Tudo é narrativa

maio 2019 / Tudo é narrativa / Elza e Elke

Texto publicado na edição #229

Elza e Elke

O que liga uma fotógrafa paraense e uma artista visual paranaense

> Por Tércia Montenegro

O que pode haver em comum entre uma fotógrafa paraense e uma artista visual paranaense, duas mulheres de gerações e mídias diferentes? No fundo, tudo se tangencia e se encontra — de forma que decido reunir aqui as obras de Elza Lima e Elke Coelho. Até porque eu as conheci no mesmo período, e isso já é sinal de convergência, num foro íntimo. A visualidade e o trato com o espaço são outro aspecto semelhante entre elas, embora surja como sutileza, que só se percebe depois.

Elza Lima veio ao Museu da Fotografia de Fortaleza para uma palestra e um curso, “A cor do tempo”. Trouxe suas experiências em viagens e percursos fotográficos, com simplicidade e bom humor perfeitamente sintonizados com suas imagens. A série do círio de Nazaré (ou de outras tantas procissões) mostrou seu interesse pelo registro do “antes”: o preparo, os movimentos prévios das pessoas que ainda não se vestiram completamente para um ritual. Essa é a vida cotidiana prestes a ficar suspensa por um acontecimento; é a cena à beira do futuro.

O menino que mergulha no lago, tendo deixado as asas de anjo na margem; as garotas se amontoando numa pose desengonçada, anjinhos também, prontas para um desfile — apenas individualizadas pelos pés, em sandálias ou botinhas da Xuxa… Elza Lima fotografa desde 1984. Percorre sobretudo a Amazônia, documentando uma rotina sobre águas. Na série Uma alegria feita manhã, de 2010, em cores, temos os momentos prévios ao círio de Caraparu, no município de Santa Isabel. Marujos e anjos alvoroçados em torno do andor preparam a viagem de barco até a capela onde será celebrada uma missa.

As fotos parecem pulsar com os ruídos, o formigamento daqueles instantes: pressentimos risadas, chapinhar de pés no rio, gritos de crianças. Nas séries mais antigas, em PB, o mesmo elemento líquido é constante. Meninos emergindo, espumosos como figuras míticas; mulheres tão serenas, com o cabelo longo e liso flutuando; homens que seguram peixes como troféus. Tudo isso é o estilo marcante de Elza Lima.

Mas em algumas de suas imagens mais recentes — pelo trabalho com transparências, pelo instável das cores, que parecem bordadas em verde, azul e cinza nos reflexos da vegetação dentro d’água — vemos um diálogo estreito, agora, sim, com a obra de Elke Coelho. É essa exploração do onírico que as motiva, as formas que se dissolvem ou vaporizam, transcendem a matéria.

Soube da segunda artista por email; uma delicadeza de mensagem chegou a mim, lembrando que nos tínhamos visto pessoalmente em Londrina, mais de dez anos atrás: ela era monitora do Museu de Arte desta cidade, e eu viajava com o grupo teatral Cabauêba, para apresentar no festival de Londrina a peça Linha férrea, baseada nos meus contos. Pois Elke, nascida em 1983, desenvolveu uma carreira como professora e artista; em 2018, lançou o livro-objeto Coisas de Iracema, que depois ganhei pelo correio. O exemplar é um primor: composto por páginas em lâminas soltas, alterna desenhos e textos curtos, sobre a personagem do título.

O perfil dessa Iracema, tão diferente da figura alencarina que impregna os cearenses, fez com que minha leitura fosse singular. Mas a carga simbólica não é a mesma no resto do país. No Paraná — ressaltou Elke, numa resposta às impressões que lhe mandei — esse nome tem sabor de estranheza, é quase anacronismo.

Num Brasil tão amplo e sujeito aos cruzamentos de culturas e destinos, os museus confirmam a sua habilidade de criar paixões. Também Elza Lima, por suas fotos em exibição, nos leva para outras épocas: seus registros falam de ancestralidade e essência. As duas artistas são igualmente atentas às minúcias, à relevância dos detalhes — e há partículas que se revelam tão vastas, sob um novo olhar! No portfólio de Elke Coelho encontro excertos expositivos: a lâmina de barbear que ganha uma nova perspectiva, as bolinhas de pingue-pongue, as esferas… objetos parecem se organizar num mundo próprio, e os vazios têm poder de ameaça. Sinto que preciso voltar a várias cenas para saber exatamente o que elas me incitam. Existe aqui um aprendizado perceptivo, que se faz aos poucos.

As preferências de Elke Coelho pelo arranjo repetido, pela mistura de palavra com imagem, são ressaltadas em sua tese de doutoramento, defendida na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Área de risco traz os liames entre vida e prática artística. Conhecer um pouco dessa escrita ampliou minha compreensão.

“Tornar tangível” talvez seja a principal tarefa a que Elke Coelho se atém. E — assim como sua personagem Iracema — ela traz “como dom imergir até mesmo em superfícies”. Suas experiências de infância no campo de algodão, suas obsessões com os acúmulos e os desertos, assim conciliados numa estética, atingem alto grau poético no texto-testemunho. Mas a pesquisa vai além: faz com que o leitor mergulhe no ateliê, nos processos dolorosos da criação. A arte é como essa “grande e delicada ferida” — e eu saio da leitura convencida de que ela também é um mundo, cada vez mais expandido.

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