Dom Casmurro

outubro 2011 / Dom Casmurro / Espião alemão

Texto publicado na edição #132

Espião alemão

Manhãzinha o boca-a-boca vara a cidade vem do Prado depois da ponte de ferro até o Grupo Escolar caminho para […]

> Por SALIM MIGUEL

Ilustração: Tereza Yamashita

Manhãzinha o boca-a-boca vara a cidade vem do Prado depois da ponte de ferro até o Grupo Escolar caminho para Florianópolis: foi preso o espião alemão, não um, O. Três versões: estava escondido em uma carroça, passava de mansinho na pracinha, saía dos fundos da padaria do prefeito. Dizia o registro: a gente (eram o soldado, o filho mais velho do Seo Abraão e o filho mais velho do Seo Zé) estava fazendo a ronda, noite de breu, poucas estrelas e nesguinha de lua, quando percebemos um movimento suspeito nos fundos da padaria do prefeito, prendemos o homem, botamos ele na cadeia.

Lá pelas dez horas o delegado, depois de abrir a alfaiataria, foi ver o detido, perguntou:

— Tu é nazista?

E o outro:

— Sou o Serafim.

— Tás me gozando é, me respeita.

— Que-que é isso senhor, já disse sou o Serafim.

Não demora a frente da cadeia estava atopetada, uns diziam: pensei encontrar um galego encorpado, quase dois metros, olhos azuis, esse tiquinho de gente…; outros claro, claro, claro, o Hitler é muito esperto, vê se ia botar gente dele aqui, tinha que ser um como este, cara de fuinha, magrinho, pra ninguém desconfiar; porém os mais críticos como o vendeiro-satirista Geraldinho Azevedo brincavam: espião alemão não — tinha fome queria pão.

Especulava-se, melhor, afirmava-se com certeza certa, de quem, entre a fortaleza de Anhatomirim e São Miguel, viu: tarde da noite, depois de vasculhar a redondeza com o periscópio, emergia o submarino alemão, um barquinho inflado ia até a praia, ao encontro do infiltrado que passava informações, principalmente sobre o Vale do Itajaí, também Florianópolis, além de rota dos navios brasileiros que logo seriam afundados. Antes da guerra, para espanto das gentes, foi o Zeppelin, aquele gigante dos ares, prova da força do nazismo, passando pelos céus não apenas numa demonstração, mas com certeza também fotografando o que interessava, para quando Hitler dominasse o mundo.

O preso ficou na cadeia por uns dias, mas aos poucos uma conversinha aqui outra ali, com os dois soldados, com gente que vinha conhecer o espião, com o delegado João Dedinho, ficou-se conhecendo a

História do Serafim

Meus pais sempre diziam que perderam as terras fugindo dos jagunços durante a Guerra do Contestado. Meu pai não sabe como acabou a guerra. Ele me contava, a gente tinha umas terras, cuidava delas, tu mal tinha nascido, um dia chegam os homens e vão dizendo: vocês têm até de noitinha pra se mandar daqui. Meu tio que era meio estourado foi perguntando: sair pra mode de quê, se a terra é nossa. E os três homens, já meio brabos: que de vocês que nada, o governo deu pros homens que vão construir a estrada de ferro, já disse e não vou repetir tem que sair por bem ou por mal. Meu tio sacou rápido de um revólver e antes que eles tivessem tempo deu um tiro certeiro, o homem tombou morto de cima do cavalo, antes que meu tio pudesse prosseguir foi ele que também tombou morto, não com um, porém com dois tiros, dizia meu pai que o sangue dos dois logo se misturou enquanto os que ficaram desceram do cavalo se achegaram do meu pai e da minha mãe que me tinha no colo gritaram: se fossem outros da segurança dos homens vocês três também levavam bala, nós somos bonzinhos vi que tem dois cavalos, arrepito têm até de noitinha pra juntar o que podem, montar e sumir. Meu pai perguntou e a casa, e nossas coisas, e as duas vaquinhas, os porcos, as galinhas, os homens gargalharam leva tudo no lombo dos cavalos, minha mãe cutucou meu pai e disse vamos, vamos, juntaram os trecos, o que puderam botar no cavalo aonde ia montado meu pai, outro pouquinho aonde ia minha mãe comigo no colo e quando saíam ainda viram a casa pegando fogo. Durante dias andaram meio perdidos, comiam frutas, banana, melancia, sem saber como estavam à beira de um rio, a passagem para o outro lado era feita por balsa, perguntaram ao balseiro quanto cobraria para atravessá-los, não hesitou “um dos cavalos”, não demora ficaram sabendo que estavam na tal de Itajaí, o pai pescador em Itajaí, minha mãe lavadeira, alugaram uma casinha, só tinham eu como filho, não sabiam ler nem escrever mas fizeram questão de me botar na escola, fiz três anos, até que tudo desandou. Outra vez pé na estrada, dizia meu pai; a vida recomeçou na tal de Tijucas, eu fui trabalhar pra uma família Galotti, tomava conta da fazenda que eles tinham, mas tua mãe fez a asneira de se oferecer pra lavar roupa para uns tal de Bayer, aí ficamos sabendo eram as duas principais famílias de Tijucas, se detestavam, uma não passava na frente do casarão da outra. Pé na estrada, até que acabamos em Três Riachos, era de novo terra sem dono e sem ninguém, encontramos um terreninho com uma casinha, meu pai foi bater na porta, ninguém atendeu, empurrou, entrou, sujeira, teias de aranha e disse para minha mãe é aqui que vamos ficar, ficamos, limpou a casinha eu ajudei já tinhas uns quinze anos, fez um roçado, meu pai era bom no trato da terra, afinal parecia que a gente ia arribar, pertinho tinha um bananal, abacateiros, meu pai logo descia e ia até Biguaçu trocava o que levava por caixa de fósforo, sabão, sal, querosene. Porém a má sina parecia perseguir minha família, de repente minha mãe começou a se sentir mal, um frio que não acabava, quando acabava era um calorão insuportável, ela dizia não sei se vou morrer do frio ou do calor, era a tal da sezão. Meu pai e eu enterramos ela no fundo do quintal, não demora chegou a vez dele, até hoje não sei como consegui abrir a cova e enterrar ele, deixei o cavalo, peguei umas coisinhas saí daquela terra maldita, estava com fome quando cheguei aqui, agora sei que é a tal de Biguaçu, vi aquela casa padaria, dei a volta a porta dos fundos estava aberta, entrei tomei uma gasosa, comi uns pedaços de queijo da serra, embrulhei pão dormido e um pedaço de bolo, me preparava pra sair quando fui preso.

Serafim tinha uma camisa de pelúcia toda esburacada, uma calça de brim, uma sandália pronta pro lixo e só. João Dedinho providenciou uma roupa nova, deram-lhe um banho, logo se constatou que não tinha nada de espião e brincava-se chamando-o de Serafim nazista. João Dedinho pediu que o soltassem, ele implorou me deixem na cela posso ajudar os dois soldados, foi ficando, sabia fazer contas, ler um pouquinho, escrever outro tanto, passou trabalhar com eles que o deixavam tomando conta da cadeia, era bom de prosa, não demora João Dedinho chega e pergunta: tens os teus papéis Serafim? A resposta foi rápida que papéis, seu delegado? E João Dedinho tua certidão de idade, como é que entraste na escola, Serafim riu ora, ora, quem lá pela tal de Itajaí se interessava, entrei na escola e pronto. João Dedinho perguntou: sabes pelo menos o nome completo de teu pais, e Serafim saber sei, Serafim da Silva e Mercedes Coelho da Silva, o alfaiate delegado disse ainda bem, vou falar com o juiz depois vamos no cartório, tens pelo menos idéia da tua idade, Serafim pensou, balançou a cabeça, sei não meu pai dizia que eu nasci meses antes dos homens tomar nossas terras, foi a vez do delegado alfaiate: vamos dizer que foi lá por mil novecentos e quinze estamos em mil novecentos e quarenta, deves estar com 25 anos.

Já definitivamente brasileiro, Serafim com uma roupinha melhor foi com João Dedinho a Florianópolis, conversaram com o comandante da Polícia Militar e pouco depois ele era o terceiro soldado de Biguaçu; com o pequeno salário alugou um quarto na pensão da dona Veridiana, nas horas de folga fazia bicos, ia ajudar Seo Geraldino ou Seo Salim Gordo, mostrou-se bom de bola, passou a jogar no Guanabara integrando-se à comunidade biguaçuense, por pouco não acabou na Força Expedicionária, que ia combater aqueles nazistas dos quais por meia dúzia de dias ele quase fez parte.

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