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outubro 2011 / Rodapé / Exemplo de boa crítica universitária (2)

Texto publicado na edição #131

Exemplo de boa crítica universitária (2)

Luiz Antonio Mousinho, no ensaio A imagem de si mesmo: narrativa, dialogismo, intersubjetividade, constante do livro Intérpretes ficcionais do Brasil: […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Luiz Antonio Mousinho, no ensaio A imagem de si mesmo: narrativa, dialogismo, intersubjetividade, constante do livro Intérpretes ficcionais do Brasil: dialogismo, reescrituras e representações identitárias (Programa de Pós-Graduação em Letras da UFPE), acompanha o movimento de fuga e de retorno “crítico e emocionado” ao familiar, à ordem fossilizada do cotidiano, empreendido pelo personagem Martim, de A maçã no escuro, de Clarice Lispector. Trata-se de um estudo importante, no ensaísmo brasileiro contemporâneo, acerca da subjetividade em Clarice Lispector. Um estudo sobre a recomposição ou reinvenção do sujeito. Ou melhor, e para utilizar palavras do ensaísta, sobre a “reinvenção da linguagem” que “reinventa a vida”. Moema Selma d’Andrea, por sua vez, especialista na obra de Joaquim Cardozo (tem doutorado na Unicamp sobre o autor), traz A via alternativa da modernidade em Cardozo. Um ensaio, muito bem escrito, sobre a poesia rural, ou melhor, sobre a natureza nordestina, do poeta pernambucano. Já tendo escrito sobre a poesia urbana de Joaquim Cardozo, Moema investe agora em poemas que trazem imagens do Nordeste. Imagens que “desregionalizam a cor local”, ou seja, que se dão sem a nota “ufanista ou pitoresca” de certa tradição poética. Na poesia rural de Joaquim Cardozo, observa a ensaísta, não aparece “o recurso de uma natureza redentora”. Observa ainda: “há uma relação idílica com a natureza nordestina abstraída […] do contexto acentuadamente regionalista”. Três aspectos, enfim, sintetizam essa vertente da poesia de Cardozo, que, nos termos da ensaísta, é um poeta “crítico e vigilante”, nunca “eufórico e ingênuo” com a modernidade, com o progresso: 1) a “desregionalização da cor local”; 2) a opção de não comungar “do passado nostálgico lastreado pela economia açucareira” (nesta linha, e em contraste com a poética de Joaquim Cardozo, está o poema Evocação do Recife, de Manuel Bandeira); 3) o fato de não ver “com otimismo o progresso burguês (que até certo ponto contaminou a poesia dos paulistas [da fase heróica do Modernismo])”. Estrutura ainda o ensaio de Moema um diálogo com o pensamento de Roberto Schwarz acerca da poesia modernista, notadamente a de Oswald de Andrade. Concluindo, além do bom texto de Cristhiano Aguiar, que repõe o debate acerca do regionalismo a partir de romances de Francisco Dantas e Raimundo Carrero, Intérpretes ficcionais do Brasil traz ainda um conjunto de ensaios (de Maria Piedade de Sá, Ariane da Mota, Rebeca Santos Amorim, Patrícia Marques de Almeida, Clarissa Loureiro Marinho Barbosa, Fabiana Ferreira da Costa, Elton Bruno Soares de Siqueira) abordando obras de autores como Machado de Assis, João Ubaldo Ribeiro, J. J. Veiga, entre alguns outros, tendo como linha comum referências teóricas de boa e de alta qualidade, além do apego ou apreço pela qualidade do texto. Pelo texto ensaístico que se quer prazeroso de ler.

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