Nossa América, nosso tempo

abril 2013 / Nossa América, nosso tempo / Et in Arcadia ego — Por uma crítica da melancolia chique

Texto publicado na edição #156

Et in Arcadia ego — Por uma crítica da melancolia chique

A tarefa do crítico exige a renovação constante de seu repertório

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Ilustração: Bruno Schier

Ilustração: Bruno Schier

 

Eu, também, vivi na Arcádia
Em O programa, Machado de Assis satiriza as vicissitudes da vida cultural na terra dos medalhões. No conto, o leitor é apresentado a um visionário, Romualdo, cujo sonho exigia tão-só atar as pontas de talentos incomuns: “Era muito governar os homens ou escrever Hamlet; mas por que não reuniria a alma dele ambas as glórias, por que não seria um Pitt e um Shakespeare, obedecido e admirado?”. Naturalmente, o fracasso é o resultado previsível de tal projeto. Em auto-crítica piedosa, Romualdo acreditou compreender o nó górdio que atou para si mesmo: “— Foi talvez o programa que me fez mal; se não pretendesse tanto…”. A auto-crítica é piedosa porque não chega a reconhecer que o fracasso foi determinado não apenas pela ambição do propósito, embora não fosse nada modesto, mas também pela falta de empenho em sua realização. Isto é, o oposto do modelo machadiano, que exige reunir talento e disciplina, vocação e método, resgate da tradição e leitura atenta do contemporâneo.

(Romualdo bem poderia ser o símbolo de certa crítica literária e cultural que se dedica à redação de obituários com a inocência de quem escreve um epitáfio involuntário.)

Não surpreende, portanto, a epígrafe escolhida por Machado, extraída de poema de Schiller: “Também eu nasci na Arcádia”. Trata-se do poema Resignation, Eine Phantasie, no qual se encontra o verso: “Auch ich war in Arkadien geboren, (…)”. A força do verso reside no deslocamento que domina a história da expressão “Et in Arcadia ego”. Reviravolta semântica iniciada por Poussin, na pintura, e trazida por Diderot para a literatura. O poeta alemão não se contentou em também estar na Arcádia, ele aí também nasceu; ou seja, se apropriou de tal forma da lição clássica que é como se fosse um grego autêntico — ou pelo menos assim desejasse.

A referência fundamental sobre o tema é o ensaio de Erwin Panofsky, Et in Arcadia ego: Poussin e a tradição elegíaca. Como uma boa parte da crítica literária e cultural brasileira parece dominada pela “melancolia chique”, vale a pena recordar as modificações do sentido da expressão.

Em primeiro lugar, Panofsky esclarece sua origem moderna: a “famosa frase, que não é clássica e parece não ocorrer antes do quadro de Guercino”. Um quadro justamente intitulado “Et in Arcadia ego”, de 1623. Nesse contexto, a sentença significa “Até na Arcádia eu estou”, e é proferida pela alegoria da morte. Posteriormente, a partir de Poussin, numa tela igualmente denominada “Et in Arcadia ego”, o significado conhece uma transformação sutil: “Eu, também, vivi na Arcádia”; agora, a frase é atribuída aos mortos que um dia desfrutaram dos prazeres da Arcádia, implicando a nostalgia de um momento idealizado no pretérito. Nessa história de anacronismos e atribuições errôneas, “o toque final foi dado pelo grande Diderot que, em 1758, ligou firmemente o et ao ego, interpretando-o como aussi”. Tal tradução estaria na fonte do poema de Schiller; logo, na epígrafe do conto de Machado, cuja intenção satírica acerta no alvo que me interessa: Romualdo lamenta a perda do que nunca viveu, como se antecipasse a melancolia chique do cenário atual.

Melancolia chique
Melancolia chique é a nostalgia por uma inexistente idade de ouro, que pretende enobrecer menos o passado do que o presente do crítico. E, naturalmente, o instante idealizado coincide com as suas idiossincrasias. Daí, a dicção apocalíptica, que não se cansa de trombetear a morte da crítica literária e o vazio da produção artística atual.

Esse motivo é a própria imagem do eterno retorno, embora seus partidários se considerem inaugurais. Truque de mágico aprendiz: o anúncio periódico do colapso da crítica e da crise da literatura confere capital simbólico ao apressado coveiro; afinal, em princípio, o redator de obituários deve estar vivo…

Em sentido mais generoso, ou menos bélico, Reinhart Koselleck identificou o vínculo estrutural que associa crítica e crise como traço indissociável da modernidade política.[1] De igual modo, Imannuel Kant imaginou um olhar crítico que não deixa de ser um antídoto contra o apocalipse contemporâneo — adiante, retomarei sua lição.

A melancolia chique é um lugar-comum — e não deixa de ser divertido o desejo de originalidade que estimula seus adeptos. Por isso, sem nenhuma pretensão de exaurir o tema, importa observar sua última emergência.

Um ponto de partida conveniente é o artigo de Flora Süssekind A crítica como papel de bala, publicado no Prosa & Verso em 24 de abril de 2010. Num esquecimento surpreendente da máxima de Tirésias ante a fúria de Creonte — “(…) É um feito, então, matar um morto?”[i] —, Flora aproveita-se de textos escritos por ocasião da morte de Wilson Martins para reiterar, ainda uma outra vez, o diagnóstico cadavérico: “o apequenamento e a perda do conteúdo significativo da discussão crítica, assim como da dimensão social da literatura no país nas últimas décadas”.

O artigo gerou reações, cumprindo a contento a função compensatória dos obituários, mas, salvo engano, não se destacou a recorrência do modelo Et in Arcadia ego… Nesse caso, Arcádia é o parque temático das preferências do crítico, que convenientemente se esquece de explicitar seus pressupostos. Só se pode decretar a falência de uma atividade quando se mantém como contraponto um ideal normativo de como ela deveria ser exercida. O problema não é a norma — sem critérios não se pode pensar! —, porém a crença em sua “indiscutível” superioridade, o que leva à naturalização da própria visão do mundo e da literatura. Eis o colapso autêntico; aqui, quanto mais esbraveja, mais o crítico se fecha em copas, pois a tagarelice é a forma deselegante do silêncio.

Na outra ponta, Alcir Pécora publicou no mesmo Prosa & Verso, em 23 de abril de 2011, o artigo Impasses da literatura contemporânea.[ii] Seu título sintetiza perfeitamente o conteúdo, que já havia estimulado um debate do autor com Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles.[iii] Em tela, modos opostos de leitura do calor da hora: de um lado, a crítica como espelho retrovisor; de outro, como abertura para um processo em curso.

Ora, a indiscutível importância dos trabalhos de Flora Süssekind e Alcir Pécora torna mais urgente a identificação da operação tautológica subjacente à melancolia chique.

Por fim, a revista Carta Capital radicalizou o procedimento. O número de 6 de fevereiro de 2013 estampou na capa a constatação em aparência irrefutável: O vazio cultural[iv]. A sutileza do subtítulo da edição foi retomada no editorial de Mino Carta, A imbecilização do Brasil[v].

Hoje em dia, portanto, a crítica vale muito pouco; a literatura, ainda menos; e a cultura, como um todo, nada.

A melancolia chique veio para ficar?

O crítico e o misantropo
Contudo, se o crítico melancólico se desse ao trabalho de pesquisar a história literária, ele talvez se surpreendesse. Desde 1836, inicialmente com os textos programáticos de Gonçalves de Magalhães, aproximadamente a cada duas décadas alguém insiste no samba de uma nota só: “a crítica vale muito pouco; a literatura, ainda menos; e a cultura, como um todo, nada”. Há método nesse tédio, sem dúvida; mas ainda assim o marasmo-marola não constitui exatamente um achado memorável.

Amplie-se a referência.

O próprio da crítica, na lição de Immanuel Kant, é viver em crise. O crítico deve principiar pelo estabelecimento dos seus próprios limites para o conhecimento de um objeto determinado. Em termos atuais, nem sempre ele saberá ler o romance que começou, a tela que contempla, o filme que assiste. Diante de uma obra que ainda não conhece, talvez ele precise se reinventar. A tarefa do crítico exige a renovação constante do repertório, estimulando o questionamento de seus pressupostos. Os críticos que são professores universitários, contudo, resistem ao processo, pois muito rapidamente nos encastelamos em nossos pequenos nichos de poder institucional e hermenêutico.

(Também me incluo no time.)

Em sentido kantiano, uma análise que não produza crise não é suficientemente crítica. A produção de obituários em série é uma concessão à facilidade, especialmente quando alardeia a própria sofisticação. Nesse caso, o crítico transfere o problema exclusivamente para o objeto, em lugar de perguntar-se se ele está preparado para ler o que se escreve hoje em dia. Talvez não esteja; talvez ainda viva na nostalgia dos dourados anos de sua juventude e acredite que o melhor já passou: Et in Arcadia ego

Eis o lado constrangedor da melancolia chique: a condenação sumária do contemporâneo equivale a um mal disfarçado auto-elogio… Ao denunciar a irrelevância da crítica, pelo menos momentaneamente o crítico se traveste de importância. Ao condenar a ausência de reflexão teórica, o teórico se projeta estatuário: a mão na testa, agora se sabe, apenas seca o suor que, impertinente, recorda sua residência nos trópicos.

A única forma de driblar o embaraço é assumir-se como parte do problema: o crítico mordaz de tudo que não seja espelho também é parte do círculo estreito que ele despreza…

Olhar em volta não custa muito
É preciso uma disciplina invejável para manter obstinadamente os olhos bem fechados, a fim de ignorar fenômenos que permitem uma caracterização muito diversa do cenário contemporâneo; cenário que não sabemos avaliar simplesmente porque, presos a conceitos do passado, não refletimos sobre o que está ocorrendo no exato instante em que escrevemos necrológios.

Na próxima coluna, por isso mesmo, discutirei a multiplicação de encontros literários; a possibilidade inédita de escritores estreantes viverem de literatura (não de direitos autorais, mas do movimento em torno do texto literário); a renovação do jornalismo cultural; a proliferação de blogs que se dedicam à crítica literária; a criação de canais do YouTube em que jovens comentam e compartilham suas leituras; a presença crescente de autores na esfera pública. Acrescente-se à série, a potencialidade de meios que eram vistos como óbices ao mundo da leitura e do fazer literário, mas que hoje parecem servir de motivação: destacam-se o videogame e a internet, isto é, o desenvolvimento de linguagens narrativas em interação com a especificidade dos recursos audiovisuais e digitais.

O que faremos com esses dados novos? Responder a essa pergunta é o verdadeiro desafio da crítica literária e cultural. E é evidente que não se trata de celebrar ingenuamente o contemporâneo, como um deslocado Dr. Pangloss, mas de refletir sobre sua potência. Afinal, se trata de processo em curso, cujo desfecho não pode ser antecipado — nem mesmo pelos maratonistas da melancolia chique.


[i] Eis o contexto da pergunta de Tirésias: “Vai, filho, cede ao morto, não imola um homem / Que não é mais. É um feito, então, matar um morto?” Sófocles. Antígona. Tradução: Lawrence Flores Pereira. Rio de Janeiro: Topbooks, 2006, p. 79.

[ii] Na avaliação de Pécora: “o campo literário se encontra hoje numa situação de crise, observável pela relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica. Um vírus de irrelevância, por assim dizer”.

[iv] Como mostrarei na próxima coluna, Hermano Vianna e Francisco Bosco, no Segundo Caderno, de O Globo, e Michel Laub, na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, escreveram artigos importantes sobre o tema, reagindo com agudeza ao sombrio diagnóstico.

[v] Na opinião de Mino Carta: “Há muito tempo o Brasil não produz escritores como Guimarães Rosa ou Gilberto Freyre. Há muito tempo o Brasil não produz pintores como Candido Portinari. Há muito tempo o Brasil não produz historiadores como Raymundo Faoro. Há muito tempo o Brasil não produz polivalentes cultores da ironia como Nelson Rodrigues. Há muito tempo o Brasil não produz jornalistas como Claudio Abramo, e mesmo repórteres como Rubem Braga e Joel Silveira. Há muito tempo…”.

O divertido é que a estrutura retórica recorrente “Há muito tempo”, involuntariamente aponta para o eterno retorno do argumento!

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