Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Em busca da mulher perdida

Texto publicado na edição #119

Em busca da mulher perdida

Em 2009, o californiano John Haskell, de 51 anos, lançou seu terceiro livro: Out of my skin (Fora da minha […]

> Por PAULO BENTANCOUR

John Haskell por Ramon Muniz

Em 2009, o californiano John Haskell, de 51 anos, lançou seu terceiro livro: Out of my skin (Fora da minha pele), romance ainda não traduzido no Brasil. Ele estreou lá e aqui com um livro de contos, Eu não sou Jackson Pollock (2003), que a Rocco editou três anos mais tarde e teve boa recepção entre nós. Agora sai seu primeiro romance, Purgatório americano, e a confirmação de que, com Haskell, nunca podemos estar seguros. E, em se tratando de arte, quem quer estar?

Antes de começar a leitura, é conveniente dar aquela olhadinha básica no livro todo, quase folheando-o página a página. Agindo assim, descobrimos que tipo de arquitetura tem, se um traçado tipicamente grego, de linhas limpas e modernamente sem arabescos, ou o desenho vertiginoso de um Gaudí. Às vezes ambos, a depender da estrutura da narrativa e de em que seção nos encontramos. Purgatório americano pede outro tipo de construção, mais aquosa, mais pictórica, e nesse terreno alagado — às vezes tão extenso e profundo como um oceano — vamos nos afogando sem perceber.

E não se pode perceber como essa constatação se revela impossível exatamente pela diluição da linguagem de que o escritor se utiliza. Diluição que, ao invés de torná-la rasa, torna-a ainda mais consistente. O processo de reiteração de imagens, de idas e voltas de expressões como “desvanecimento” (talvez a palavra mais utilizada no romance inteiro), traz-lhe uma homogeneidade estilística e de sentido ao mesmo tempo em que aumenta a tortura pela qual passa o protagonista até o primeiro capítulo da parte 6, a penúltima. Tortura que, a bem da verdade, além da desorientação de Jack, o narrador, só com 78% do livro lido é que o leitor vai escapar dela. Haskell montou uma armadilha que supera em muito os truques comuns e mesmo os mais engenhosos em busca da consagrada surpresa (aquela que o resenhista está proibido de contar).

A definitiva arte do desaparecimento
Não sabemos o ano em que os fatos se dão, mas tudo leva a crer que foi agora mesmo, ontem, anteontem, há cinco anos, por aí. Jack, que narra o romance do começo ao fim, esmera-se num detalhismo que supera o entorno exatamente necessário para ele reconstituir as pistas daquilo que persegue. O desaparecimento da esposa e de seu carro, que ele deixou no estacionamento de um posto enquanto foi, rápido, a uma loja de conveniências, comprar alguma coisa para comer. Ao retornar, nada restava deles. E na ausência de pistas, a desorientação toma as rédeas e narra as próximas 180 páginas.

Que pode ele fazer, sobretudo amando como amava a mulher? Liga para ambos os celulares, o seu, que ele deixou dentro do carro (não ia precisar mesmo) e o de Anne, a companheira. Ambos fora de área. Liga de um orelhão para casa: a secretária eletrônica atende e ele escuta uma mensagem da sogra, querendo saber se tudo está bem. As páginas voam na ansiedade sôfrega com que lemos esse quase thriller. Parece mas não é. No começo, parece mesmo. Mas algo na linguagem fortemente evocativa nos vai preparando para algo novo, enquanto nos afoga nas ondas poderosas do universo verbal de Haskell.

Jack pensa nas possibilidades mais dolorosas, mas mais previsíveis: um seqüestro, um assalto, um estupro. Vai até em casa e, remexendo nas coisas de Anne, encontra um mapa — de que não tinha conhecimento — marcado com tinta colorida alaranjada desde Nova York até a cidade onde ela nasceu, uma cidadezinha do oeste norte-americano. Espécie de trajetória, um tipo de recado, talvez. Mas entre o ponto de partida e o ponto de chegada, quantas centenas de cidades e lugarejos nos quais é preciso vasculhar?

Uma das coisas de que Jack logo abre mão é de pedir ajuda à polícia. Pelo menos não é só no seu mundo que a instituição não goza do prestígio da competência, da agilidade e, sequer, da respeitabilidade.

Para surpresa do leitor mais disposto, mesmo assim ele está decidido a atravessar os Estados Unidos em busca da mulher, viva ou morta, e do carro, ou o que sobrar dele. Nessa busca, encontra pelo caminho personagens extraordinários, diferenciados do que se vê por aí. Nenhum ser bizarro, nada disso; mas pessoas com características que as diferenciam do comum. Gente que vive de forma alternativa, que cultiva hábitos naturais e habita casas nada tradicionais. Acampamentos, reservas, celeiros. No entanto, o que mais notamos é que ele, cena a cena, parece esvaziar-se do que mais nos move: o orgulho (que, ele reconhece, já o levou a ter problemas em casa), a cólera (que ele até exalta como uma forma de sobrevivência nesse instante extremo, no qual uma única hesitação pode ser um erro fatal rumo à solução para o mistério), a inveja (que ele identifica crescendo em si à medida que sente seu mundo desaparecendo, suas referências se diluindo, enquanto à sua volta as pessoas vivem apegadas a vidas sólidas e que as justificam), a luxúria (um dos pontos altos do romance, quando, em busca do essencial desejo de prosseguir com a busca, ele vai procurar no sexo — mesmo sem amor — o estímulo crucial para dar continuidade a uma investigação que ele empreende ou totalmente sozinho ou aliado a estranhos cujos interesses não sabe se são legítimos) e a gula.

A grande guinada
É a partir do sexto e penúltimo capítulo da quinta seção que a gula, o desejo de engolir a realidade em seus enigmas, extravagâncias e perdas (palavra seminal esta, a perda) se revela. Mas aí o resenhista tem de omitir o que prova este fato para que o leitor inocente do que vai enfrentar sofra o impacto produzido pelo escritor durante 172 pacienciosas páginas. Trata-se não só da grande guinada em Purgatório americano, talvez da grande guinada da literatura contemporânea.

Como se não bastasse, dez páginas adiante, nova guinada. Surpresa dilacerante para Jack e desconcertante para o leitor. Chega? Ainda não. Trata-se de John Haskell, e trata-se de uma região imensa, maior que os Estados Unidos — o Purgatório —, e é preciso passar por tantos pontos nos quais erros elementares e pecados capitais dizimam tudo, a começar pela própria noção de consciência do que efetivamente está acontecendo.

E o que está acontecendo é o desaparecimento de Jack. Cinqüenta páginas depois, na derradeira seção, Avareza, a terceira guinada narrativa, a mais brutal, a mais inesperada, aquela pela qual uma leitora chegou a protestar (elogiando, claro, o autor) que fora enganada a tal ponto que lhe custava acreditar como pôde não ter percebido antes a história que se desenrolava diante de seus olhos. Como o truque funcionou tão direitinho? E funcionou. O resultado é um romance absolutamente singular, de onde não só saímos sob o sortilégio de um estilo de primeira, mas sob a perturbação do próprio protagonista.

Nossa única sorte é que não somos ele.

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JOHN HASKELL

haskell

Nasceu em 1958, na Califórnia, onde cresceu e estudou. Tornou-se ator, dramaturgo e artista performático, cofundador do Huron Theater, em Chicago. Estudou dramaturgia na Universidade de Los Angeles e concluiu o MFA (Master in Fine Arts) na Universidade de Columbia. Seus textos foram publicados em importantes revistas como Granta, The Paris Review e Conjunctions. Reside no Brooklyn, em Nova York. Dele a Rocco já lançou, em 2006, os contos de Eu não sou Jackson Pollock.

Da mesma forma como alguém que compra sapatos novos fica prestando atenção aos sapatos das outras pessoas, eu prestava atenção aos carros. Fiquei dirigindo o resto do dia ao longo de Lexington, passando por conjuntos habitacionais, terrenos baldios, lojas de bebidas e pelo centro da cidade “restaurado”, observando os carros e as pessoas que entravam e saíam. Pessoas que viviam suas vidas, ou pareciam viver, e que faziam o que podiam diante das circunstâncias que lhes eram apresentadas.

John Haskell_Purgatorio americano_119

John Haskell
Trad.: Daniel Frazão
Rocco
240 págs.