Dom Casmurro

fevereiro 2013 / Dom Casmurro / Esterilizar

Texto publicado na edição #98

Esterilizar

Chegou em casa passava das nove. Deixou a pasta na cadeira, descalçou os sapatos, pés sobre a mesa de centro. […]

> Por CARLOS EDUARDO DE MAGALHÃES

Chegou em casa passava das nove. Deixou a pasta na cadeira, descalçou os sapatos, pés sobre a mesa de centro. Em frente à televisão comeu fria a pizza que pedira dia anterior, a coca-cola ainda tinha gás. Arrotou. Bebeu mais coca-cola, num gole, e arrotou Meu nome é Paulo. Tirou os sapatos, as meias, levou o pé ao nariz, até fechou os olhos para sentir a força do seu chulé. Levantou-se da poltrona só o suficiente para desencostar-se do assento e soltou um pum, sonoro, depois outro. Sentiu-se feliz. Tentou ainda um terceiro, que não veio. Em volta, restos do café da manhã daquele dia, do dia anterior, de segunda-feira. Em cada canto um par de copos sujos que ele mesmo tinha usado. Jornais espalhados no sofá, sapatos e meias junto à porta do lavabo. Queria só ver a cara dela. E sorriu. A empregada semana seguinte voltaria das férias, em uma manhã punha tudo em ordem. A cama desarrumada, o lado dela tomado por revistas, embalagens vazias de chocolate, correspondências sem importância. Dormiu com a porta fechada e a janela escancarada. Acordou segundos antes do despertador. Fez a barba num banho demorado, como ela não deixava. Largou a toalha na pia, pegou a última cueca da gaveta. Apanhou o jornal, o iogurte na geladeira, o litro de leite. Teve uma surpresa ao notar que não havia mais copos limpos no armário. Saco!, disse para si mesmo, antes de abrir a torneira. Lavou o primeiro copo, quando percebeu tinha lavado um segundo, um terceiro. Pôs mais detergente na esponja, lavou todos os talheres espalhados sobre os pratos na bancada da cozinha. Lavou os pratos também. Tirou o relógio, arregaçou as mangas. Foi à sala e recolheu toda a louça, dali a pouco estaria tudo secando no escorredor. Finalmente sentou-se para ler jornal. Não conseguiu. Guardou os sapatos, encheu o cesto de roupa suja para logo em seguida esvaziá-lo na máquina de lavar. Juntou os jornais e papéis e colocou-os numa caixa, na lavanderia. Pronto. Pegou a pasta, a chave do carro, estava atrasado. Mas não saiu, a sala precisava de uma vassoura. Eram quase onze quando decidiu que precisava dar um jeito nos vidros, todos manchados. Às duas da tarde o telefone tinha tocado muitas vezes, sem que ele tivesse atendido. Já tinha passado a enceradeira na sala, pano no chão da cozinha, estendido as roupas no varal. Fim de tarde o andar de cima estava impecável. Paulo espreguiçou-se junto à janela, de lá, a vista do jardim causou-lhe incômodo. Antes de escurecer tinha aparado a grama, podado as árvores, tirado todas aquelas florzinhas amarelas que caíam da sibipiruna do vizinho. Não atendeu o telefone, quando entrou em casa. Os armários, lembrou-se. Era madrugada quando terminou de organizá-los. Passou a casa em revista. Tudo em ordem, e aquele cheiro perfume francês misturado com lavanda ficara muito bom. Quando foi verificar um pequeno risco no espelho, Paulo enxergou-se. Estava imundo, como se ele tivesse absorvido tudo o que tirara da casa. Despiu-se na lavanderia, a roupa direto na máquina. Tomou um banho rápido e eficaz, fez outra vez a barba. Não ficou satisfeito. Havia algo de errado na sua nudez refletida. Não estava bom. Os primeiros a raspar foram os do peito. Depois raspou a perna, as axilas, nem os pêlos pubianos escaparam. Não contente, foram-se o cabelo e as sobrancelhas. Por um momento chegou a sorrir. Logo seus olhos ficaram sérios e Paulo foi buscar um esfregão. Debaixo do chuveiro esfregou até a água mudar de cor. Quando mudou esfregou com mais força. E o telefone tocava, e ele não atendeu.

Ela chegou com as crianças no sábado. Seus olhos chegaram a lacrimejar com a beleza que encontrou. Móveis lustrados, azulejos brilhando, e aquele cheiro delicioso no ar. Nem sinal de Paulo, e ela fez parar a água que o chuveiro insistia em derrubar.

Paulo sempre fora um desleixado, mesmo.

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