Atrás da estante

outubro 2011 / Atrás da estante / Escrita pura, escrita contaminada

Texto publicado na edição #139

Escrita pura, escrita contaminada

João Gilberto Noll tem uma proposta literária que alimenta e desafia a criação literária

> Por CLAUDIA LAGE

João Gilberto Noll: "A minha utopia hoje é dissolver as fronteiras entre prosa e poesia".

No momento da criação, várias forças se encontram, disse, uma vez, o crítico e professor Reinaldo Laddaga. Além do esforço do próprio ato criativo, estão presentes a força imaginativa, sem a qual nenhum trabalho artístico pode vingar, e uma espécie de energia dinâmica que parece atuar sobre a criação de forma dupla: às vezes, obscuramente, sem a consciência total do artista. E, em outras vezes, com o seu total conhecimento. De uma forma ou de outra, essa força se expressa na obra concretamente por meio do direcionamento que o artista, no caso, o escritor, dá a sua obra. Direcionamento que se evidencia na forma de um estilo, uma intenção estética, uma escolha de caminho artístico, uma proposta criativa, que, longe de servir apenas ao livro escrito no momento, serve na formação de todo um pensamento e direcionamento de sua obra. É um modo específico de ver e fazer literatura.

Nas últimas linhas do ensaio Introduccíon a un lenguaje invertebrado, una situación de João Gilberto Noll, Laddaga aponta uma constelación de escritores (Clarice Lispector, Julio Cortázar, Guimarães Rosa, Octavio Paz, Juan Rulfo, João Gilberto Noll, entre outros) que teriam em comum a composição de uma escrita singular. Em seu ensaio, Laddaga se debruça sobre a escrita de Noll na busca de abarcar a singularidade de sua obra. Ao fazer isso, levanta uma questão interessante: a de que por trás da história contada (ou não), da linguagem, e, até mesmo, do escritor, há, em Noll, uma proposta literária que alimenta e desafia a criação.

Na medida em que o autor se conscientiza, internaliza, ou pensa sobre a sua proposta, passa a trabalhar nela como fonte de inspiração e reflexão. Reflexão sobre a escrita, sobre os modos de escrever, as possibilidades neste caminho. E a sua obra vai refletir e expressar essa busca em formas próprias, que marcarão cada vez mais o estilo e a voz desse escritor. Não se trata mais de contar uma história, mas de como contá-la. Essa mudança de atitude envolve uma relação diferente e singular com a linguagem, assim como envolve um posicionamento do escritor diante de toda a história literária.

Em entrevista à revista americana Brasil/Brazil, Noll disse que “me identifico mais com a forma litúrgica medieval do que com essa cultura do século 19, da ascensão burguesa […] tenho dificuldade neurológica de acompanhar essa narrativa que nasceu do folhetim […] não consigo me sentar para ver um filme com muita historinha. É por isso que as artes plásticas são o meio de expressão artística que mais tem me chamado a atenção ultimamente”. É instigante saber que um escritor tem se interessado mais por artes plásticas do que por narrativas, talvez por ser uma linguagem com mais acesso a recursos expressivos não cotidianos, com potencial de expressividade imagética imediata? Sem necessidade de enredo, contexto, verossimilhança e tudo o mais que a literatura engloba? Apesar de escrever prosa, Noll afasta-se do romance tradicional desenvolvido desde o século 19 e alimenta seu interesse e imaginário com cores, formas, volumes, densidades, texturas, perspectivas, imagens. Elementos, que curiosamente, também são em sua maioria, próprios de outra linguagem: a poesia.

Julio Cortázar, outro escritor da constelación, desenvolve, bem ao seu estilo, considerações a respeito da presença, também em sua literatura, da poesia. “Não existe linguagem romanesca pura, posto que não existe romance puro […] Toda narração comporta o uso de uma linguagem científica, enunciativa, com a qual se alterna, imbricando-se inextricavelmente, uma linguagem poética, simbólica, produto intuitivo em que a palavra, a frase, a pausa e o silêncio transcendem a sua significação idiomática direta”.

Em A fúria de corpo, romance de estréia de João Gilberto Noll, parece que o modo poético absorve o enunciativo. “É quando vejo que a alma de Afrodite arde em labaredas roxas, baba lavas, ruge lascas de uma língua dura feito pedra, silva um canto caudaloso, enxurra mais que vogais e consoantes, ergue as mãos livres, crispa as unhas na lua, menstrua cólicas abismais, vomita fogo, se enrijece a ponto de os pés cravarem os nervos no asfalto”. Ainda que se identifique a estrutura narrativa, o relato e a ação, há a fusão dos dois modos, embora sob imposição imperativa do poético, que acaba por transformar o resultado estético da prosa. A escrita de Noll se afasta radicalmente do romance burguês do século 19 e das suas heranças desenvolvidas durante o século 20, se aproximando muito mais das experimentações modernistas. Laddaga sugere essa aproximação, e Cortázar dá a dica. “Qualquer romance contemporâneo com alguma significação revela uma influência surrealista, num sentido ou num outro; a irrupção da linguagem poética sem fim ornamental, os temas fronteiriços, a aceitação submissa de um transbordamento de realidade no sonho, o “acaso”, a magia, a presença do não-euclidiano que procura se manifestar assim que aprendemos a lhe abrir as portas são contaminações surrealistas dentro da maior ou menor continuidade tradicional da literatura”.

Numa entrevista, o jornalista Ronaldo Bressane pergunta sobre a predominância da carga imagética em seus livros, e Noll fala da importância da poesia em sua obra. “Mas isso que você chama de imagético eu chamo de pele da linguagem, que tem uma musicalidade. Alguma coisa ligada à fome de beleza [….] acho que é uma certa compensação, pelo menos na minha luta de chegar à poesia. Estou querendo cada vez mais esse hibridismo — prosa e poesia — mas que não seja aquela prosa poética um pouco engalanada, que não me interessa. […] Claro que esta busca pela beleza não passa pelo ideal clássico, cadavérico, pronto, mas uma beleza que seja furiosa, até deselegante, feia. A literatura não é um documento naturalista. A gente está empapuçado de naturalismo. A literatura necessita de uma transfiguração estilística. A minha utopia hoje é dissolver as fronteiras entre prosa e poesia”.

Laddaga denomina a sua constelación de Modernismo tardio, um nome que mais obscurece do que esclarece, ele próprio diz, mas que também indica a aproximação com a escrita que busca a ruptura com as técnicas tradicionais. Esse dado já indica uma opção, uma estrada, mas, dentro desta, como se dão os passos, as paradas, a assinatura de cada escritor, que torna a sua escrita singular? Laddaga pergunta: “¿a qué se debe su formación? ¿Qué deseos vehicula? ¿Y de qué imposiciones de lo real atestiga?”

A literatura tradicional, os clássicos e a literatura de vanguarda convivem, talvez não sem arestas e faíscas, na mesma estante do escritório do escritor contemporâneo. A sua maior angústia e desafio se tornam a busca de um caminho que concretize o seu potencial criativo com propriedade. A escrita de Noll, Clarice, Cortázar, citados por Laddaga, se constrói a partir de um lugar que o escritor assume diante dessa imensa herança, com atitude, projeto e visão literária própria, singular.

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