Dom Casmurro

abril 2015 / Dom Casmurro / Entre livros

Texto publicado na edição #179

Entre livros

Havia muitos livros amontoados na sala. Alguns, inclusive, obstruindo a passagem até os outros cômodos do apartamento. Da porta da […]

> Por GERALDO LIMA

Havia muitos livros amontoados na sala. Alguns, inclusive, obstruindo a passagem até os outros cômodos do apartamento. Da porta da sala até o sofá, o jovem teve que saltar por cima de uns dez, entre eles o Memorial de Aires, de Machado de Assis, e o Problemas da poética de Dostoiévski, de Mikhail Bakhtin. Viu, também, com certo assombro, que em toda a extensão do apartamento havia prateleiras abarrotadas de livros e revistas. Um quarto fora transformado em biblioteca, e ali repousavam centenas de títulos, entre ficção, poesia e ensaio.

Tudo ali parecia existir em função desses objetos que brotam da imaginação e do conhecimento. Os móveis, em quantidade bem reduzida, ocupavam um espaço bem acanhado, quase que de segregação Era de se supor que muitos humanos, adentrando aquele universo de ideias, palavras e celulose, se sentissem diminutos e intimidados.

Antes que ele começasse a se sentir assim de fato, ouviu a mulher dizer:

— Fique à vontade, a casa é sua, meu bem. — E antes de fechar a porta do banheiro, sugeriu: — Tome uma cerveja pra relaxar. É só abrir a geladeira.

Obedeceu como se estivessem ainda em sala de aula.

Ouviu o barulho da descarga do vaso e depois da ducha higiênica. Em seguida, junto com o som da água despencando do chuveiro, chegou-lhe à mente a imagem de um corpo nu e molhado. Bebia meio sôfrego, como se buscasse a embriaguez imediata. A cerveja estava bem gelada, e, depois do quinto gole, sentiu a tontura agradável que relaxa os nervos e faz cessar a tremedeira das pernas. Isso o deixou mais confiante, seguro de que era o dono da situação.

Estava em frente a uma das estantes, folheando o Teresa Filósofa, de um autor anônimo do século XVIII, quando ela passou rente a ele, vindo do banheiro, exalando um cheiro forte de perfume e sabonete. Estava enrolada numa toalha florida e atravessou lânguida a sala rumo ao quarto. O jovem estudante quase deixou o exemplar de literatura libertina cair assim que a mulher tocou de leve em sua nuca com a ponta dos dedos. A excitação que o tomou de repente podia muito bem ser fruto desse toque sutil em sua nuca quanto da imagem da capa do livro, onde uma mulher de quatro parecia esperar tranquila a penetração por trás. Ao tentar enfiar o livro entre os outros, no lugar de onde o retirara, percebeu o tremor que inutilizava suas mãos.

A tremedeira das pernas havia voltado também, sem que ele houvesse percebido, o que o obrigou a procurar de novo o abrigo do sofá de couro gasto. A verdade é que precisava de mais uma cerveja para recuperar a autoconfiança e estancar a derrocada das pernas bambas.

Esperou com um leve desespero o lance seguinte. Talvez devesse se levantar e ir até o quarto. Era isso que ela estava esperando que ele fizesse? Não, melhor deixar que ela agisse e lhe indicasse, com segurança, o que lhe cabia fazer. Não podia se esquecer de que estava no espaço de uma mulher experiente, madura, com uma bagagem intelectual capaz de assombrar qualquer jovenzinho afoito.

Ia pegar outra cerveja quando a porta do quarto se abriu com um leve rangido. Aprumou os óculos para melhor enxergar a imagem emoldurada pelo portal de ipê. Ali, numa pose ousada, uma figura feminina se exibia para ele.

Agora é que as pernas não podiam voltar a tremer mesmo.

Sentiu que ela havia encurtado de vez a distância entre eles, abolindo as fronteiras e qualquer sinal de hierarquia. Vestida com uma camisola vermelha transparente, a professora de Teoria Literária esperava que o pupilo saísse do estado de pânico e caminhasse até ela. Ele, no entanto, ainda estava tentando encontrar nela, naquela mulher despojada e sedutora, a mestra metódica e rígida das aulas sobre O Discurso Feminino na Literatura Brasileira.

O jovem estava hesitante. Os pés insistiam em ficar ali, colados ao piso de madeira. Precisava realmente de mais uma cerveja, mas parecia não haver mais tempo para isso: a mestra tinha urgência. Fez do dedo indicador anzol e foi, com uma linha invisível, arrastando-o até onde ela estava. Ele obedeceu, como se estivesse em sala de aula, e foi andando rumo ao quarto, não sem antes tropeçar em Clarice Lispector e Charles Bukowski.

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