Ruído branco

dezembro 2011 / Ruído branco / Escolha um futuro

Texto publicado na edição #122

Escolha um futuro

O amanhã da ficção científica oscila entre luz e sombra, liberdade e escravidão, utopia e distopia

> Por LUIZ BRAS

Ilustração: Tereza Yamashita

1.
Sempre que paramos pra refletir sobre o momento atual — sobre o eterno presente em que vivemos —, o foco da reflexão fica mais tempo no passado e no futuro do que no aqui-agora. O passado é uma coleção de eventos objetivos e subjetivos perdidos num nevoeiro que a memória não consegue devassar totalmente. O futuro é um campo de possibilidades quase infinitas que tentamos domesticar com a força de nosso desejo, mas parece escorrer entre os dedos, feito água.

Presos entre essas duas instâncias estamos nós, no eterno presente presentificado, na “sombra que se move separando o ontem do amanhã” (Frank Lloyd Wright). Aqui estamos, presos num local que parece não ser o mais interessante, ou o mais importante, porque nossa mente nunca está satisfeita lidando apenas com as coisas que existem somente no presente. Kierkegaard também revelou essa insatisfação quando escreveu: “A vida só pode ser compreendida olhando-se para trás, mas só pode ser vivida olhando-se para frente”.

Os meios de comunicação inventaram novos modos de moldar o aqui-agora. As pessoas, mesmo vivendo todas no momento presente, não vivem sincronizadas. Eu estou escrevendo este texto. Quando? Agora, neste exato momento. Mentira. Neste exato momento você já está lendo este texto. Então, o que era presente — meu presente: a escritura — virou passado. E o que era seu futuro — a leitura destas palavras — virou presente. A tecnologia da comunicação fragmentou nossa percepção cronológica. Tudo o que você lê, apesar da ilusão de simultaneidade, pertence ao passado de quem escreveu. Na tevê e no cinema não é diferente. Apenas as transmissões ao vivo conseguem aproximar os dois presentes, encurtando o intervalo entre quem fala e quem ouve.

Todos os filósofos e todos os poetas já escreveram sobre esse assunto: o tempo e a sua passagem. Para as pessoas mais racionais e analíticas, afirmações como a de Platão (“o tempo é a imagem móvel da eternidade imóvel”) ou a de Borges (“o tempo é a substância de que sou feito”) devem parecer líricas demais. Místicas demais. Curiosamente, esse lirismo e esse misticismo não estão muito distantes da ciência mais rigorosa. Uma breve aula sobre os princípios da mecânica quântica contém tanta poesia quanto as melhores obras filosóficas, literárias e místicas.

2.
Somos mamíferos preocupados. Principalmente com o que vem pela frente. A prova disso é que, ao pensar no futuro, ninguém pensa, por exemplo, numa escala de duzentos milhões de anos. Todos querem saber que caminho a economia global seguirá no ano que vem, ou daqui a dez anos. Todo mundo quer saber como estaremos financeiramente em 2020. Ou no máximo em 2050. Duzentos milhões de anos? Quem se importa? Alguns cientistas, alguns escritores de ficção científica, e só.

Porém mesmo a FC vê mais o amanhã do que o depois de amanhã. O futuro próximo é a matéria-prima desse gênero literário muito popular nos países anglófonos, mas tão pouco apreciado entre nós, brasileiros. Para os aficionados em livros de FC, o ontem e o hoje só encontram uma boa justificativa existencial quando projetados e resolvidos lá longe, no amanhã. Mas não pense que o objetivo maior da ficção científica é prever o futuro da sociedade e da tecnologia. Essa noção é bobagem. Poucos foram os romances e os contos que conseguiram isso. E, quando fizeram, contaram mais com a sorte do que com o poder de clarividência.

A ficção científica fala do homem contemporâneo, de seus desejos e suas inquietações atuais. As grandes obras do gênero são grandes porque são obras com alto teor literário.

Romances como A máquina do tempo, Admirável mundo novo e 1984 continuam sendo lidos não pelas previsões que fizeram, mas pelo drama humano que encerram, muito nosso, muito da nossa época. E pelo brilho poético. O mesmo vale para romances mais recentes, como A mão esquerda da escuridão, Neuromancer e O jogo do exterminador. Se ainda estiverem sendo lidos em 2100, duvido muito que será pelas poucas antecipações bem-sucedidas. Se houver alguma.

3.
Ninguém se contenta totalmente com o presente. Às vezes, para esquecer o passado — afinal quem se contenta com ele? —, as pessoas projetam toda sua energia intelectual e emocional no futuro. Para mudar o passado e melhorar o presente, não paramos de tentar controlar o amanhã. Esse impulso natural se chama esperança, e por meio dele nosso presente — nossos hábitos, conceitos e preconceitos — invade o futuro, moldando-o.

Sei que você constantemente olha para frente. É inevitável. Que tal fazermos isso juntos? Você me acompanha? Mas não faremos isso somente nós dois. Precisamos da ajuda de gente que enxerga bem, não à distância no futuro, mas o entorno. Pois o amanhã é o hoje modificado. Às vezes é o ontem. Precisamos dos escritores. Eles enxergam bastante bem o hoje e o ontem. O ontem. O exercício da imaginação literária é capaz, por exemplo, de nos levar às estrelas ou de trazê-las até nós. Ele é capaz de fazer do futuro presente. Algo como um agoramanhã, ou um amanhagora.

O que coordena todas as antecipações do futuro são os anseios e os medos das pessoas. Pense na sua natureza, na minha, na de todo mundo. Somos generosos feito anjos e perversos feito demônios. Criamos obras-primas e mísseis. Por isso o amanhã da ficção científica oscila entre esses pólos. Luz e sombra, liberdade e escravidão, utopia e distopia.

4.
Estou vendo o futuro. Consegue ver também?

Vejo, com os olhos de Aldous Huxley, uma sociedade em que os valores morais e religiosos são bem diferentes dos nossos. Nesse mundo organizado em castas, o conceito de família não existe. Engravidar é algo obsceno e impensável. Ter uma crença religiosa é um ato de ignorância e desrespeito aos outros. Vejo cidadãos condicionados biológica e psicologicamente a viver em harmonia, respeitando todas as leis sociais.

Vejo, com os olhos de George Orwell, uma sociedade em que o Estado é onipotente, onisciente e onipresente. Vejo uma força opressora capaz de alterar a História e o idioma, controlar a mente das pessoas e travar uma guerra sem fim, com o objetivo de manter sua estrutura inalterada. Vejo nas residências, nas repartições públicas e nos restaurantes uma tela através da qual o Estado vigia cada cidadão.

Vejo, com os olhos de William Gibson, uma sociedade altamente tecnológica e multifacetada, em que o mundo real e o virtual se misturam. Vejo as grandes corporações dominando continentes inteiros e se devorando mutuamente. Vejo anti-heróis com próteses neurológicas, mergulhando, amando e morrendo no caos fosforescente do ciberespaço. Tudo é dinamismo e sinestesia, tudo é troca de informação e impulsos elétricos.

Vejo, com os olhos de Orson Scott Card, uma sociedade em que as crianças intelectualmente mais bem dotadas são monitoradas dia e noite pelas autoridades. Vejo as melhores dentre elas vivendo anos longe de casa, numa estação orbital, sofrendo um brutal treinamento de combate. Sua inocência não existe mais. Melhor dizendo: quase não existe mais. Pois esses cadetes-mirins superdotados sempre encontram meios de protegê-la do darwinismo militar.

Sentado no ombro desses gigantes, dá até para ver alguma coisa com meus próprios olhos. Agora eu vejo. Nem distopias nem utopias, apenas sociedades possíveis. Falíveis, espantosas, sublimes e injustas como todas as sociedades humanas.

Você também vê? Veja com seus próprios olhos. Pense no futuro. Mas, se achar tudo isso muito perigoso, você pode fazer como o cientista mais pop da História, Einstein, que certa vez resmungou: “Nunca penso no futuro, ele chega rápido demais”.

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