Inquérito

março 2017 / Inquérito / Escrever para se sentir bem

Texto publicado na edição #203

Escrever para se sentir bem

26 perguntas a Fabrício Corsaletti

> Por FABRÍCIO CORSALETTI

Fabrício Corsaletti, autor de Baladas

Fabrício Corsaletti, autor de Baladas

Fabrício Corsaletti escreve quase todos os dias. Está sempre às voltas com contos, crônicas e poemas. Busca não sofrer com a falta de assunto e, ao escrever, procura “algo inesperado, transformador”. Nascido em Santo Anastácio (Oeste paulista), em 1978, vive em São Paulo desde 1997. Formou- se em Letras pela USP e já publicou Estudos para o seu corpo, que reúne suas quatro primeiras coletâneas de poesia. Também é autor dos contos de King Kong e cervejas, da novela Golpe de ar, dos poemas de Esquimó e Quadras paulistanas, das crônicas de Ela me dá capim e eu zurro, além dos livros infantis Zoo, Zoo zureta e Zoo zoado. Seu livro mais recente é Baladas, com ilustrações de Caco Galhardo.

• Quando se deu conta de que queria ser escritor?
Aos 15 anos li o poema Motivo, da Cecília Meireles, na apostila do colégio e pensei: “É isso. Quero fazer isso”. Na mesma época caiu um livro do Vinicius de Moraes na minha mão, uma antologia de crônicas, letras de música e poemas. Foi uma leitura importante também. Aí comecei a escrever e não parei mais.

• Quais são suas manias e obsessões literárias?
Manias? Não coloco epígrafe em texto nenhum. Não sei por quê. Mas agora é tarde para quebrar essa lei. Obsessões? Os autores aos quais sempre volto: Manuel Bandeira, Drummond, Rimbaud, Rubem Braga, Tchekhov, Bob Dylan, etc.

• Que leitura é imprescindível no seu dia a dia?
Estou sempre lendo alguma ficção e sempre relendo algum poeta. De vez em quando leio algum livro de história ou jornalismo, mas muito menos do que leio romances e livros de contos ou crônicas. Quase nunca leio teoria.

• Se pudesse recomendar um livro ao presidente Michel Temer, qual seria?
As obras completas de Olavo Bilac. Acho que ele ia gostar, se é que já não adora.

• Quais são as circunstâncias ideais para escrever?
De manhã, sem ressaca, com uma caneca de café ao alcance da mão, com uma ideia forte na cabeça — dessas que não te deixam desistir.

• Quais são as circunstâncias ideais de leitura?
De manhã, sem ressaca, com uma caneca de café ao alcance da mão, um dia depois de terminar um poema.

• O que considera um dia de trabalho produtivo?
Os dias em que escrevo uma crônica do início ao fim, mesmo sabendo que no dia seguinte vou reescrever trechos, alterar detalhes, etc. Ou qualquer dia em que escrevo um poema.

• O que lhe dá mais prazer no processo de escrita?
O momento em que o texto — conto, crônica, poema — encontra a sua forma é o primeiro momento que faz esse trabalho valer a pena. Mas o maior prazer é quando boto o ponto final num texto que diz exatamente o que quero dizer, ou que de alguma maneira me disse algo inesperado, transformador.

• Qual o maior inimigo de um escritor?
A falta de tempo, isto é, de dinheiro. A vontade de agradar os críticos de seu tempo também pode ser um problema.

• O que mais lhe incomoda no meio literário?
As mesmas coisas que me incomodam nos meios não literários: a mesquinharia, a inveja, a injustiça e a chatice.

• Um autor em quem se deveria prestar mais atenção.
Idea Vilariño (1920-2009), grande poeta uruguaia, praticamente desconhecida no Brasil. Falta uma tradução dos seus poemas para o português.

• Um livro imprescindível e um descartável.
Não acho que algum livro seja imprescindível. Mas vamos lá. Imprescindível: 200 crônicas escolhidas, do Rubem Braga (ou a Odisseia, de Homero). Descartável: não consigo pensar num título específico; mas são muitos; provavelmente meu cérebro já os descartou.

• Que defeito é capaz de destruir ou comprometer um livro?
Um livro pode não funcionar por muitos motivos. É preciso pensar caso a caso. Não há uma resposta pronta.

• Que assunto nunca entraria em sua literatura?
A princípio, estou aberto para escrever sobre qualquer coisa em que eu acredite. Mas na prática não é bem assim. Um escritor, aos poucos, vai percebendo seus limites. Em todo caso, gosto de pensar que não tenho muitos preconceitos.

• Qual foi o canto mais inusitado de onde tirou inspiração?
Ah, foram muitos. Um que me ocorre agora: uma vez fui fazer a barba e olhei para as minhas orelhas com estranhamento. Senti que fazia tempo que não pensava na existência disso, as orelhas humanas, ou as minhas orelhas. Dias depois escrevi um poema cujo título é Feliz com as minhas orelhas.

• Quando a inspiração não vem…
Não tem muito essa história. Tenho sempre um texto para trabalhar, algo que deixei inacabado, etc. Escrevo quase todos os dias. De vez em quando vem um momento de “inspiração” e eu aproveito. Quando não vem, escrevo o que posso. Quando não sai nada, forço a mão e me chateio — ou me surpreendo. E quando não sai nada mesmo, vou ler ou beber ou ouvir música ou dormir. Não sofro por falta de assunto.

• Qual escritor — vivo ou morto — gostaria de convidar para um café?
Nenhum. Sou tímido. Péssimo em primeiros encontros. Teria que convidar (o Chico Buarque, talvez) para uns dez ou doze cafés, e aí já seria abusar da paciência dele.

• O que é um bom leitor?
Não sei.

• O que te dá medo?
Parar de escrever. Perder meus pais. Ficar brocha. Não ter dinheiro para comprar arroz, latas de sardinha, cerveja e café.

• O que te faz feliz?
Escrever, ler, beber, andar pela cidade. Fazer sexo. Dormir bem. Encontrar minha namorada. Visitar minha família. Brincar com minha sobrinha.

• Qual dúvida ou certeza guiam seu trabalho?
A certeza: preciso escrever para me sentir bem. A dúvida: se um dia vou realmente me sentir bem.

• Qual a sua maior preocupação ao escrever?
Que o texto encontre sua forma. Chegar aonde precisa chegar.

• A literatura tem alguma obrigação?
Ser honesta.

• Qual o limite da ficção?
Não sei. Melhor perguntar para algum crítico. Não penso muito nisso.

• Se um ET aparecesse na sua frente e pedisse “leve-me ao seu líder”, a quem você o levaria?
A Bob Dylan. Ou à minha analista.

• O que você espera da eternidade?
Nada. Não tenho ideia do que seja isso.

 

Fabricio_Corsaletti_Baladas_203

 

Baladas
Fabrício Corsaletti
Companhia das Letras
61 págs.

 

 

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