Ensaios e Resenhas

novembro 2012 / Ensaios e Resenhas / Em ótima forma

Texto publicado na edição #152

Em ótima forma

Em "Os filhos dos dias", obra de número 40 de Eduardo Galeano, para cada dia do ano, um texto diferente

> Por RODRIGO CASARIN

Eduardo Galeano, autor de “Os filhos dos dias”

 

Durante a 5ª Cúpula das Américas, que aconteceu em abril de 2009 na capital de Trinidad e Tobago, Port of Spain, o presidente venezuelano Hugo Chávez surpreendeu o mundo ao presentear, em frente ao público e às câmeras de televisão, o presidente estadunidense Barack Obama com um exemplar de As veias abertas da América Latina, do escritor uruguaio Eduardo Galeano. O simbolismo do ato um tanto incomum entre líderes era claro: que os poderosos olhassem de outra maneira para os países mais pobres, a começar reconhecendo e refletindo sobre as atrocidades cometidas no passado — e no presente — e que, em partes, justificam a atual distribuição do dinheiro no mundo e a força política de cada país.

A Casa Branca, em seguida, declarou que dificilmente Obama leria a obra, pois o presidente tinha uma lista de prioridades de leituras ainda pendentes e ele não sabe ler em espanhol, idioma da edição presenteada. Contudo, se o regalo de Chávez não serviu para atingir diretamente o seu alvo, teve sim um efeito direto nas vendas de As veias abertas da América Latina, que, em pouco tempo, tornou-se um dos livros mais comercializados pela Amazon. Eram milhares de pessoas tendo contato (e lendo, é de se esperar) com as páginas nas quais Eduardo Galeano analisa a história da porção latina do continente americano desde o período colonial até o início da década de 1970, quando a obra foi lançada.

Forma e conteúdo
Em As veias abertas da América Latina, Galeano deixa sua posição muito clara com relação aos fatos históricos: a região foi usada, abusada, violentada, estuprada por europeus e, depois, por americanos, que vieram até aqui, levaram as riquezas e deixaram as mazelas. Proibido em países como Argentina, Brasil, Chile e o próprio Uruguai, que passavam por períodos de ditadura militar, não demorou para que o livro se tornasse um clássico entre aqueles que se consideram politicamente de esquerda.

Desde então, Galeano passou a ser analisado principalmente por sua posição política semelhante a de outros grandes da literatura, como o chileno Pablo Neruda, o colombiano Gabriel García Márquez e o brasileiro Jorge Amado, ainda que mais radical. Se alguém é simpático às suas idéias, quase que automaticamente o considera um grande escritor; se é contrário, o contrário — não é difícil achar textos de direitistas ensandecidos com o autor. Ambas as partes erram. Um grande escritor se dá pela maneira que escreve, e não pelo conteúdo do que escreve. Para a arte, pouco importa se Galeano é de esquerda ou de direita, e sim a forma de seus textos. E, nesse quesito, o escritor engrandeceu demais ao longo dos anos.

Se em As veias abertas da América Latina, sétimo livro de Galeano, o texto beira o relato histórico e jornalístico — ou seja, é algo artisticamente aquém do que esperamos da literatura —, o mesmo já não acontece na trilogia Memória do fogo, lançada entre 1982 e 1986, um de seus mais celebrados e premiados trabalhos, no qual retoma a história da América, agora como um todo. Comparando essas duas obras, já é possível perceber uma grande evolução na escrita do uruguaio. Formado em jornalismo e com grande interesse por assuntos históricos — como até quem jamais tinha ouvido falar do autor já pode ter percebido aqui —, Galeano aos poucos atingiu o melhor formato para o seu texto, não um formato específico ou já estabelecido e consagrado, mas uma mistura de conto com crônica, poesia, notícia e nota histórica, onde a base está em algum acontecimento real, porém o conteúdo sempre deixa o leitor pensativo sobre onde termina a realidade e começa a imaginação do autor.

Seguindo essa linha estilística peculiar e continuando seu trabalho de explorador do lixão da história mundial, como se autodefine, Galeano escreveu Os filhos dos dias, sua quadragésima obra, lançada no Brasil no inverno de 2012. A proposta do livro, apesar de original, faz o leitor — e os escritores, principalmente — se perguntar como ninguém nunca pensou ou realizou isso antes. Para cada dia do ano do calendário gregoriano (esse mesmo que utilizamos), uma página do livro e um texto diferente, que pode remeter ou não a algum fato que tenha ocorrido naquela data em algum ano qualquer. Simples, não?

Voltando àqueles que julgam Galeano artisticamente pelos temas de seus livros, quem não gostou do que o autor disse em seus outros títulos nem precisa perder tempo lendo Os filhos dos dias (a não ser que queira ficar espumando mais um pouco de raiva), pois na obra predominam textos contra as repressões, os abusos aos miseráveis, a exploração dos países pobres pelos ricos, o imperialismo, o descaso com a natureza, os absurdos cometidos em nome da religião e o agronegócio que altera e destrói a natureza, dentre outros temas de linha semelhante.

Contudo, não é só isso. Galeano mostra a bela relação dos havaianos com o mar e lembra Bob Marley. Como é recorrente em suas obras, também diz muito sobre futebol — e escreve sobre a final da Copa de 1950, quando o Uruguai se sagrou bicampeão mundial vencendo o Brasil em pleno Maracanã (partida que já serviu de inspiração para outros textos de sua autoria, presentes em livros como o ótimo Espelhos e o bom Futebol ao sol e à sombra). O uruguaio resgata memórias e acontecimentos de cidades como Sorocaba (no interior de São Paulo) e Resistência, no Chaco argentino, de onde traz um dos relatos mais belos do livro: a história do cachorro vira-lata Fernando, que vivia na rua, andava com músicos e acompanhava concertos. De tão querido pelos cidadãos da cidade, virou estátua (não uma, mas três). São tantas as histórias e referências das mais diversas culturas presentes em Os filhos dos dias que praticamente obriga o leitor a lê-lo com alguma boa fonte de pesquisa ao lado.

Como se pode perceber, é difícil falarmos da escrita de Galeano sem nos atentarmos — e apegarmos ou rechaçarmos — majoritariamente ao conteúdo do que ele escreve. Todavia, repito e insisto, não é essa análise que devemos fazer quando falamos de literatura. Se alguém questionar os méritos estritamente literários de As veias abertas da América Latina, serei obrigado a concordar que o livro é artisticamente fraco. Contudo, se a mesma pessoa disser que Galeano continua não sendo um bom escritor ou sendo um escritor comum, de duas, uma: ou essa pessoa parou de lê-lo em uma obra com mais de 40 anos ou há ressentimentos pelo teor dos textos. Não há como negar: hoje — e já há algum bom tempo — Eduardo Galeano é sim um grande escritor, um dos maiores ainda vivos.

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Eduardo Galeano

O uruguaio Eduardo Galeano nasceu em Montevidéu, no dia 3 de setembro de 1940. Formou-se em jornalismo, mas ganhou fama mundial com a literatura — já escreveu mais de 40 livros que lhe conferiram prêmios como o Casa de Las Américas, o Aloa e o American Book Award.

edu

Eduardo Galeano
Trad.: Eric Nepomuceno
L&PM
432 págs.