Ensaios e Resenhas

março 2018 / Ensaios e Resenhas / Estrangeiros

Texto publicado na edição #215

Estrangeiros

"Dois", de Oscar Nakasato, parte dos conflitos familiares para discutir as relações afetivas e suas consequências

> Por HARON GAMAL

Ilustração: Oscar Nakasato por Fábio Abreu.

Ilustração: Oscar Nakasato por Fábio Abreu.

Dois, de Oscar Nakasato, é um romance de filiação machadiana. Não apenas pelos capítulos muitas vezes curtos. Mas pelo dualismo estabelecido a partir de uma narrativa que procura enfocar a vida de dois irmãos, em tudo muito diferentes um do outro. Outro autor, também possível ponto de partida para este romance, é Milton Hatoum, de quem há mesmo uma das epígrafes: “Cedo ou tarde, o tempo e o acaso acabam por alcançar a todos”. Machado de Assis nos legou Esaú e Jacó, livro que retrata a vida e o conflito entre dois irmãos oriundos de uma família afortunada, às voltas da segunda metade do século 19. Já o autor amazonense de origem libanesa escreveu Dois irmãos, obra marcante na literatura contemporânea, que percorre a trajetória de uma família de imigrantes também libaneses, família que se instala em uma Manaus da primeira metade do século 20. Em ambas as obras, a marca principal será o conflito, no caso do escritor carioca, a referência bíblica cobrirá a narrativa com ares trágicos. Em Hatoum, no entanto, é que se concretizará a verdadeira tragédia.

Dois começa inovando por intermédio da estrutura narrativa. Não se trata de um percurso linear, com início, meio e fim. Há a trajetória de vida de ambos os irmãos: Zé Paulo e Zé Eduardo, mas talvez não seja esta a questão principal do livro. Aliás, o romance apresenta tantas questões, que seria empobrecê-lo apontar uma maior que outra. Apresenta a vida, e isto é tudo. Ao mesmo tempo em que, de certa forma, há o abandono do tempo cronológico, o livro acentua a discórdia familiar ao apresentar, predominantemente, dois narradores, os mesmos dois personagens principais.

Zé Paulo, mais velho que Zé Eduardo, rumina um ranço rancoroso por ter tido, durante toda a vida, um percurso, segundo ele, mais espinhoso do que o do irmão. Este primeiro narrador apresenta-se já na abertura do romance:

Não sei por que me perseguem como seu eu fosse um criminoso ou tivesse alguma dívida, justamente eu, que sempre andei na linha reta da lei e nunca levei uma multa de trânsito, porque é muito simples, se o semáforo está vermelho, é para parar, se a placa está indicando que a velocidade máxima é de cento e dez quilômetros, eu vou até cento e cinco.

Há ainda outras tiradas que acentuam seu comportamento conservador, incapaz de levantar qualquer tipo de questão: “as penitenciárias estão cheias de presos, esses vagabundos preferem roubar que trabalhar”.

Solares
Os capítulos onde predomina a narrativa de Zé Eduardo, o outro irmão, mostram-se mais solares:

Hoje quase nada sei. Acordo todos os dias para viver as incertezas que me cabem, feliz por poder responder: eu não sei. A ignorância é leve, poupa-nos de muitos aborrecimentos.

Este personagem, bastante criticado por Zé Paulo, foi uma espécie de filho pródigo. Deixou a casa paterna cedo, jamais arranjou emprego fixo, envolveu-se na política estudantil do final dos anos sessenta, e depois na luta política que se seguiu, tendo inclusive aderido à luta armada. Seu relato vai incluir alguns integrantes da Aliança Libertadora Nacional (ALN), entre eles o famoso Carlos Marighella, sobre quem, na página 107, há uma passagem importante.

O embate entre os dois irmãos persistirá, sobretudo através da voz do conservador Zé Paulo. Seu discurso, durante toda a narrativa, se dá num ritmo de oralidade, porque ele não está escrevendo nenhum tipo de memórias, mas conversando com uma neta. Através da reação dos personagens que estão à sua volta, é possível perceber que ele não acompanhou o avançar do tempo, sobretudo o período posterior aos anos 1960. As reações da personagem que o escuta são espelhadas no discurso deste mesmo narrador atormentado: “Todos me perseguem, você, a sua irmã, o seu pai, a sua tia Ana Júlia […]”.

Outro aspecto interessante do livro é o local onde a narrativa se desenvolve: Maringá, cidade anfíbia, repleta de um grande contingente de cultura japonesa. Embora o percurso de Zé Eduardo se estenda por São Paulo, Rio de janeiro, Santiago do Chile e Paris, a narrativa se firma na cidade paranaense. As duas capitais estrangeiras estão presentes porque o personagem vai para o exílio. Isso mesmo, sua atividade política, de resistência à ditadura militar, põe a sua vida e a de seus companheiros de Organização em risco, por isso as lideranças da ALN preferem mandá-lo ao estrangeiro. Zé Eduardo, após a vitória dos militares brasileiros contra a luta armada, estabelece-se em Paris como motorista de táxi, voltando ao Brasil apenas após a anistia.

Zé Paulo, que fica durante toda a vida em Maringá, tem como ofício a herança de uma relojoaria da família, situada no centro da cidade, de onde ele tira o sustento para si e para os que o cercam. Ele jamais olhará com bons olhos a atividade política do irmão, inclusive desmerecendo-lhe qualquer tipo de trabalho. Zé Eduardo, no Brasil, era desenhista, após a volta torna-se tradutor. Ainda na imprensa estudantil já traçava caricaturas que marcaram as páginas dos jornais de grêmio; mais tarde, no período da ditadura, sua pena satirizaria impiedosamente os militares, nos jornais clandestinos.

O livro começa no tempo atual, com Zé Paulo, amargurado, lamentando-se de uma espécie de vida perdida. Pouco a pouco, as peripécias que marcaram o Brasil dos anos 1960 em diante vão surgindo na narrativa, até mesmo o Congresso da UNE, em Ibiúna (SP), onde esteve presente um dos narradores e, entre outros, José Dirceu.

Maringá mostra-se um belo cenário, com suas casas com quintais, árvores que serviam de trampolim para as crianças brincarem, ruas onde todos se conheciam, feiras, vendas, bares. Não poderia faltar também o centro agitado da cidade.

Dois é um livro, como se pode observar, rico em vida, tanto quanto à vida privada de cada personagem, como quanto à vida comunitária e mesmo política de uma nação, estendendo-se a exílios e retornos duvidosos, em projetos de vida que podem ser criticados, mas que não mostraram acomodação nem uma possível servidão.

Escrever literatura também é uma espécie de fazer inventário de perdas, ou cálculo de possibilidades, relatos de comportamentos humanos que, ninguém sabe, podem ser verdadeiros a uns e falsos a outros. Como diz Zé Eduardo já na altura de seus sessenta, quase setenta anos: “Hoje quase nada sei”. Os livros sempre foram os meios de transmitir o conhecimento. E a literatura, além de inserir-se neste percurso, veio também instaurar a

 

 

Oscar_Nakasato_Dois_215

Dois
Oscar Nakasato
Tordesilhas
183 págs.

 

 

O AUTOR
Oscar Nakasato
Nasceu em Maringá (PR). É professor universitário, mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada e doutor em Literatura Brasileira. Foi colaborador do caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo, com resenhas críticas sobre literatura japonesa. Conquistou diversos prêmios literários com seus contos antes de seu romance de estreia, Nihonjin, ganhar o prêmio Benvirá de Literatura (2011) e o Prêmio Jabuti, na categoria de Romance (2012).

 

>>> Leia entrevista com Oscar Nakasato

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