Manual de garimpo

fevereiro 2013 / Manual de garimpo / Em surdina

Texto publicado na edição #154

Em surdina

Felizmente, não temos só Lispector. Apesar de grande parte dos nossos escritores contemporâneos, sobretudo escritoras, seguir a linhagem inaugurada por […]

> Por ALBERTO MUSSA

Felizmente, não temos só Lispector. Apesar de grande parte dos nossos escritores contemporâneos, sobretudo escritoras, seguir a linhagem inaugurada por Clarice, particularmente aquela de A paixão segundo G. H. — mais poética, mais introspectiva, com grande atrofia da paisagem e do enredo, ou seja, da narrativa propriamente dita —, houve e há outras grandes mulheres nas letras brasileiras, que constituem vozes totalmente independentes. E basta mencionar Ana Maria Machado, Júlia Lopes de Almeida, Nélida Pinõn, Raquel de Queiroz, Lígia Fagundes Telles, Maria Alice Barroso.

E também, naturalmente, Lúcia Miguel Pereira. Seu nome talvez seja mais lembrado como crítica ou historiadora da literatura, tendo escrito obras fundamentais, a exemplo de uma biografia analítica de Machado de Assis e do célebre ensaio Prosa de ficção (1870 – 1920). Foi ela quem, por conta desse estudo, realizou a proeza de descobrir o romance Dona Guidinha do Poço, de Manuel de Oliveira Paiva, meio século depois de concluído.

Tenho pessoalmente certas dúvidas sobre a pertinência do conceito de literatura feminina como gênero; mas, se for legítimo considerá-lo, Lúcia Miguel Pereira é, nesse âmbito, um verdadeiro expoente.

Em surdina, o livro que nos concerne, é de 1933, ano de estréia da autora. Não se trata de uma saga familiar, como pode parecer; é mais propriamente um estudo de personagem, um perfil de mulher, como se dizia no século 19 — mulher cuja vida é dominada e circunscrita quase exclusivamente às relações de família.

A ação se passa em torno de 1918. Cecília é uma moça de 22 anos, inteligente, finamente educada, mas insatisfeita, apesar de uma vida de aparente harmonia. Moram todos com o pai, viúvo: irmãos, tias, cunhado. O drama começa quando Cecília sente-se pressionada a integrar essa engrenagem e forçada a escolher um marido.

Não parece ser esta, contudo, a sua vocação. Recusa primeiro um pretendente rico; é em seguida desprezada por um tenente (que não lhe tem amor); e termina humilhando, de forma brutal, um terceiro interessado, Paulo — apesar de ser ele o oposto do tenente e valorizar a sua inteligência.

A gripe espanhola marca, no romance, o início da derrocada familiar. Entre as grandes crises, destaca-se a da irmã, Heloísa, suspeita de se envolver com outro homem, embora continue formalmente casada.

Esse conflito moral entre as irmãs (porque Cecília reprova o comportamento de Heloísa) é para mim o ponto alto do livro, que manifesta uma perspectiva feminina, única e rara na nossa ficção. Há uma cena esplêndida: quando Heloísa se defende, de forma indireta, argumentando que a mulher, ao experimentar uma vez o sexo, não pode mais dele abdicar — defesa que é simultaneamente uma acusação contra Cecília, que continua rejeitando pretendentes e por isso é incapaz de compreendê-la. Os três últimos capítulos, em que Heloísa confessa o adultério, são simplesmente espetaculares.

Cecília termina criticada por todos, por permanecer solteira. Mas tem esse fato, no romance, um sentido muito moral, uma defesa do direito feminino de optar, numa sociedade que às mulheres só reserva o casamento.

Conheço três edições de Em surdina. A primeira, da Ariel, é rara. Mais fácil é garimpar as outras duas, a bons preços: a da famosa coleção Saraiva, de 1949, e a da José Olympio, que saiu 30 anos depois. Lúcia escreveu ainda Maria Luísa, Amanhecer e Cabra-cega, que também estão fora de catálogo, a não ser pela excelente Ficção reunida, publicada pela Universidade Federal do Paraná em 2006, embora eu nunca tenha visto esse volume nas livrarias que freqüento, que são — como se sabe — das melhores.

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