta declaração pública de que sei que preciso ter coragem para, assim como ela, assim como Bataille, sentir-me, finalmente, livre para fracassar.



[1]          Ver: Roland Barthes, Câmara clara.

[2]               [2] Ocupação Hilda Hilst, em cartaz até 21 de abril de 2015 no Itaú Cultural, em São Paulo.

[3] Ver: Georges Bataille, “A noção de dispêndio”, em A parte maldita.

[4] Ibidem.

 

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