Ensaios e Resenhas

junho 2020 / Ensaios e Resenhas / Escravos do desejo

Texto publicado na edição #242

Escravos do desejo

"Fantina: cenas da escravidão", do abolicionista Duarte Badaró, detalha os conflitos raciais que estão nas raízes do Brasil

> Por Faustino Rodrigues

Recentemente, em trabalho gráfico admirável, a Chão Editora lançou Fantina: cenas da escravidão, de Francisco Coelho Duarte Badaró (1860-1921). A obra foi publicada originalmente em 1881, em meio aos questionamentos sobre o trabalho escravo dos negros em um país que tentava ingressar na vida moderna, guardando ainda muito do rural e da dominação social, política e cultural de aristocratas, grandes proprietários de terras. O complexo momento suscita uma análise cuidadosa por parte de políticos e intelectuais no que toca à constituição da sociedade brasileira.

Duarte Badaró nasceu em 1860, em Piranga, interior de Minas Gerais. Com formação em humanidades e direito, exerceu funções como as de promotor, juiz, deputado constituinte (entre 1891 e 1893) e embaixador. A atuação política obscureceu a sua produção literária, gerando, inclusive, questionamentos quanto à qualidade de sua obra.

Publicar um livro como Fantina, hoje, não é apenas fazer um resgate da produção literária e estudo histórico da formação do Brasil e o lugar ocupado pelo negro, tema central da narrativa. Definitivamente, a investida caminha lado a lado com a da ampliação do debate em torno da centralidade da questão racial e os conflitos que sempre estiveram presentes em nossas origens. Logo, trata-se de uma obra absurdamente atual.

Li o livro a par desses aspectos. Diante da inevitável presença dos conflitos sociais/raciais, a despeito dos discursos de harmonia de raças no Brasil, saltou-me aos olhos o hedonismo pulsante dos senhores, brancos, principalmente no que diz respeito ao seu “direito de propriedade”. Dona Luzia, uma das personagens, simplesmente vê a vida passar após a morte do marido. À sua jovialidade dos 40 anos, havia o peso da conservadora condição de viúva. Mesmo assim, desejava gozar da vida, pois “ideias sensuais bailavam no seu cérebro ora remoçado”. Por outro lado, havia Frederico, um “pândego”, que, para horror do moralismo da época, deleitava-se em festas “escabrosas”, cultivando um comportamento desregrado. Ele “começava de resolver na mente as altas ideias de realizar seus sonhos ridentes, casando-se com a viúva rica. Lembrava-se de Fantina, da Amélia e de outras mulatas da fazenda. Dias mansos e rosados enlaçavam-se cantando no horizonte de seus dias futuros […]”. Os desejos de Luzia e de Frederico estavam postos em cena.

Sadismo senhorial
O extenso posfácio de Sidney Chalhoub é excelente. Trabalha com pontos fundamentais da obra de Duarte Badaró, focando sua lente no aspecto da exploração do negro, sobretudo na violência contra a mulher negra, tema pouco trabalhado na literatura da época. Traz-nos à baila um elemento que adquire grande destaque ao mencionar o esforço da literatura brasileira em finais do século 19 e princípios do 20 para atingir a verossimilhança. É uma permanente tentativa de aproximação da realidade. Isso por que, para os desavisados, alguns dos aspectos de Fantina podem soar um tanto absurdos. O livro manuseia episódios, muitos deles assaz cruéis e absurdos, a levar ao questionamento sobre a filiação à escola realista a que se propõe Badaró. Chalhoub sai em defesa do autor, elogiando sua obra, não necessariamente pelo conteúdo literário, frente à de uma contemporânea — Escrava Isaura (1875), de Bernardo Guimarães, prefaciador de Fantina —, mas pertencente ao romantismo brasileiro.

Com a apresentação de diversos relatos históricos, bem como a acuidade dos incansáveis historiadores a dominarem o tema discutido, Chalhoub sublinha a existência de episódios reais da sociedade brasileira do 19 que não se distanciam muito das descrições de Duarte Badaró. Anula qualquer eventual excesso de Fantina. Logo, há, de fato, uma proximidade entre a realidade vivenciada pelo autor e suas descrições. É possível, é verossímil. Não há exageros.

Sem velo, habita aí a brutalidade do livro, evidente em momentos como, por exemplo, quando Dona Luzia se arrepende de não ter dado castigo maior a Fantina, por supostamente haver se insinuado a Frederico:

A senhora encostada à parede, dizia que antes tivesse feito à Fantina o que sua avó fizera a uma escrava que incorreu no mesmo crime. Essa escrava, dizia ela, foi amarrada pelos pés aos galhos de uma árvore, ficando com a cabeça no chão; depois despejaram-se três ou quatro alqueires de milho ao redor, e soltaram a porcada que estava presa há cinco dias. Em menos de um quarto de hora só se via o corpo da cintura para as pernas. Enquanto esteve ao alcance do focinho dos animais, viam-se os intestinos puxados como um fio de linha de um novelo.

As atrocidades descritas no posfácio como possíveis de terem ocorrido estão ligadas ao sentimento de propriedade dos brancos em relação aos negros. Aqui é onde habita o hedonismo mencionado por mim. Falamos de homens e mulheres, donos de outros homens e mulheres, que apresentam desejos em uma urgência de satisfação. E, nesse cenário, ambicionam satisfazê-los independentemente de qualquer coisa. A naturalização da situação em meio à verossimilhança, mencionada por Chalhoub, é exatamente isso.

Hedonismo à brasileira
O Brasil é um país construído a partir desse hedonismo de um agrupamento social que se julga estar acima de outros agrupamentos. Esforça-se por manter hábitos a lhe conferirem o mínimo de distinção sobre os demais, inevitavelmente presentes ao seu redor. Nisso, instruem aquilo que lhes pertence e como devem ser servidos. O debate em torno da raça, em nosso país, obrigatoriamente circunscreve esse ponto, é inalienável.

Raymundo Nina Rodrigues (1862-1906) foi um dos primeiros intelectuais brasileiros a se debruçar sobre o tema da mestiçagem. Ao identificar a pele clara da sociedade europeia clássica à civilização, condenou a mistura de raças ao vê-la como obstáculo para o desenvolvimento do Brasil. Gilberto Freyre (1900-1987), em contraposição, alimentado pelo culturalismo vigoroso do princípio do século 20, caminhou em sentido contrário ao apresentar de maneira dulcificada a mestiçagem como traço singular de uma sociedade. Não desconsidera a crueldade da escravização, mas atenta para o fato de que o bônus da singularidade brasileira, de sua particularidade, era muito maior do que qualquer eventual débito ao seu passado. É uma visão atenuada sobre a condição de cativo.

Diferentemente desses dois autores, Duarte Badaró, em um propósito distinto, não julga os resultados da mestiçagem, para o bem ou para o mal. Ele está muito mais preocupado em demonstrar o que a movimenta. Com Fantina, lembra-nos constantemente que ela é fruto da brutalidade derivada da condição de legítimo domínio de uma raça sobre a outra. Isso se deu a tal ponto que o hedonismo, a realização dos desejos, pudesse ocorrer sem quaisquer escrúpulos, sem quaisquer impedimentos, sob a pena de haver, a uma contestação, uma resposta do tipo: “sou o dono, estou no meu direito”.

Frederico não podendo dominar-se agarrou-a fortemente pelas mãos, e cingindo-a ao peito, imprimiu-lhe na face que abrasava, beijos absorventes, devoradores, onde derramou toda a ânsia animal de sua natureza potente.

A “necessidade” de consumar os prazeres, desejos, não pode ser desconsiderada em uma interpretação sobre a dominação de raças no Brasil. Ela colore o imaginário em torno daquelas ideias tão comuns hoje em dia, como a da “mulata sensual”, por exemplo, agora felizmente questionada de baixo para cima. É nesse ponto que reforçamos a atualidade da obra de Duarte Badaró. Igualmente, é nesse ponto que a sua trama, da maneira como se apresenta, encontra robustez suficiente para se manter de pé e chamar a atenção dos leitores contemporâneos. Ler esse livro é ver o Brasil por dentro.

A despeito das críticas feitas à composição literária de Fantina, podemos salientar pontos que nos ajudam a perceber de modo mais apurado uma atenção de seu criador em meio à escrita. A narrativa encontra-se em terceira pessoa. Desse modo, a complexidade psicológica de uma protagonista, como a própria escravizada Fantina, é subsumida. Os capítulos são curtos, suprimindo a eventual profundidade de um fato, ou ato, entre os personagens. Ele é apresentado, descrito e ponto final. Página virada, capítulo superado. Muitas vezes, tem-se a interrupção de uma determinada ação para que algo seja descrito de modo um tanto pormenorizado, conforme acontece com o realismo brasileiro daquele período, criando assim a ambientação necessária para a trama.

Por conseguinte, narrar em terceira pessoa permite ao leitor o olhar de fora, facilitando a associação dos personagens a indivíduos comuns, além de facilitar o acesso à ambientação criada pelo cativeiro do negro. Duarte Badaró foi abolicionista. Naquele momento, era natural fazer a apresentação de sua causa tentando descrevê-la minimamente, a ponto de permitir que o próprio leitor, no caso do livro, tenha mais liberdade para um julgamento. E, no caso de um leitor branco e possível dono de escravos, ingresse nessa perspectiva hedonista, da colocação de seus desejos acima de tudo, a ponto de realizar crueldades em nome deles.

Um adensamento psicológico dos personagens, em grande medida, inibiria a aproximação entre o leitor daquele tempo e a obra — destarte o propósito parcialmente panfletário de Fantina e o inevitável objetivo de descrição de uma época e uma condição social. Duarte Badaró tem de chocar, não despertar contemplação — a causa abolicionista não era contemplativa. Isso, aliás, poderia até mesmo promover maior rechaço quanto ao propósito do movimento político em si.

Desse modo, em capítulos curtos, impede-se que o leitor fique mastigando o sadismo característico dos escravizadores — cultivado minimamente em cada brasileiro, em meio ao seu hedonismo. Estamos diante de uma linguagem de folhetim, característica da literatura abolicionista daquele período. Quem lê não se detém muito tempo em fatos a ponto de lhe causar a necessidade de afastamento — ou massagear os seus desejos ansiosos por realização.

Outro ponto interessante, quase fugidio aos olhos desatentos, é o racismo fomentado pelos próprios abolicionistas. Trata-se de algo um tanto comum naquele período, como artifício para convencer, em claro tom panfletário, que a abolição era o melhor caminho a ser seguido pelos senhores donos de escravos — em grande medida, os cativos já sabiam disso. O mal causado por Rosa, ao envenenar sua senhora, D. Luzia, demonstra um pouco esse fato, acentuando paralelamente o conflito. Afinal, ao longo da obra, Luzia não foi apresentada como uma pessoa absurdamente má — apenas alguém com anseios, desejos, repleta de ciúmes, como qualquer um, e dona de escravos.

E, aqui, o recurso à descrição é fundamental como forma de tocar nos hábitos e costumes daquele tempo, adquirindo proximidade com o leitor, fugindo de qualquer eventual estranhamento. É a permanente busca pela verossimilhança, mencionada no prefácio e posfácio do livro.

Em meio a tudo, pode-se assegurar que a escrita de Duarte Badaró é repleta de intencionalidades. O autor sabia o que estava fazendo. É difícil trabalhar com condicionantes, com os “se” da vida. Logo, não posso inferir sobre a obra caso estivesse em outro formato. Ela tem, sim, grande qualidade literária. Descreve bem o seu tempo a partir de uma trama possível. Penetra ao longo da história da constituição da sociedade brasileira em seus conflitos. E, essencialmente, toca em aspectos delicados da formação do brasileiro mediano. Por esses e outros motivos, é leitura obrigatória.

Francisco Coelho Duarte Badaró_Fantina_242

Fantina: cenas da escravidão
Francisco Coelho Duarte Badaró
Chão
191 págs.

O AUTOR
Francisco Coelho Duarte Badaró
Nascido em 1860, em Piranga, Minas Gerais, às margens do Rio Doce, publicou diversos artigos de conteúdo abolicionista em jornais brasileiros. Além de Fantina, publicou também Parnaso mineiro: notícias de poetas de Minas Gerais. Morreu em 1921.

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