Entrevistas

agosto 2011 / Entrevistas / Em alto-mar

Texto publicado na edição #132

Em alto-mar

  Não chega a ser uma armadilha, uma trapaça. Mas a capa de fundo vermelho, em que sobressai a mítica […]

> Por ROGÉRIO PEREIRA

Marcelo Ferroni: "Não vale a pena escrever por prestígio nem por dinheiro".

 

Não chega a ser uma armadilha, uma trapaça. Mas a capa de fundo vermelho, em que sobressai a mítica imagem de Che Guevara, distorcida por um efeito gráfico, pode levar o incauto leitor a agarrar-se ao livro em busca de um pouco mais da vida e das aventuras do guerrilheiro sul-americano. É possível encontrar algo, um lampejo aqui, um rastro ali. No entanto, Método prático da guerrilha (o título também pode levar ao engano), romance de Marcelo Ferroni, é uma ficção. Um thriller, como gosta de ressaltar o autor. Parte de um fato histórico, de um personagem histórico, para distorcê-los livremente. “Tive a intenção de provocar o leitor que se debruça sobre a literatura em busca de uma ‘verdade’ histórica”, explica Ferroni nesta entrevista concedida por e-mail.

O romance aborda os dois últimos anos de Guevara, entre 1966 e 1967, da fracassada passagem guerrilheira no Congo até a morte, aos 39 anos, na Bolívia, após sua última tentativa revolucionária na América Latina. Tudo devidamente conduzido por um narrador muito pouco confiável (mas que logo conquista o leitor) e, portanto, repleto de informações de que desconfiamos o tempo todo. Isso não quer dizer que Marcelo Ferroni não tenha se debruçado sobre livros e livros a respeito de El Che e da história latino-americana. Para, enfim, compor um romance sobre o fracasso, os sonhos e a ambição.

Na entrevista a seguir, o autor fala sobre Método prática da guerrilha, o mercado editorial brasileiro (ele é editor da Alfaguara), seu pessimismo em relação ao número de leitores, o seu desejo de escrever um livro que “seja lido vorazmente”, entre muitos outros assuntos.

• A pergunta inicial me parece inevitável: quais os motivos que o levaram a transformar os momentos finais de Che Guevara em ficção?
Em 2003, eu havia acabado de terminar meu livro de contos e estava lendo A ditadura envergonhada, de Elio Gaspari. Num capítulo específico, ele falava da expedição de Che Guevara ao Congo, em 1965. Uma expedição em que tudo deu errado. Che tentava ensinar os congoleses a marchar com peso nas costas, mas eles diziam: Mimi hapana motocar, eu não sou caminhão. Pensei que a vida de Guevara daria um ótimo romance. Já fazia algum tempo que estava pensando em fazer um romance com base histórica, subvertendo-a. Quando li sobre o Che, tudo se encaixou. Passei os meses seguintes estudando sobre ele e sobre os movimentos revolucionários no Brasil nos anos 1960. Queria que um dos personagens fosse brasileiro, que tivesse vindo de um desses movimentos. Assim surgiu João Batista, a única figura ficcional na entourage de Guevara.

• Como se deu todo o processo de construção do romance, quais as maiores dificuldades ao abordar um tema histórico?
Em minhas primeiras versões, segui atentamente os fatos sobre a expedição de Guevara à Bolívia. Nas versões seguintes, me ative apenas à questão ficcional, refazendo completamente o texto. Em um romance histórico, a maior dificuldade seria tentar reproduzir fielmente a época em que ele se passa. Mas em meu livro eu procurei falseá-la. Quis escrever um romance em que um leitor indignado comentasse: “Isso aqui está errado. Não existia celular naquela época”. Não há celulares em meu livro, mas existem outras coisas inverossímeis. Por que fiz isso? Entre os vários motivos, tive a intenção de provocar o leitor que se debruça sobre a literatura em busca de uma “verdade” histórica. Certa vez um conhecido me disse que não lia literatura porque não havia nada a aprender com ela. Gostava de biografias. Mas ele curiosamente havia adorado O código da Vinci porque, por meio dele, aprendera sobre os mistérios da Igreja Católica. Foi o que tentei fazer: um livro de ação, de espionagem, em que o leitor desavisado ache que está aprendendo algo sobre Guevara e os movimentos revolucionários da América Latina. Mas distorci deliberadamente os fatos. Desfiz os diários dos guerrilheiros; tirei do contexto o que os biógrafos escreveram. Tampouco fui aos locais em que se passa a história. Quis criar uma Bolívia imaginada, uma espécie de paisagem fora de perspectiva, pintada como uma cortina de teatro. Para esse leitor que busca a terra firme, portanto, Método prático da guerrilha vai apenas jogá-lo mais para alto-mar.

• Pode-se ler Método prático da guerrilha também como uma crítica (irônica) à condução de algumas biografias? Agradam-lhe os métodos utilizados pelos biógrafos atuais?
Sim, o livro é também uma reconstrução irônica das biografias contemporâneas. Isso não quer dizer que eu não goste delas; de algumas, inclusive, gosto muito, e acho que, antes dessa aberrante intervenção de Roberto Carlos, as coisas iam muito bem. No caso do meu livro, mimetizar o estilo de um biógrafo foi a forma que encontrei para ajustar a narrativa; dar-lhe um tom não-ficcional.

• O narrador de Método prático da guerrilha é muito pouco confiável. No entanto, o pacto com o leitor se dá de maneira natural. Encontrar o tom exato da voz deste narrador foi um dos maiores desafios durante a escrita do romance?
Sim, esse foi um processo difícil. Em minha primeira tentativa, comecei a narrar a história em terceira pessoa, num formato tradicional: o livro se iniciava com os soldados bolivianos vendo Che Guevara ser arrastado até a escolinha onde seria executado. Não fiquei satisfeito com o resultado. Nas tentativas seguintes, aos poucos fui desenvolvendo esse narrador que atua como um biógrafo. Quem é esse biógrafo? Quis que ele fosse um dos personagens: um general que participou dos eventos; o parente de um desaparecido. No final, o narrador se identifica no prefácio. É o próprio escritor, um personagem de mim mesmo.

• Que tipo de leitor o senhor espera que o seu romance encontre? O senhor pensa num leitor ideal para o livro?
Eu gostaria de fazer um romance que pudesse ser lido por uma pessoa desacostumada com a literatura, como se fosse um thriller, ou algo assim. Quando escrevo, penso nessa pessoa que muito raramente lê ficção, mas que, quando o faz, talvez tire um mínimo de prazer com isso. Enfim, tento fazer um livro em camadas. A mais superficial é uma história de ação, de intrigas, marginalmente de amor. Quero que a pessoa leia e se divirta com o livro. Mas há camadas subterrâneas, que um leitor mais experiente pode detectar.

• O senhor acredita que ainda há espaço (principalmente na América Latina) para um pensamento revolucionário à Che Guevara?
Acho que sim. Para um pensamento revolucionário, sim. Para um pensamento à moda de Che Guevara, aí não tenho tanta certeza.

• Em 2004, o senhor publicou os contos de Dia dos mortos. Que evolução e diferenças o leitor encontrará daquele autor para este do romance Método prático da guerrilha?
Eu espero que o leitor encontre uma diferença abissal entre os dois livros. Dia dos mortos era um livro de estréia. Eu estava louco para publicar, batalhei para escrever os contos, mas, em retrospecto, é um livro cheio de falhas, de textos que não deveriam estar ali. Não penso em voltar ao formato do conto nesse momento.

• Incomoda-lhe o fato de que Método prático da guerrilha tenha sido recebido com certa indiferença pela imprensa especializada em literatura? A que o senhor atribui esta falta de retorno crítico, levando-se em conta que o romance saiu por uma das principais editoras brasileiras?
Eu me acostumei (ou procurei me acostumar) ao silêncio trabalhando como editor de literatura na Objetiva. Às vezes lançamos livros muito bons e não acontece nada. Sobre meu livro, depois de um começo lento, vieram resenhas positivas. Sob o ponto de vista internacional, as notícias não poderiam ser melhores. Agora em abril ele sai em Portugal pela Dom Quixote. No segundo semestre, pela Alfaguara, na Espanha. (Devo isso ao Roberto Feith, que passou o manuscrito para eles — a Alfaguara foi a primeira editora a adquirir os direitos.) No início de 2012, pela Mondadori, na Itália. Para um livro de estréia, me deixa bem satisfeito.

• O senhor foi editor da Globo e atualmente está no selo Alfaguara, da Objetiva. Método prático da guerrilha saiu pela Companhia das Letras. Portanto, o senhor acompanha de perto o mercado editorial brasileiro. Em março, aportou por aqui a editora portuguesa Babel, ávida por conquistar uma fatia considerável do mercado. Anteriormente, haviam chegado outros grandes grupos editoriais estrangeiros. Como é o caso, por exemplo, da Alfaguara. Como o senhor avalia o momento por que passa o mercado editorial brasileiro? Vivemos um momento mais favorável à leitura?
Mais livros de qualidade vão ser feitos, a concorrência por novos autores vai ficar maior, a qualidade gráfica, cada vez mais impecável, os adiantamentos estrangeiros chegarão à estratosfera, mas… venderemos mais literatura? Gostaria de acreditar que sim, mas sou cético. Talvez mais auto-ajuda.

• Ainda sobre mercado editorial, é possível medir o impacto de tecnologias como os e-books sobre a literatura e os leitores? Está realmente surgindo um novo tipo de leitor, ou ele sempre será o mesmo independentemente do suporte?
O que ouvi é que os leitores que adquirem um reader tendem a comprar mais livros, o que é um bom sinal. No Brasil ainda não dá para sentir o impacto, mas isso deve mudar bastante nos próximos anos. Eu acabei de comprar um celular que tem um leitor de livros digitais e achei ótimo poder ler Pride and prejudice (que estava incluído no aparelho) na telinha. Agora, sobre literatura… não acho que os e-books devam criar mais leitores nesse nível. Seria até interessante tentar descobrir qual é a porcentagem de pessoas no Brasil que se interessam seriamente por literatura. Deve ser a mesma que no século 19.

• E por falar em leitura e leitores, como foi o primeiro contato com a literatura? E o que ela representa atualmente em sua vida?
Eu comecei a ler desde cedo, mas nada que se assemelhasse minimamente a literatura: Ian Fleming (achava dificílimo), Ken Follett (suas coincidências me irritavam), Tom Clancy (os russos, desertores do submarino Outubro vermelho, chorando com as maravilhas da América), Frederick Forsyth, Clive Cussler. Minha entrada na literatura foi muito tardia. Talvez seja por isso que acabei escrevendo um livro sobre guerra e espionagem. De certa forma, é uma homenagem a toda essa tranqueira. Também lia Isaac Asimov, Arthur C. Clarke, coisas que meu pai tinha na estante. Odiava Eça de Queirós, certamente em função de minha educação em colégio jesuíta. Qual não foi minha felicidade ao descobrir anos depois O primo Basílio, que eu havia lido apenas em resuminhos. Hoje eu penso praticamente só em literatura. Então posso dizer que ocupa um espaço importante na minha vida. Acho que não sei nem conversar direito sobre outros temas.

• O senhor é leitor de literatura policial. O que lhe agrada neste gênero, muitas vezes considerado “menor” na literatura?
Na verdade não sou leitor de romances policiais. Com exceção de Raymond Chandler e Dashiell Hammett, não me interesso por quase nada. Minha mulher os adora, no entanto. Ela lê absolutamente todos que são lançados no Brasil. Não estou exagerando. Acompanhamos os lançamentos da Companhia das Letras mês a mês e compramos assim que são postos à venda. Eu gosto mais da idéia do romance policial do que do romance policial propriamente dito. Sempre que tento ler, paro nas primeiras páginas. Agora estou lendo mais, por conta do novo livro.

• Possivelmente, o senhor recebe dezenas de originais todos os meses para avaliação. Quais os maiores pecados dos autores que buscam um espaço no disputado mundo da literatura?
Acho que existe um pecado bastante comum atualmente: a pessoa se senta na frente do computador, respira fundo e começa a digitar furiosamente, o que vier na cabeça. Um improviso inspirado, digamos assim. Os personagens tendem a se parecer com o próprio escritor. O resultado dá a falsa idéia de ser bem contemporâneo, mas às vezes não passa de uma série de estudos que serviriam apenas de base para um romance, não como um romance propriamente dito. Numa releitura atenta, esses momentos inspirados, espontâneos, provavelmente teriam de ser modificados. Ou até cortados. Mas não tenho nada contra escrever sobre si mesmo. Emmanuel Carrère faz isso o tempo todo, radicalmente, e o considero um dos maiores escritores da atualidade.

• As livrarias não dão conta de absorver a voracidade do mercado editorial. Os leitores, muito menos. O ritmo de novos títulos à disposição todos os dias beira a insanidade. Neste turbilhão de novidades, como é o trabalho de um editor?
Recebo uma infinidade de manuscritos estrangeiros, via agentes literários. Mais uma quantidade expressiva de textos de autores brasileiros. Não dá para publicar tudo. Às vezes é um trabalho duro, ter de rejeitar uma obra que é boa. Não excelente, mas boa. Há realmente um limite do que as livrarias são capazes de absorver. Dá tristeza lançar um bom livro e ele nem ao menos ser devidamente consignado. O mercado literário é pequeno, difícil de crescer.

• Quais são as suas obsessões literárias?
Minhas obsessões literárias… fazer um livro que seja lido vorazmente. Que concorra com o cinema, com a televisão, com os livros sobre anjos, e ganhe.

• Qual a sua opinião sobre a capacidade de “formar” escritores das oficinas de criação literária que se espalham Brasil afora?
Nos Estados Unidos, esses cursos formam milhares de novos escritores todos os anos. Os alunos adquirem um controle muito bom do texto, e todos os livros se parecem. Aqui no Brasil não acompanho o processo, então não tenho como avaliar. Depende do professor, imagino. Uma vez recebi um spam (Melhore seu texto! Seja um escritor de sucesso!) que me pareceu assustador.

Como o senhor avalia o panorama literário brasileiro contemporâneo? Quais autores merecem a sua atenção?
Apesar do meu pessimismo em relação ao número de leitores e ao tamanho do mercado, sou otimista quanto à nova literatura brasileira. Acho que algo está ocorrendo. Vozes vibrantes, consistentes, que reconstroem as tradições literárias ou rompem totalmente com elas. Ronaldo Correia de Brito é o que há de melhor hoje. Francisco Dantas, Ricardo Lísias, Rodrigo Lacerda, Antonio Carlos Viana, José Luiz Passos. Li há pouco tempo um livro da Brisa Paim e gostei bastante. O livro de contos (Uma fome) do Leandro Sarmatz também. Publicamos na Alfaguara um romance a quatro mãos (O verão do Chibo), de Emilio Fraia e Vanessa Barbara, que é excelente.

• Como é o seu método de criação? Há uma rotina de trabalho, manias, esquisitices, rituais?
Meus horários são diretamente influenciados pela ocupação profissional. Meu trabalho na Alfaguara, como o de qualquer editor, extravasa o horário comercial. Avalio manuscritos em casa, às vezes trabalho nos finais de semana. Tenho também um filho de dois anos e outro a caminho. Então escrevo no tempo que me sobra. Quando não estou escrevendo, penso sobre o livro. Penso muito sobre seu andamento, sobre como resolver um ou outro detalhe. Aporrinho minha mulher com considerações enquanto estamos comendo, ou na frente da televisão. Meu modo de escrever é simples: faço uma primeira versão, absolutamente espontânea, normalmente terrível. Depois imprimo essa versão, coloco-a ao meu lado na mesa, abro um arquivo novo no Word e começo do zero. Quando termino a segunda versão, faço a mesma coisa na terceira versão. Os tempos de produção vão diminuindo. Acho que prefiro editar meu texto do que fazê-lo do zero. Me dá ansiedade ver uma coisa inacabada. A partir da segunda versão começo a desenvolver os personagens e a forma da narrativa. Na última versão (a quarta), leio todo o texto em voz alta, repetidas vezes, para acertar a colocação da vírgula. Depois finalmente mostro a versão à Martha, minha mulher, que também é editora. Antes disso, nem uma linha. Em Método prático da guerrilha, isso levou seis anos. Sobre manias e rituais… não bebo para escrever, nem escrevo com música. Se o faço, depois tenho de reescrever o trecho. Mas consigo escrever vendo o Discovery Kids. Não posso ter muitos rituais porque escrevo quando tenho tempo, qualquer tempo que seja.

• O senhor já trabalha em um novo livro?
Sim. Será uma narrativa policial tradicional, com vários suspeitos e um fantasma.

• Que conselho o senhor daria a alguém que pretendesse se dedicar à literatura como escritor?
Não vale a pena escrever por prestígio nem por dinheiro. É melhor escrever para você mesmo, para satisfazer uma premência que não pode ser resolvida de outra forma.

• O que o senhor espera alcançar com sua escrita?
Satisfação pessoal. Gosto de me divertir com o processo, de me sentir realizado ao criar uma passagem que eu considere especialmente boa. Gostaria de ter mais tempo para escrever, e adoraria que essa fosse uma atividade auto-sustentável, mas temos duas babás, gostamos de jantar fora, de comprar vinhos e utensílios caros de cozinha.

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MARCELO FERRONI

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Nasceu em 1974, em São Paulo. Vive atualmente no Rio de Janeiro, com a mulher e o filho. É editor da Alfaguara, selo de literatura da Objetiva. Em 2004, publicou o livro de contos Dia dos mortos (Globo). Método prático da guerrilha é seu primeiro romance.

O agente de codinome Mercy é um homem prevenido. Nesse 5 de janeiro nublado e úmido, depois de um café da manhã frugal, porque o hotel El Incaico, no centro de La Paz, não oferece nada além de chá de coca, broas de milho e um queijo muito forte da região, ele atravessa o lobby de pasta na mão, acena para um táxi como se fosse a um encontro urgente (está na Bolívia, afinal, a negócios), mas desce a alguns quarteirões dali, onde, a seguir, toma um ônibus até uma área residencial. (Método prático da guerrilha)

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Marcelo Ferroni
Companhia das Letras
225 págs.