Ensaios e Resenhas

fevereiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Estranhos como nós

Texto publicado na edição #110

Estranhos como nós

Estou impressionada! Tenho entre as mãos um livrinho lindo, cuja capa é um convite à delicadeza. Contos do divã, de […]

> Por CIDA SEPULVEDA

Estou impressionada! Tenho entre as mãos um livrinho lindo, cuja capa é um convite à delicadeza. Contos do divã, de Sylvia Loeb. Capa de Diana Mindlin e Marcos Duprat.

A autora diz: “A idéia de escrever sobre psicanálise é antiga…” Sylvia Loeb não escreve sobre psicanálise. Ela escreve contos — histórias cujos substratos são extraídos de conversas ou silêncios, conversas e silêncios, aproximações ou afastamentos que se desenrolam entre analista e analisandos.

Qualquer leitor, do mais primário ao mais sofisticado, poderá ler os Contos do divã, pois os textos não exigem nenhum conhecimento prévio de psicanálise, nem mesmo raciocínios mirabolantes para compreensão — simplicidade que não desvaloriza o texto, ao contrário.

Aliás, alcançar a simplicidade em escrita é um dos maiores desafios que o escritor enfrenta. Mas o que é simplicidade?

Certamente há muitas definições válidas para o termo. Eu opto pela que mais me afeta: simplicidade é conseguir atingir o máximo de síntese com o menor número de elementos formais e de conteúdos.

Outro desafio que o escritor enfrenta é o de atingir a profundidade artística.

Profundidade, para mim, significa a “alma” da coisa. Não adianta um corpo fisicamente perfeito, se seu interior é vazio, frio, inatingível.

Sinto muito falta de “alma” na literatura atual. Em geral, os autores estão preocupados em narrar bem ou em inventar linguagens. A propósito, ninguém inventa linguagem por decisão racional, porque é moda, por exemplo, ser aparentemente desconexo. Ninguém narra bem se estiver preocupado em obter o maior número de páginas possível, em preencher vazios de criatividade com prolixidade. Em ambos os casos, se chega à arte presunçosa.

Uma linguagem criativa nasce do desespero do artista por achar o tom que o leva a transcender a estagnação do real. Esse é um processo doloroso, o que não anula, absolutamente, o prazer.

Sylvia Loeb, em narração linear, sem novidades aparentes, fazendo colagens de cenas e tempos, traça recortes de situações humanas, coloca na página a pulsação de cada personagem e da narradora, seus medos, inteligências, histórias, posições sociais, alegrias, fetiches, enfim, tudo aquilo que compõe o homem contemporâneo, esse ser, aparentemente, volátil que, na verdade, impulsionado por drogas lícitas ou ilícitas, se mantém vivo, morto-vivo ou vegetativo.

O que mais poderia fazer um escritor sério, descomprometido com o mercado das letras?

Tenho lido autores que estão na onda, com prêmios e tudo mais, que não são suficientemente sérios para tratar a literatura como arte. Autores cujos livros se propagam na mídia tal qual objetos de moda — e assim, são consumidos por uma classe média, em geral, descompromissada com os destinos humanos. Autores que se inserem na “alta literatura” brasileira que, de alta, só tem vaidade, egoísmo e marketing.

Sylvia Loeb escreveu um livro de contos que tem brilho próprio, densos, cujos personagens aparecem através dos lampejos de alma que propagam. Contos cheios de existências, ou melhor, de sinais existenciais, de seres contraditórios, incoerentes, portanto, estranhos.

Estranhos como nós!

Estranhos seres, trágicos e divertidos, aflitos por razões, explicações, enfim, sentidos e alentos.

Ana é a personagem que os ouve, os estimula na busca de sentidos. Ela, imersa em sua paixão pelo drama alheio, é uma figura móvel, gelatinosa, que se molda a cada personagem, tentando dele se alimentar e alimentá-lo num processo de desnudamento que, por vezes, se encerra com a desistência do analisando.

Desnudamento impossível, pois a história de cada um é composta por infinitas nuanças que, transpostas para a linguagem, ganham contornos, perfis. Nem a psicanálise nem a arte poderão dar conta do inusitado que é a vida. No máximo, estimularão as sensibilidades para o autoconhecimento e a sobrevivência na realidade macabra.

Parabéns para Sylvia Loeb que nos presenteia com uma escrita sincera, tocante, miúda e densa como as nossas vidas.

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Sylvia Loeb
Ateliê
152 págs.