Ensaios e Resenhas

novembro 2011 / Ensaios e Resenhas / Espaços em crise

Texto publicado na edição #127

Espaços em crise

A certa altura de minha adolescência, meus olhos se desviaram obliquamente da aridez do “mundo” para as páginas caudalosas de […]

> Por FRANCINE WEISS

A certa altura de minha adolescência, meus olhos se desviaram obliquamente da aridez do “mundo” para as páginas caudalosas de alguns livros. Naqueles tempos de que me lembro como tendo sido “obscuros”, havia em minha casa uma regra que me proibia de ler após as luzes terem sido apagadas e alguém que se encarregava de vigiar a execução do comando: minha mãe. Isso não me impedia de eventualmente me esconder na despensa para atravessar a madrugada percorrendo minhas páginas. Talvez tenha sido oportuno o fato de meu pai ter sido vendedor viajante de livros, dentre os quais alguns exemplares perfilavam-se em estantes da casa, figurando como algum tipo extravagante de troféu. Certamente foi decisivo que minha mãe, desconfiada de minhas atitudes, tenha confiscado para nunca mais devolver uns dois ou três volumes.

Não havia leitores na casa, mas o fato de uma tia ser uma leitora contumaz foi a pedra de toque. A pedra de toque, como se sabe, teria podido transformar qualquer metal ordinário em ouro puro. Os livros, que encontrei em minha casa, que busquei nos acervos públicos ou na escola e que me foram fornecidos quase como objetos ilícitos por aquela tia converteram-se, para mim, nesse misterioso espaço-tempo de cicatrização, elaboração, respiração, preparação, consolo, indagação, realização vicária, frustração dosada e espera. Converteram-se em um espaço de transformação do pior do mundo e de mim mesma em algo. Espaço-tempo em que havia desejo e em que o desejo encontrava caminhos por onde se esgueirar.

Esgueirando-me por entre os livros, assustando-me a todo momento com os gestos bruscos das pessoas a meu lado, tornei-me um dia professora de literatura. E então, quando me vi no cenário escolar, entre avaliações e registros de notas, suplementos para o aluno, recomendações do Ministério da Educação e Cultura, exercícios de compreensão e gramática, fui arrancada com brutalidade do espaço onde sempre me refugiei e me recompus do susto da vida, para constatar que a leitura é uma obrigação odiosa que a civilização impõe aos que desejam ser bem sucedidos no mundo pragmático e comercial. Serve para escrevermos tão bem quanto Machado de Assis e não reprovarmos no vestibular.

A arte de ler, da antropóloga francesa Michèle Petit é, antes de mais nada, um livro que nos confronta com o exercício da leitura literária como experiência individual e indizível (não mensurável, não tabulável, não passível de avaliação numérica ou conceitual), como mecanismo de inserção na sociabilidade de que somos feitos (pela partilha de um repertório comum, pela partilha de rituais sociais em torno desse repertório), como espaço de constituição ativa da subjetividade, de subversão de amarras e superação simbólica (ainda que não necessariamente concreta) dos impasses e contradições da vida cotidiana. No livro, faz-se, entre outros aspectos, o relato de uma infinidade de experiências de leitura e de leitores reportados a espaços particularmente inóspitos da geografia do mundo real nosso contemporâneo, o que para alguns será o dado mais precioso.

Investigação
Atuando no Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, na França, Petit investiga o assunto desde os anos 90, tendo se dedicado mais recentemente ao estudo de bibliotecas e grupos de leitura em processos de combate à exclusão e/ou em tentativas de reintegração social de jovens moradores de espaços “em crise”, no México, na Colômbia, na Argentina e mesmo no Brasil.

Como indica o título de um de seus livros, Éloge de la lecture: la construction de soi, seus estudos se voltam para a análise da leitura na construção e reconstrução da subjetividade, além de abordarem os diferentes tipos de oposição a que se submete a leitura na contemporaneidade, como aquele que divide jovens por gênero e, em determinados contextos, impõe barreiras sociais ou punições aos garotos interessados em ler. Em outro livro, Os jovens e a leitura: uma nova perspectiva (Editora 34, 2008), abordando as dificuldades impostas por uma certa hostilidade institucionalizada contra a cultura letrada, sublinha os sinuosos caminhos que percorrem aqueles jovens que acabam por se encontrar nos livros:

Graças a mediações sutis, calorosas e discretas ao longo de seu percurso, a leitura começou a fazer parte de sua experiência singular. Não se tornariam necessariamente grandes leitores, mas os livros já não os desencorajavam nem os assustavam. Ao contrário, ajudavam-nos a encontrar palavras, a serem um pouco mais atores de sua própria história. Tanto quanto um meio de sustentar o percurso escolar, a leitura era, para esses meninos e meninas vindos de famílias muitas vezes iletradas, mas desejosos de traçar seu caminho, um auxílio para elaborar seu mundo interior e, portanto, de modo indissoluvelmente ligado, sua relação com o mundo exterior.

O trabalho de Michèle Petit mantém ligações diretas com a psicanálise e realiza apenas incursões ocasionais pelo mundo escolar, espaço usualmente considerado quando se pensa a leitura. Seus estudos apontam a relevância da experiência como leitor, ainda que esporádica ou ocasional. A arte de ler, nesse sentido, é um livro pródigo em arrolar experiências que envolvem adultos, crianças e adolescentes, em espaços rurais ou bairros populares da periferia urbana, sem divergências qualitativas relacionáveis à idade ou situação social dos envolvidos.

Apresentam-se os resultados do trabalho de “mediadores” culturais de grupos tão diversos quanto ONGs, hospitais, ações voluntárias esparsas ou programas de leitura de âmbito nacional como aqueles desenvolvidos na Argentina e abordados na obra, ou como o grupo denominado A Cor da Letra, com experiências no Amazonas ou no Paraná. Obtendo seu suporte financeiro em organizações internacionais, instituições públicas ou privadas, os diferentes grupos comungariam do empenho em viabilizar o acesso à leitura para aqueles usualmente mais distanciados de tal acesso. Partindo de orientações teóricas por vezes divergentes, os esforços convergem ao descrever como cada leitor experimentaria, ao se confrontar com um texto, um território propício à liberdade, à (re)organização psíquica:

Nossos interlocutores se referiam a alguma coisa mais abrangente do que as acepções acadêmicas da palavra “leitura”: aludiam a textos que tinham descoberto em meio a um tête à tête solitário e silencioso, mas também, algumas vezes, a leituras em voz alta e compartilhadas; a livros relidos obstinadamente, e a outros que haviam somente folheado, apropriando-se de uma frase ou de um fragmento; aos momentos de devaneio que se seguiam à relação de convívio com a escrita; às lembranças heterogêneas que ali encontravam, às transformações pelas quais passavam. Mais do que a decodificação dos textos, mais do que a exegese erudita, o essencial da leitura era, ao que parecia, esse trabalho de pensar, de devaneio. Esses momentos em que se levantam os olhos do livro e onde se esboça uma poética discreta, onde surgem associações inesperadas.

Quando salienta o papel da oralidade na descoberta da literatura, Petit refere-se à leitura como relação intersubjetiva, inicialmente estabelecida entre mãe e filho, ou entre pais e filhos, como poderíamos almejar. Relação em que dois corpos se comunicam, uma voz e uma escuta, palavras se falam sem que se precisem enunciar todos os sentidos, sem julgamentos, roteiros previamente estabelecidos, relação como a que os mediadores de leitura estabeleceriam igualmente em seus grupos, pela interação mútua proporcionada no encontro de leitura.

A leitura vivida como encontro e sociabilidade dependeria, como informa o título escolhido por Petit, da arte empregada no acompanhamento amoroso propiciado por um mediador (alguém com as mais diferentes formações, mas sempre, ele próprio, um leitor) capaz de transformar um livro em um objeto de desejo. Arte que pressuporia uma relação pessoal com os livros e não um discurso. Arte desempenhada não em recomendações, mas em um exercício por meio do qual a literatura é posta em cena em sua vitalidade e atualidade.

Assim, os “espaços em crise” de que trata o livro referem-se, também, às experiências vividas pela pequena Michèle: “Se me interessei por essas temáticas foi provavelmente porque fucei muito nos livros para enfrentar as angústias que tive que atravessar”. Em algum momento da vida, dirá a pesquisadora, “cada um de nós é um ‘espaço em crise’”. Crise que, por vezes, a leitura, enquanto contato com a alteridade, adensa, em vez de acalmar:

Não estamos aqui diante de histórias que refletem como num espelho a imagem de pessoas semelhantes a si mesmas, exprimindo-se da mesma maneira, mas em uma dimensão que, a princípio, distancia: um símbolo, mais que um reflexo. Dito de outro modo, algo que permite se representar, se situar, pensar (o que um espelho não permite). Algo que, por causa disso, é suscetível de domesticar um pouco a violência das pulsões e, ao mesmo tempo, abrir para laços com os outros, mais do que confinar alguém ao convívio com seu semelhante, a estar face a face com o mesmo, o idêntico a si.

Os aficionados por literatura ficarão entediados às tantas páginas do livro pelo excesso de demonstrações da tese central. Os aficionados por literatura (talvez seja o caso de assinalar) não serão necessariamente o crítico erudito lutando por preservar uma leitura (um sentido), o historiador defensor de um cânone com seus valores e sanções, o professor que reproduz os dois anteriores ou o burocrata quantificador de todos esses desempenhos. Há alguma coisa na escola e mesmo na universidade, tal como as conhecemos, que entra em violento choque com aquilo de que trata este livro: a relação pessoal que é possível estabelecer com a literatura, em qualquer idade, em qualquer grupo social, em qualquer parte do mundo, freqüentemente como resistência a adversidades tão poderosas quanto os cerceamentos institucionais.

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MICHÈLE PETIT

Michele Petit_127

É antropóloga, pesquisadora do Laboratório de Dinâmicas Sociais e Recomposição dos Espaços, do Centro Nacional de Pesquisa Científica, na França, e tem obras traduzidas em vários países da Europa e da América Latina, como Éloge de la lecture: la construction de soi (2002) e Une enfance au pays des livres (2007), entre outros.

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Michèle Petit
Trad.: Arthur Bueno e Camila Boldrini
Editora 34
304 págs.