Ensaios e Resenhas

maio 2016 / Ensaios e Resenhas / Erudição sem pedantismo

Texto publicado na edição #193

Erudição sem pedantismo

Lucia Miguel Pereira parte da literatura para pensar o mundo, o homem e sua condição

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

Lucia Miguel Pereira

Lucia Miguel Pereira: intelectual profunda e visceral

Há um privilégio que marcou a geração fomentadora da cultura brasileira na primeira metade do século passado, a sólida formação intelectual. Usando o exemplo do autodepreciador Graciliano Ramos — ele se dizia apenas um matuto bronco do sertão —, basta percorrer sua obra para encontrar, ou topar, como preferia o escritor, com incontáveis exemplos desta cultura muito bem formada. E daí advinha outro traço comum a essa gente. Quando utilizada na criação literária, o resultado nos chegava com um intenso requinte de linguagem e de reflexão sobre o tema de eleição. Quando, no entanto, os escritos descambavam para a análise, a coragem e a segurança que traziam deixavam, quase sempre, seus leitores desprovidos de elementos para a discordância.

A escritora e crítica literária Lucia Miguel Pereira vem desta estirpe de intelectuais profundos, viscerais. Não deixou inéditos, ou melhor, tudo aquilo que guardou em seus arquivos foi incinerado pela família a pedido da própria autora, mas o que deixou publicado, entre obras de ficção e ensaios, demonstra bem sua consistência intelectual. A Graphia, com a coordenação editorial de Luciana Viégas, vem juntando à obra publicada de Lucia tudo que foi esparsamente editado na imprensa. Deste trabalho resultaram anteriormente em dois volumes, A leitora e seus personagens e Escritos da maturidade, que podem ser lidos seguindo o caminho delineado por Antonio Candido no texto que escreveu sobre o primeiro destes livros. “Aqui temos Lucia em ascensão e depois demonstrando a segurança de sua escrita e dos seus pontos de vista.”

O terceiro destes volumes, O século de Camus, traz os textos escritos entre 1947 e 1955, ou seja, bem na ressaca da Segunda Grande Guerra, bem em um mundo marcado pela desesperança e pelo pessimismo, um tempo ideal para o surgimento de uma prosa seca e cortante como a de Albert Camus. Daí ser dele o século que nasceu sobre os auspícios de um momento de renovações e luzes científicas e que já em sua primeira metade viveria duas guerras mundiais e a quebra da economia universal. Ou seja, o pessimismo tenha sua razão de ser.

Lucia Miguel Pereira, embora fale primordialmente de literatura, sabe como poucos usar sua vastidão cultural para pensar o mundo, pensar o homem e sua condição. Embora leve aos incautos leitores a verem em seus textos apenas os elementos literários, nas entrelinhas marca seu protesto contra a rudeza do mundo. E já então demonstra a importância da mulher na construção de uma nova estética. Mesmo reconhecendo que essa construção data de séculos, é no alvorecer do século 20, nos ensina Lucia, que estas vozes se impõem com ternura e firmeza.

É bom, no entanto, logo deixar bem claro que este discurso, digamos, feminista não nasce de uma visão mesquinha, maniqueísta. Tudo vem do reconhecimento e do entendimento que Lucia derrama sobre seu tempo. A segurança de suas análises, a serenidade com que olhava as várias faces dos fenômenos que a cercavam, levaram a autora a perceber as sutilezas escondidas nas sombras daquele momento. Nestas filigranas conseguia enxergar o que vinha adiante. E não por se valer de alguma condição de pitonisa, antes sabia utilizar o caldo de cultura que carregava para refletir com profundidade e assertiva sobre tudo e sobre todos.

Ler os textos de Lucia Miguel Pereira, mesmo aqueles produzido para a urgência jornalística, dá no leitor uma boa e justificada inveja.

Voltando à seara literária, ela foi precisa em suas previsões. Um exemplo deste fenômeno — e ficaremos apenas neste, deixando ao leitor a busca de outros tantos ao longo do livro — está no que escreve sobre Memórias do cárcere, de Graciliano Ramos.

Mas as contingências atuais passarão e o livro ficará. E o que lhe garante a permanência, o que lhe permitirá subjugar como a nós os leitores do futuro, para os quais serão quando muito vagos nomes os potentados da época sombria em que se prendia sem culpa nem processo, é a sua alta e pura qualidade literária. Documento, sim, e terrível, ele é, devendo porém seu poder ao fato de ser, primordialmente, uma obra-prima.

E aí reside sua magia. Sabia identificar com precisão as qualidades de um texto e ousava apostar em sua permanência.

Embora tenha determinado o uso da fogueira para seus inéditos, Lucia aplaude a disposição de Max Brod em desobedecer a Kafka, publicando os romances que o amigo deixou inacabados. E o faz segura de que, jogadas no lixo, estas obras-primas fariam falta ao legado cultural da humanidade. No entanto, combate o exagero do gesto que organizou em um volume “malvindo e desnecessário” trechos de rascunhos, frases e cenas soltas descritas pelo escritor tcheco, pois isso em nada contribui para a grandeza geral de sua obra. Ou seja, Lucia sabia diferenciar o joio do trigo e, ao contrário do jornalista descrito na frase atribuída a Mark Twain, publicava o trigo.

Este ouvido apurado para descobrir qualidades ainda obscuras, a levou a apostar em autores como Graham Greene, não necessariamente um estreante — o artigo foi escrito em 1948 e o inglês já estava na estrada deste 1929 —, mas ainda um escritor visto como menor por se dedicar quase que exclusivamente ao romance policial. E aí Lucia exalta as possíveis qualidades de um bom livro de suspense. A jovem, mas já então falecida, Simone Weil é outra de suas apostas.

Poucos espíritos terão sido ao mesmo tempo tão lógicos e tão sensíveis, tão austeros e tão ardentes, tão realistas e tão místicos, tão simples e tão originais, tão compreensivos e tão ousados, tão livres e tão submissos com o dessa Simone Weil, cujo livro, se não me engano póstumo, O enraizamento precisa ser lido e meditado.

Aliás, Lucia se põe como defensora de uma voz feminina na literatura, a aí deve residir mais um de seus pioneirismos. Para ela as escritoras tinham uma percepção diferenciada da realidade que refletia em sua escrita. Não buscava neste ponto uma literatura de melhor qualidade, mas inovadora e reveladora. Havia um olhar renovado pela suavidade, e era esta visão que traziam as escritoras.

Ela própria era um bom exemplo desse discurso renovado. Seu texto vinha com as frases recheadas de poesia, eram quase crônicas, mesmo quando traziam firmeza e até dureza em suas sentenças.

Sentir que a própria personalidade de algum modo encobre o que deveria ser a sua mais autêntica manifestação, é desconfiar de que nela não deu tudo o que poderia dar, é adivinhar que o nome perdurará, mas que pelo menos alguns dos livros serão um dia aqueles “túmulos de palavras” de que fala Valéry.

Ler os textos de Lucia Miguel Pereira, mesmo aqueles produzido para a urgência jornalística, dá no leitor uma boa e justificada inveja. O intenso caldo de cultura, a erudição refinada e a segurança que eles carregam alimentam o sentimento e o até o tornam nobre. O século de Camus é um bom e definitivo exemplo disso.

 

Lucia_Miguel_Pereira_Seculo_Camus_193

 

O século de Camus
Lucia Miguel Pereira
Graphia
328 págs.

 

A AUTORA
Lucia Miguel Pereira

Nasceu em Barbacena (MG) em 12 de dezembro de 1901 e faleceu em um desastre aéreo no Rio de Janeiro em 22 de dezembro de 1959. Crítica literária, biógrafa de Machado de Assis e Gonçalves Dias, ensaísta e tradutora foi casada com o escritor Otávio Tarquínio de Sousa. Recomendou à família que depois de sua morte todos os seus inéditos só poderiam ser publicados com autorização do marido, que morreu no mesmo desastre aéreo. Assim, todos os textos inéditos e cartas pessoais foram incinerados. Publicou, entre outros, os romances Maria Luísa e Cabra cega, e o ensaio História da literatura brasileira — Prosa de ficção — de 1870 a 1920. Seus textos de crítica literária foram reunidos nos volumes A leitora e seus personagens e Escritos da maturidade.

TRECHO
O século de Camus

A manhã cheia de sol e de luz, de uma beleza exuberante, talvez exuberante demais, lembrando as adolescentes meio despidas que ostentam graças roliças de mulheres maduras, parece a contribuição da natureza para a alegria pagã — ou selvagem? — do carnaval. Tudo é ruidoso e excessivo, o mundo só abriga criaturas extrovertidas, cores berrantes, árvores sem a placidez vegetal, casas sem intimidade. Onde se escondem os ensimesmados, os tristes, os sofredores? Onde os que leem e meditam?

 

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