Perto dos livros

junho 2018 / Perto dos livros / Erotismo espiritualizado

Texto publicado na edição #218

Erotismo espiritualizado

Valorizada como a primeira voz feminina a expressar-se eroticamente em verso, Gilka Machado gozou de uma fama inicial que beirava o escândalo

> Por MIGUEL SANCHES NETO

Ilustração: Isadora Machado

Ilustração: Isadora Machado

Eleita a maior “poetisa” brasileira em 1933 por uma enquete da revista O Malho, vencendo com estrondosa vantagem Cecília Meireles (100 votos contra 6), a carioca Gilka Machado (1893-1980) cairia em seguida no ostracismo. E as razões para isso não foram apenas estéticas, embora ela mantivesse uma poesia ainda muito presa ao espiritualismo anterior ao Movimento Modernista. Tal como Cecília Meireles, vinculou-se aos prolongadores do Simbolismo que se uniam em torno da revista Festa (1920-1930), criada por dois paranaenses, Tasso da Silveira e Andrade Muricy, em defesa de uma moderna visão católica em arte. Esta tendência não impediu que Cecília construísse uma obra poética reconhecida, o que indica não ter sido esta filiação a causa principal do apagamento de Gilka, que tem a sua Poesia completa novamente reeditada (São Paulo: Demônio Negro, 2017).

Valorizada como a primeira voz feminina a expressar-se eroticamente em verso, Gilka Machado gozou de uma fama inicial que beirava o escândalo. Era a jovem poeta a escrever versos de uma sensualidade inédita em nossa tradição. Casou-se muito jovem (em 1910) com o poeta e jornalista Rodolfo de Melo Machado, que morre em 1923, deixando-a com dois filhos e sem meios para sustentar a família. Neste período de vida conjugal, ela escreve os seus principais livros — Cristais partidos (1915), Estados de alma (1917) e Mulher nua (1922). Rodolfo era o outro de sua lírica erótica que se manifesta assim dentro de uma grande e breve paixão conjugal. Mesmo a representação desse erotismo de cônjuges se dá em linguagem metafórica. A poeta usa palavras do campo da sexualidade que assumem um valor espiritual, fiel à sua formação decadentista (em estética) e católica (em religião). É mais o registro sensorial de um eu lírico do que a sugestão de encontros sexuais.

Daí que eu possa gozar, ao vosso colo rente,
esse perfume a um tempo excitante e emoliente,
numa dúbia, sensual e suave sensação!

Desde as aliterações ciciantes, tudo revela um ser em êxtase. A sua linguagem erotizada é uma inovação na poesia de autoria feminina e permite que seus livros sejam lidos como uma versão dos Cântico dos Cânticos, em que a mulher procura sempre o amado e o amado lhe escapa pela fugacidade de tudo. Esta matriz bíblica é fundamental para entender o conjunto de metáforas que sustenta uma poética amorosa nascida da cumplicidade do casal. Mesmo depois da morte do esposo, ela continuará a escrever poemas eróticos em que a memória dele ocupa o lugar físico que ficou vago em sua vida.

Assim, termos como orgia, volúpia, desejo, devassa etc. (próprios do campo da sexualidade) têm um valor particular e um destinatário único. Não podem ser entendidos mundanamente, pois pertencem antes a uma poética de exacerbação das sensações. Mais ainda, o desejo ganha uma significação religiosa. E o encontro carnal se converte em encontro com a divindade: “guardemos este amor com toda a castidade […]/ Pela conservação de nosso amor, desisto/ dessa orgia carnal, e/ ternamente acesa/ para o gozo do Mal,/ e, como as freiras são as esposas de Cristo,/ serei a tua esposa espiritual”.

Estão assim delimitadas as fronteiras desta poesia castamente ousada, em que o erotismo está mais no uso sensorial das palavras do que na referência a comportamentos devassos. Mesmo assim, em uma sociedade em que a mulher era condenada ao silêncio, principalmente ao silêncio sobre o seu próprio corpo, sobre os seus desejos, a poesia de Gilka Machado sofreu difamações. Embora a “mulher nua” que dá título a uma de suas coletâneas fosse antes de tudo a mulher da alma nua (livre do próprio corpo), a poeta passou a figurar como uma perdida que escancarava seus hábitos feios. Esta compreensão lúbrica de seus poemas despertava mais interesse pela mulher do que pela poeta, o que a frustrava. Ela viverá sempre esta condição cindida, em um erotismo espiritualizado.

A má fama criada em torno dela e outros fatores vão fazer com que desista da poesia. Gilka era de origem muito humilde, vencendo as limitações de formação com esforço autodidata. Casou-se com um rapaz também pobre. E acabou na completa miséria com a viuvez precoce. Inicialmente diarista na Estrada de Ferro Central do Brasil, fez-se dona de pensão, enquanto educava os filhos, passando o resto da vida em trabalhos que deixavam pouco ou nenhum tempo para a arte. Embora sempre recolhida, colou nela a imagem da libertina, ao ponto de, na nota biográfica das Poesias completas editadas em 1978, ela se defender: “Nunca matei, nunca roubei, nem fiz mal ao próximo; nunca bebi, nunca joguei, nunca fumei nem participei de orgias”. A poesia ficou para ela como uma corcunda socialmente incômoda.

E não só por ser mulher e escrever em uma linguagem erotizada. Também por ser descendente de artistas populares. O repentista baiano Francisco Moniz Barreto era seu bisavó e o violinista português Francisco Pereira da Costa seu avô. Sua mãe e sua tia atuavam como atrizes do rádio. A isso se alia a sua condição étnica. Existem poucas fotos de Gilka, em que não fica evidente aquilo que talvez mais tenha atrapalhado a recepção isenta de sua grande poesia espiritualista. Ela era mulata. Ou seja, uma pessoa vista como objeto erótico pelos homens, tal como conta o mulato genial Lima Barreto, ao falar de sua irmã Evangelina, em seu Diário íntimo: “Minha irmã, esquecida que, como mulata que se quer salvar, deve ter um certo recato, uma certa timidez”. Qualquer liberdade é tomada como libertinagem.

Os outros três livros de Gilka serão publicados de forma cada vez mais espaçada — Meu glorioso pecado (1928), Sublimação (1938) e Velha poesia (1968). Nos dois últimos, ela diminui o erotismo simbólico de seus versos, dedicando-se a uma poesia mais sociológica. Ganha importância aqui a valorização do amado ideal como um ser “moreno” e as raízes africanas de seu ramo familiar oriundo da Bahia. A consciência das limitações materiais também dá um novo estofo aos seus poemas, e a irmana aos miseráveis. Ela escuta os sofrimentos que estão em seu sangue, as longas misérias vividas e transforma a sua poesia em um canto de africanidade.

Em Escutando-me (de A mulher nua), começara a desenvolver esta busca. Chega a ecoar o poema Vozes d’África, de Castro Alves: “Quem poderá calar a multidão aflita/ que, sempre, em minha alma e em meus silêncios grita:/ Deus, Senhor, onde estão da existência os prazeres?!…”. Mas é em Sublimação que seu verbo se torna mais político. Ela elogia os jogadores de futebol do Brasil, vistos como “astros escuros/ sóis morenos” e enaltece “as negras baianas” e o homem “moreno/ de pele crepuscular”. Sua poesia agora positiva a África brasileira de onde ela vem.

Em Recordações do Escrivão Isaías Caminha, uma exposição sobre o preconceito contra negros e mulatos, o narrador se questionava sobre as causas de “tão feios fins de tão belos começos”? E no final do livro ele responde: “a má vontade geral, a excomunhão dos outros”. Programaticamente esquecida na história da literatura brasileira, Gilka Machado ressurge como irmã espiritual de Lima Barreto, alguém que sofreu mais do que ele a exclusão histórica por ter sido mulher e ousado sensualizar a poesia.

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