Entrevistas

fevereiro 2012 / Entrevistas / Entre poesia e pensamento

Texto publicado na edição #107

Entre poesia e pensamento

Por Rogério Pereira e Vitor Mann   Ao lançar Ó — narrativas entre a poesia e o pensamento, na definição […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Por Rogério Pereira e Vitor Mann

Nuno Ramos por Osvalter

 

Ao lançar Ó — narrativas entre a poesia e o pensamento, na definição do próprio autor —, Nuno Ramos, 48 anos, revolve a sua criação literária e reinventa-se mais uma vez. A inquietação é marca forte em sua produção literária e de artista plástico. Ao contrário de Cujo e O pão do corvo, livros de linguagem mais concisa e enxuta, os “contos” de Ó enveredam para uma prosa caudalosa, incessante, que arrasta junto sempre o corpo humano: é uma torrente a carregar o que lhe tenta impedir a passagem. Nesta entrevista por e-mail, o autor fala da multiplicidade de sentidos de Ó, do diálogo entre literatura e artes plásticas, da produção contemporânea, entre outros assuntos.

• Os contos de Ó não seguem modelos padrões. Muito pelo contrário. As narrativas inventam novas possibilidades. O senhor teme não ser compreendido e alguém decretar: os contos de Ó não são contos? Como senhor define sua literatura?
Acho que meu livro Ó não é um livro de contos. Penso nele como um misto de poesia com ensaios amalucados, entremeados por cantos, elegias, que aparecem em itálico. O que me guiou de início foi uma voz que pensa as coisas e as comenta, à Emerson ou à Montaigne. Claro que outras vozes foram surgindo, às vezes narrativas inteiras, com personagens e tudo, mas tenho a impressão de que a voz dominante quer falar das coisas, do mundo, quer tratar dos assuntos mais diversos. Se eu pudesse escolher, diria que o Ó está em algum lugar entre a poesia e o pensamento.

• O corpo humano é um elemento recorrente na prosa de Ó. O que o corpo humano representa para o ficcionista Nuno Ramos?
Representa tudo. Acho que sempre acabo voltando pra lá, como um lugar meio pré-lingüístico, inerte. Não é à toa que em meu trabalho como artista plástico a matéria tenha papel predominante.

• Pode-se dizer que a sua prosa é caudalosa, verborrágica, no bom sentido da palavra. Hoje, muita gente recomenda e prega um texto conciso. O senhor tenta ir na contramão de boa parte da literatura feita hoje no Brasil?
Exatamente por ser muito verborrágico, preciso do corpo, da fisicalidade das coisas, tanto como escritor como na persona de artista plástico. Acho que meu trabalho é uma luta entre o impulso expressivo, demasiado confiante e às vezes quase retórico, e o freio do peso e do visgo das coisas. Acho que me tornei artista plástico justamente para encontrar este freio — nessa coisa indominável que é a matéria. Meus livros de ficção anteriores (Cujo, de 1993 e O pão do corvo, de 2001) têm uma prosa concisa, macerada, influenciada pelo lado Beckett, digamos assim, da literatura. Acho que Ó é uma tentativa de escrever mais solto, com períodos longos intercalados e apostos sucessivos, à maneira daquilo que mais me atraiu em tudo o que li, que é a frase interminável, infinitamente inclusiva, do Proust. Mas não saberia dizer se isso vai na contramão do que se produz hoje no Brasil.

• Há um leitor ideal para Ó?
Acho que o leitor ideal, qualquer leitor ideal, deve ser um sujeito muito chato. Espero não encontrar jamais meu leitor ideal. Deve ser uma experiência horrível.

• No conto Túmulos, lê-se: “vamos aos poucos nos esquecendo deles, dos nossos mortos, enquanto afundam na terra ou são queimados, ou mesmo atirados com pesos ao mar”. De que maneira o senhor lida com a idéia da morte?
Antes de mais nada, morte é matéria, redução do sopro, do desejo, ao peso, ao inerte. Acho que esse é o primeiro interesse que tenho pelo tema: a passagem entre uma coisa e outra. Mas vale lembrar que o mais importante aqui é justamente essa palavra, passagem, que vale nos dois sentidos — pode ir do inerte ao vivo como do vivo ao inerte. Gosto, em suma, da reversão de uma coisa na outra — tanto de ver uma palavra virar cadáver quanto de ver um cadáver virar sentido, verbo.

• Como o senhor concilia a sua produção literária com a de artista plástico? Onde elas se encontram, onde se afastam? Há um diálogo possível entre ambas?
Procuro pensar nas duas como primas distantes, que se vêem pouco. Mas não consigo muito. Cada vez se aproximam mais. De todo modo, sei que não quero escrever com a desculpa de ser artista plástico, nem fazer trabalhos plásticos de poeta ou escritor. Acho que há um mistério em cada linguagem, irredutível a qualquer outro. Este território intransponível é que nosso tempo procura furar e controlar, injetando “bons propósitos” ou desilusão institucional onde devia haver solidão, espanto, orgulho.

• Quais são os seus demônios? O que o impulsiona a escrever?
Talvez a consciência de que nada do que fiz é relevante perto do que é ainda possível fazer. Não consigo pensar em meu trabalho senão como em um jogo que ainda está começando (e eu já tenho 48 anos!). O demônio mais cruel é o sentimento do possível. Mas talvez não haja arte (nem vida) sem ele.

• Qual o sentido da literatura em um tempo tão apressado, sem tempo, que luta o tempo todo contra a solidão, tão vital à leitura?
O ato de ler é em si mesmo mágico, em sua solidão ocupada por um outro (o livro). Quem lê pode estar isolado, mas não está sozinho. Neste sentido, há na própria leitura, independentemente do livro que se lê, uma resistência ao sentido de rebanho tão freqüente na vida contemporânea. É difícil imaginar um livro-rebanho, cuja própria leitura seja acachapante e unificadora — o livro vermelho de Mao, talvez? Ou a Bíblia (mas o sentido-rebanho da bíblia não vem da leitura em voz alta, da ladainha, daquilo que é lido no altar?) Ler é uma forma profundamente compartilhada de estar sozinho, o que não deixa de sugerir uma forma quase ideal de cidadania.

• O senhor acredita que a literatura é capaz de dar conta da realidade que nos cerca? A linguagem que inventamos é suficiente para compreender certo caos instalado ao nosso redor?
Eu não vejo caos, vejo controle. Acho as coisas cada vez mais apaziguadas, os discursos mais unificados e a arte trazendo pra si tarefas que eram da esfera pública. A loucura da arte foi povoada pelos (bons) discursos de nossa época — pelo arrazoado feminista, étnico, sexista, etc. Por mais que concorde com estes discursos, acho que a produção artística não deve coincidir com eles. Há em toda arte um pé fora do tempo, fora da história, que nossa época parece não entender, nem perdoar. De todo modo, acho que nada nem ninguém “dá conta da realidade”. Talvez realidade seja justamente aquilo de que ninguém dá conta — nem a religião, nem a política, nem a espinha ereta, nem a tecnologia, nem os psicotrópicos. Talvez a arte, de modo geral, seja uma ferramenta para a gente tomar consciência disso.

• Com que autores a sua literatura dialoga? Quais escritores são fundamentais na sua formação como escritor?
Acho que Drummond é fundamental pra mim, aquele que vai de José a Lição de coisas. Algumas passagens (A paixão segundo GH) da Clarice Lispector. Beckett (Molloy) e Kafka (Um artista da fome) e Proust. Mais recentemente, venho me dedicando a um amor envergonhado pela literatura de Philip Roth.

• De que maneira o senhor tornou-se leitor?
Primeiro com Robinson Crusoé, versão resumida e ilustrada — mesmo naquela ilha no fim do mundo, sozinho e sem meus pais, era possível reconstruir a minha casa inteirinha, e eu continuava protegido. Acho que li o livro, como as crianças fazem, dezenas de vezes, e cheguei a esquentar o termômetro na lâmpada, para ficar em casa lendo. Depois, no início da adolescência, com Dostoiévski, Poe, Henry Miller, Álvaro de Campos — o terrível da vida batendo à porta.

• Os críticos e resenhistas te entendem ou te entediam?
Há uma mágica entre crítica e arte que nossa época também parece estar perdendo. O crítico não é um diretor de colégio chato querendo travar a vida sexual dos alunos — ele é parte de um circuito entre obra e mundo que alimenta o mundo e o público, mas alimenta também a obra. Há uma libido crítica que volta para a obra, fecundando-a, um desejo de mais obra, um pedido por mais arte, um querer mais e mais. Este sentido glutão da crítica é altamente positivo, e aparece, muitas vezes, ainda que o juízo sobre a obra seja negativo. O artista tem de ter ego para suportar isso, para deixar-se nutrir por isso, para extrair da crítica o que lhe interessa, e ao seu trabalho. Mas é claro que nem toda crítica tem esta voltagem, esta capacidade de viver a obra por dentro, solicitando dela que seja tudo o que pode ser.

• As artes plásticas têm sido alvo de críticas contundentes. Affonso Romano de Sant’Anna, por exemplo, tem alertado para um vazio que domina a produção de muitos artistas contemporâneos. Qual a sua opinião sobre a arte contemporânea? O senhor concorda com as opiniões de Affonso Romano?
O Brasil vem encontrando em dois poetas, Ferreira Gullar e Affonso Romano, palavras ácidas sobre arte contemporânea. Gullar, como se sabe, além de poeta verdadeiro, teve papel fundamental na formação de dois de nossos melhores artistas, Hélio Oiticica e Lygia Clark, bem como dos artistas do neo-Concretismo em geral. Assim, sua mudança de rumo, já a partir dos anos 60, é muito significativa e, a meu ver, triste. A arte brasileira assistiu, nos últimos 40 anos, ao desenvolvimento de trabalhos extraordinários, provavelmente mais intensos do que quaisquer trabalhos produzidos em outros gêneros entre nós. Obras como a de Waltércio Caldas, Tunga, José Resende, Iole de Freitas, Cildo Meirelles, Eduardo Sued, Paulo Pasta, Fábio Miguez, Elisabeth Jobim, Jac Leirner, Sergio Sister, Ângelo Venosa, Chelpa Ferro, Iran do Espírito Santo (entre tantos outros), para não dizer os trabalhos tardios (das décadas de 70, 80 e 90) de Amilcar de Castro, Iberê Camargo ou Mira Schendell, fazem a alegria de quem acompanha de coração leve o circuito de arte. Não há vazio nenhum aí. Na verdade, estas críticas parecem aquilo que não gostariam de ser: uma resposta regressiva, e ressentida, ao mercado e ao espaço público ampliado, que vêm se firmando no Brasil — como uma precaução pequeno-burguesa para não tomar gato por lebre. O problema insolúvel da arte, e sua verdadeira morte, chama-se arte ruim, fenômeno difícil de definir e presente à larga em feiras de arte ou megaexposições, como a Bienal de Veneza ou de São Paulo. Mas não é com críticas genéricas ao contemporâneo que a gente vai se livrar dela. Há, claro, arte ruim (e muita) na produção contemporânea, mas como em qualquer outra época — apenas o tempo não fez ainda a sua seleção.

LEIA RESENHA DE Ó.

Print Friendly