Ensaios e Resenhas

dezembro 2015 / Ensaios e Resenhas / Entre Vênus e Baco

Texto publicado na edição #186

Entre Vênus e Baco

Nas Elegias de Sexto Propércio, o leitor encontrará uma inusitada fonte de diversão

> Por CLAYTON DE SOUZA

William-Adolphe_Bouguereau_(1825-1905)_-_Elegy_(1899)

O leitor brasileiro (ou, ao menos, um nicho dele) tem motivos para comemorar: o mercado editorial tem voltado sua atenção a obras que nunca antes foram aqui publicadas integralmente, em edições bilíngues e bem cuidadas. O Cancioneiro, de Petrarca, e Orlando Furioso, de Ariosto, ambas pela editora Ateliê/Unicamp, são exemplos que preencheram uma lacuna há muito existente em nosso cabedal cultural.

Aos dois casos junta-se a recente edição de outro ilustre “desconhecido”, cujas elegias o leitor pode agora conhecer pela tradução do especialista em literatura latina Guilherme Gontijo Flores ou pelo original em latim: trata-se do poeta latino Sexto Propércio.

Inédito em língua portuguesa (excetuando uma edição lusitana recente), o conjunto completo de suas elegias aporta por esses trópicos com a árdua missão de conquistar o público brasileiro, e não vai nenhum exagero na afirmação: mesmo aos (poucos) leitores de Virgílio e Ovídio soará estranho o nome desse poeta contemporâneo a eles; poeta singular, que gozou do período áureo do império de Augusto (27 a.C. a 14 d.C), patrono de tantos poetas, Propércio incluso, que em versos dúbios soube bem dignificar e escarnecer da moral desse mesmo império.

Missão árdua, como dito, mas a simples leitura, prazerosa e divertida, dará conta do recado.

Temas
A lírica properciana, ainda que modulada nos moldes elegíacos (dísticos alternados em hexâmetros e pentâmetros, uso de lugares-comuns inerentes ao gênero, etc.), resguarda um notório acento singular que nos pincela um poeta ambíguo, entre a fidelis amorosa e o desejo pela patuscada, entre um páthos hiperbólico à amada Cíntia e uma ironia que pouco se coaduna com a postura amorosa.

Aliás, são essa ironia e as inclinações epicuristas que mais seduzem o leitor:

Por fim a injúria devolveu-te ao nosso leito
Depois de te expulsarem de outra porta?
Pois onde consumiste inteira a minha noite,
Chegando exausto quando os astros somem?
Safado! Eu quero que tu sofras noites como
As que sempre impuseste a uma coitada!
(Elegia 1.3)

No trecho, Cíntia impreca contra o eu lírico que, marotamente, adentra seu leito em passadas trôpegas — cortesia de Baco. A ironia e a comicidade não se limitam ao microcosmo do poema, mas também à instância macroestrutural dos livros. A título de exemplo, na quinta elegia do livro, Propércio vocifera contra Galo pelo seu interesse por Cíntia…

Mais adiante, porém, na décima elegia, o leitor lerá com um sorriso esses versos, ao mesmo Galo, celebrando uma noite de amor com outra mulher:

Ah! Mas que alegre paz, quando eu testemunhei
As lágrimas do teu primeiro Amor!
Ah! Recordar tal noite é um prazer alegre
(Ah! Como eu a pedia em minhas preces!).

A tradução, atenta à ironia, reitera as interjeições, o que só a acentua. Em outro momento, no último livro, depois que Propércio “enterrou” de vez Cíntia, eis que o espectro desta lhe aparece, acusando-lhe o descaso e infidelidade (depois de três livros quase inteiramente dedicados a ela!).

Após oitenta versos de invectiva, Propércio encerra um tanto friamente:

Depois de terminar as queixas e lamentos,
Esvaneceu-se a sombra nos meus braços

Cíntia é o eixo do primeiro livro, preponderando também nos dois seguintes. Sua figura gera debate: mulher distinta e puella docta (douta, culta), bem como leviana, infiel e perjura. As elegias dão conta das facetas desse ser complexo que simboliza a adesão do poeta à via lírica da elegia, isto é, do morbus amoris impulsivo plasmado em versos de formulação menos elevada em estética e reputação que o épico (embora Homero seja presença constante nas elegias). Por vezes, o poeta segue outros rumos, como o do poema etiológico, a mitificar Roma, sua fundação e templos, ou do metapoético, bem como concede voz a figuras mitológicas e históricas, a serviço da comicidade e dos males de Eros. Essa dualidade entre o elegíaco e o pseudo-épico plasma-se, sobretudo, no quarto livro, vindo num crescendo nos anteriores, mas o elegíaco prevalece.

Esse movimento oscilante entre os versos é um traço revelador do íntimo do poeta:

De que vale, infeliz, cantar solene agora
Chorando os muros que fizera Anfíon?
No Amor melhor que Homero é um verso de Mimnermo
(1.9)

Sonhei que me sentava à suave sombra do Hélicon (…)
Alba, os teus reis e os feitos dos teus reis — que obra! —
Eu podia entoar em minhas cordas
(3.3)

Problemática e estilo
Como dito, a edição é composta de quatro livros, mas eles não chegaram incólumes a nós. A tradição crítica especula que o livro 2 é na verdade uma junção de duas obras. No âmbito dos versos, o leitor também lidará com eventuais divergências sobre a ordem dos dísticos, ou incertezas sobre interpolações e lacunas que afetam a lógica e a fluência dos versos (para o que muito contribui a estruturação em parataxe deles — o estilo do poeta).

Mas o leitor pode se fiar nessa edição, munida de um prefácio esclarecedor e de nada menos que 117 páginas de notas sobre todas as elegias, além de um posfácio com 83, onde Gontijo versa sobre suas convicções em tradução — em suma, uma edição crítica, de valor acadêmico.

Tal profusão, no entanto, exige uma leitura detida, pausada, e um tanto exaustiva, mesmo àqueles que têm traquejo com a mitologia.

O estilo properciano já foi considerado complexo. O que talvez reforce tal impressão, além da citada parataxe que entrelaça as emoções e experiências do poeta e diversos tropos de extração mitológica, são as inusitadas mudanças de interlocutores numa mesma elegia, regidas por apóstrofes nem sempre explícitas quanto ao destinatário. Incertezas quanto a dísticos espúrios ou lacunas também dificultam, mas nada hermético.

A tradução
Gontijo optou pela alternância de alexandrinos e decassílabos em sua tradução, o que não compromete. Também ousou, optando por modernizar os versos, admitindo inclusive a influência de Ezra Pound.

Em algumas poucas ocorrências o resultado causa estranheza (mormente ao leitor dessa literatura):

A matrona desfila as posses dos playboys

Mas aqui um bando imenso segue minha amada
Não sobra espaço nem pra pôr um dedo

Em outros casos, o verso se avizinha à prosa:

Por que as jovens fariam templo à Pudicícia
Se as casadas só fazem o que bem querem?

Aqui cabe ao leitor o julgamento, visto que modernizar assim uma obra da antiguidade clássica é postura vanguardista. Em que pese o conjunto, essa tradução é um feito cujos méritos não se apoiam apenas no ineditismo:

Tu desprezaste os templos de Juno Pelasga?
Tu negaste ser belo o olhar de Palas?
Mulheres belas, não sabeis medir palavras!
Eis o teu mal — beleza e língua afiada

Aqui, pelo tradutor, surge-nos Propércio, em seu tom ao mesmo tempo elevado e irônico. Caso o leitor se permita conhecê-lo, terá a impressão, entre um sorriso e outro, de estar ante um antigo contemporâneo:

A cada ser a Natureza dá um vício:
Fortuna concedeu-me sempre amar (…)
Uma só moça é pouco para mim

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Sextus Aurelius Propércio

Nasceu provavelmente em 43 a.C. Poeta elegíaco romano, foi contemporâneo de Galo, Tíbulo e Ovídio, gozando como eles dos tempos áureos do império Romano de Augusto, amante das artes. Influenciado por Calímaco de Cirene e Fileta de Cós, além de grande admirador da tradição clássica grega, militou pela superioridade da elegia sobre a épica, sendo que seus principais livros escreveu sobre essa égide lírica. Pouco se sabe ao certo da vida do poeta, sendo sua própria obra fonte basilar de consulta. A data de seu falecimento também é incerta, sendo a conjuntura mais aceita o ano de 15 a.C.

Sexto_Propercio_Elegias_186

Sexto Propércio
Trad.: Guilherme Gontijo Flores
Autêntica
528 págs.