A literatura na poltrona

março 2020 / A literatura na poltrona / Em busca de Clarice

Texto publicado na edição #239

Em busca de Clarice

Clarice Lispector nos deixou um silêncio ensurdecedor, que até hoje não tivemos a coragem de enfrentar

> Por JOSÉ CASTELLO

Ilustração: Igor Oliver

Ilustração: Igor Oliver

Clarice Lispector, a arredia, a mulher misteriosa, a grande solitária. Uma escritora que fugia das pessoas e evitava o mundo, sempre reclusa e em silêncio, eis a imagem que dela ficou. Mas será correta?

Clarice nos deixou um silêncio ensurdecedor, que até hoje — ano de seu centenário de nascimento — não tivemos a coragem de enfrentar. A vida secreta que escolheu não foi só um aspecto de sua personalidade, ou uma esquisitice pessoal. Foi, sobretudo, uma estratégia literária, a mais ousada na literatura brasileira do século 20.

Para não revelar quem foi, e assim ser mais intensamente, o poeta Fernando Pessoa fragmentou-se em múltiplos heterônimos. No movimento oposto, Clarice concentrou-se tanto em si mesma que seu próprio nome passou a significar um enigma. “É a mim que caberá impedir-me de dar nome à coisa. O nome é um acréscimo, e impede o contato com a coisa. O nome da coisa é um intervalo para a coisa”, ela escreveu.

Clarice Lispector foi uma escritora que desconfiava das palavras. Mais que isso: que escreveu livros inesquecíveis como A paixão segundo G. H., Laços de família e A hora da estrela, não para celebrar as palavras, mas na esperança de deixá-las para trás. Era expresso seu desejo de encontrar “o que há atrás de detrás do pensamento”. Isso, que ela chamava de “a coisa”. Ou, simplesmente, de “isso”.

A desconfiança foi o método escolhido por Clarice Lispector para escrever. “Eu sou uma pergunta”, ela se definiu, e a frase acabou se transformando no título de uma biografia da escritora, assinada por Teresa Cristina Montero Ferreira. A linguagem, para Clarice, era um instrumento não só insuficiente, como traiçoeiro. Palavras, em vez de esclarecer, encobrem, ela pensava. Palavras são desleais.

Muitas respostas, insustentáveis, foram oferecidas para a pergunta que a obra de Clarice, em pleno 2020, continua a nos fazer. Alguns, escapando pelo tapete metafísico, preferiram ver em seus livros uma epifania, isto é, uma manifestação divina. Foi o caso de Olga de Sá, em A escritura de Clarice Lispector, um dos primeiros ensaios publicados sobre ela.

Outros, como a escritora canadense Claire Varin, autora de dois ensaios sobre Clarice, ou o brasileiro Otto Lara Resende, a viram como uma feiticeira, e tomaram seus relatos como exercícios mal disfarçados de magia. Interpretação que a própria Clarice, de certa forma, autorizou no dia em que decidiu aceitar o convite para uma conferência em um Congresso Mundial de Bruxaria, realizado na Colômbia.

Em Medelín, em vez de falar, porém, ela preferiu ler um conto, O ovo e a galinha, um dos mais estranhos que escreveu. “Olho o ovo na cozinha com atenção superficial para não quebrá-lo”, Clarice nos diz. “Tomo o maior cuidado de não entendê-lo, sei que se eu o entender é porque estou errando. (…) O que não sei do ovo me dá o ovo propriamente dito”.

Em vez de atuar como uma bruxa, que atiça, evoca e manipula o real, ela se apresentou como uma mulher perplexa, para quem outra pergunta é a única resposta possível para uma pergunta. A apresentação do conto foi uma maneira de devolver esse espanto a seus leitores esotéricos.

Outros ainda, como a crítica literária francesa Hélène Cixous, a mais importante divulgadora de sua obra no exterior, preferem simplesmente dizer que ela não foi bem uma escritora, que o que ela fez não é literatura, mas sim filosofia. Contudo, os livros de Clarice não apresentam um sistema fechado de pensamento, nem se baseiam em conceitos, ou doutrinas. As palavras, em suas mãos, flutuam — e mesmo em um filósofo errante como Friedrich Nietzsche, para quem a filosofia não passava de uma maneira de fugir do corpo, elas não ardem tanto.

Alguns, mais céticos, preferem ainda hoje examinar a solidão absoluta de Clarice se valendo de instrumentos psiquiátricos, e nela diagnosticar tal ou qual síndrome obsessiva, ou posição depressiva. Já se fez de tudo com a literatura de Clarice Lispector. O difícil é aceitar o desafio que, desde Perto do coração selvagem, seu primeiro livro, escrito aos 20 anos e que maravilhou um crítico do porte de Antonio Cândido, ela nos propõe.

Suspender nossas certezas, desconfiar das palavras e escrever não para manejá-las brilhantemente, não para os prazeres dos jogos de espírito. Mas, sim, com a obstinação delicada de quem se propõe a quebrar a casca do ovo para defrontar o vazio que nele se esconde.

Clarice se alarmava com suas próprias narrativas, como se elas lhe fossem ditadas por um outro — e lá viriam os espíritas, quem sabe, falar em psicografia. “É claro que tenho o ato deliberador”, ela escreveu, “mas precedido por uma coisa qualquer que não é de modo algum deliberada”. O estado autônomo das palavras, as histórias que lhe eram sopradas sem que soubesse de onde, ou por quem, a surpreendiam. Em carta a Fernando Sabino, escrita em Washington ainda nos anos 50, ela relata: “Estou muito interessada num conto que fiz chamado O búfalo que tem dentro dele uma violência que me faz tremer”.

Clarice nunca soube, ao certo, que palavras usar para definir o que fazia. A denominação de “escritora” a incomodava. “Literatura para mim é o modo como os outros chamam o que nós fazemos”, ela disse. Não escrevia para se comunicar, até porque, para ela, a comunicação era a morte da coisa.

Onde Clarice fica, então? Para alguns, último obstáculo, apontar o lugar enigmático que Clarice Lispector ocupa na literatura brasileira é, apenas, mitificá-la. Mas isso ainda é reduzir a estratégia literária de Clarice a um miserável jogo de cena. A leitura atenta de seus livros desautoriza essa impressão. Quando escrevia, Clarice não abraçava um ofício, ou perseguia uma posição social. Por que escrevia? “É a mesma coisa que eu lhe perguntar: por que você bebe água”? disse certa vez.

É uma escritora que perturba a placidez dos cânones literários e que subverte, e danifica, os princípios da crítica. “O bom de escrever é que não sei o que vou escrever na próxima linha”, ela escreveu também. “Eu queria saber sobre o que pretendem de mim os meus livros.” Não há outra resposta, senão lê-los.

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