Ensaios e Resenhas

janeiro 2012 / Ensaios e Resenhas / Ele próprio, o outro

Texto publicado na edição #112

Ele próprio, o outro

Em uma das muitas cartas enviadas a seu amigo Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro expressa incerteza quanto ao subtítulo que […]

> Por GREGÓRIO DANTAS

Em uma das muitas cartas enviadas a seu amigo Fernando Pessoa, Mário de Sá-Carneiro expressa incerteza quanto ao subtítulo que deveria dar ao seu livro de contos, Céu em fogo (1915). O autor chegou a cogitar chamar essas histórias de “sonhos”, o que seria mais adequado à grandiosidade de seus temas, ao contrário de “contos”, expressão algo medíocre, mais adequada a histórias que tratassem de eventos ordinários e cotidianos (o subtítulo definitivo ao volume seria “oito novelas”). Tal distinção é bastante representativa da função que Sá-Carneiro atribuía à arte em geral e, principalmente, à sua própria. Avesso ao gosto burguês e ao provincianismo lisboeta, o escritor previa para si um destino artístico elevado: sua literatura, de cunho eminentemente confessional, reflete as etapas de um projeto estético grandioso.

Autor de pelo menos duas obras-primas, a novela Confissão de Lúcio e o volume de poemas Dispersão, Mário de Sá-Carneiro morreu muito jovem, aos 26 anos, em 1926. A causa da morte foi suicídio com estricnina, ato desesperado mas previsível, considerando a fascinação que o autor sentia pelo tema, e pela imagem de gênio incompreendido que fazia de si mesmo. Sua produção literária concentra-se no espaço de poucos anos, o que lhe confere uma unidade singular. Daí que mesmo os seus contos, que normalmente não figuram entre suas maiores realizações, são bastante coerentes com sua proposta estética.

Conhecendo a biografia do autor e sua variada correspondência, é fácil compreender as interpretações biográficas de sua obra. O mais comum é que os poemas e as narrativas de Sá-Carneiro sejam interpretados como desdobramentos de sua personalidade. É claro que interpretações biográficas são sempre arriscadas, visto que é tentador reduzir uma obra literária à expressão mais evidente das angústias do artista, esquecendo-se assim de sua tessitura formal e de seu contexto literário e histórico. Mas no caso de Sá-Carneiro a aproximação é inevitável (ainda que sujeita a algumas generalizações).

A começar pelo tom confessional de seus escritos, e das referências pessoais que o autor não fazia questão de esconder (como, por exemplo, a incorporação em um poema do apelido dado por alguns amigos, “o esfinge gorda”). Assim, a imagem do poeta buscando a ascensão no livro Dispersão é reconhecidamente criada à semelhança do autor, ou melhor, à imagem que fazia de si mesmo: “Brando a espada: sou luz harmoniosa/ E chama genial que tudo ousa/ Unicamente à força de sonhar…”

A figura do artista genial perpassa todos seus escritos. É assim em Céu em fogo, seu último livro publicado em vida (o volume de poemas Indícios de oiro é póstumo). Os personagens desses contos, em sua maioria artistas, são tomados pelo delírio da criação. Frente ao tédio do mundo ordinário, o artista não vê saída senão na fuga: através da alucinação, do culto ao feérico e das sensações que, estimuladas, levam ao delírio; através do fantástico e de uma subjetividade ampliada a ponto de se desdobrar (o duplo é um dos temas mais caros ao autor); e, finalmente, através da morte, muitas vezes do suicídio. Tais temas pedem um texto quase poético, expressão dos tormentos íntimos do personagem. E há de fato um excesso de exclamações, reticências e sinestesias, representando o percurso do artista que anseia por um “Além” inalcançável e mergulha em sua subjetividade, no sonho, na loucura.

Coeso e bem estruturado
Recentemente, a editora 7Letras escolheu uma das melhores histórias deste livro — A estranha morte do professor Antena — para figurar em sua coleção de bolso, que conta ainda com títulos de Eça de Queirós, Florbela Espanca e Fialho de Almeida (além de alguns nomes contemporâneos). A coleção é simpática (são livros de bolso que realmente cabem no bolso) e a escolha foi acertada: um dos contos mais populares de Sá-Carneiro, A estranha morte… possui uma estrutura de composição particularmente coesa e bem realizada, dentro de um volume irregular e excessivo como é Céu em fogo.

O protagonista do conto é, como convém, um artista, embora não convencional. Na verdade, trata-se de um cientista (o que, no universo de Sá-Carneiro, pode ser a mesma coisa):

Com efeito um grande sábio cria — imagina tanto ou mais do que o Artista. A Ciência é talvez a maior das artes — erguendo-se a mais sobrenatural, a mais irreal, a mais longe em Além. O artista adivinha. Fazer arte é Prever. Eis pelo que Newton e Shakespeare, se se não excedem, se igualam.

A jornada desse excêntrico Artista nos é narrada por seu ajudante e admirador, o que estabelece uma configuração singular para a questão do duplo. Em Sá-Carneiro, a ânsia de seus personagens pela ascese e pelo desdobramento de sua subjetividade é representada na figura de um Outro, idealizado. Mas todo duplo é um paradoxo, porque é impossível ao personagem torna-se Outro sem deixar de ser ele mesmo. De modo que o desfecho é inevitavelmente trágico. Em A estranha morte do professor Antena (assim com em Asas, outro conto de Céu em fogo), ajudante e cientista representam as duas faces do artista envolto no projeto de ascese: enquanto o mestre consegue transcender o plano material, o discípulo é aquele que não conseguiu (nem conseguiria jamais) alcançar o mesmo feito. Resta-lhe, então, investigar o mistério da morte do professor Antena.

Indicações imprecisas
O narrador flerta, então, com a racionalidade. Em primeiro lugar, refere-se ao caso do professor Antena como sendo um “mistério policial”; depois, demonstra vontade de ser claro e organizado na reconstituição dos últimos dias de seu Mestre, partindo de documentos e anotações pessoais do professor. Mas não se trata de um conto policial, exatamente: uma hipótese “sherlockholmanesca” é logo posta de lado e a “investigação” não obedecerá à lógica convencional. As anotações do professor dão indicações imprecisas de suas experiências, e nenhuma prova irrefutável das razões de sua morte.

Suas experiências consistiam, basicamente, na comprovação da existência de “mundos sobrepostos”, ou seja, de que o passado e o presente se sobrepõem, de modo que seria possível a uma pessoa estar em dois lugares ao mesmo tempo. Ou melhor, um mesmo corpo poderia habitar, concomitantemente, dois momentos históricos diferentes. Para chegar a tal conclusão, o narrador estabelece um diálogo intenso com os papéis do professor, o que ocupa a maior parte do conto.

Não se trata, portanto, de um conto fantástico ou investigativo tradicional. Mais do que as surpresas do enredo, vale acompanhar a reflexão do narrador a respeito da hipótese de mundos sobrepostos, das vidas passadas e da exploração dos sentidos do artista-cientista. O tom é grandiloqüente e bastante datado, principalmente nas palavras do professor:

“É desolador como sabemos pouco de nós. Tudo é silêncio em nossa volta. O que é a vida? O que é a morte?… Donde somos, para onde viemos, para onde vamos? … Mistério. Nuvens. Sombra fantástica… E o homem de siso não crê nos espectros!… Mas não seremos espectros, nós próprios? O Mistério? (…)”

No cerne desta experiência estão questões como o a dupla personalidade, a tênue fronteira entre loucura e sanidade, sonho e vigília. Questões muito caras à virada do século 19 para o 20. Essa ânsia pela ultrapassagem do real em direção a um plano superior tem muito de decadentista, assim como a sinestesias devem muito ao simbolismo. O crítico português João Gaspar Simões chegou a considerar Sá-Carneiro um “neo-simbolista”, ainda que nunca tenha havido propriamente um neo-simbolismo (sua poesia está repleta de imagens caras aos simbolistas, como imagens heráldicas e castelos).

Isso não quer dizer que Sá-Carneiro não tenha sido, a seu modo, um modernista. Foi, e dos mais importantes. A começar pela participação ativa na criação da revista Orpheu, publicação de vida curta mas de ampla repercussão, e do interesse por alguns dos movimentos de vanguarda que ganhavam força na época, futurismo e surrealismo entre eles. Além disso, o próprio Fernando Pessoa reconheceu na obra poética e ficcional do amigo características comuns à sua própria poesia, como elementos do paulismo e do interseccionismo.

Mas para além da importância histórica de Mário de Sá-Carneiro para a literatura moderna, o conto A estranha morte do professor Antena deve ser lido como exposição um pouco delirante de um projeto estético grave, ainda que disfarçado sob um verniz supostamente cientificista. Em benefício do leitor brasileiro, a presente edição traz um esclarecedor posfácio da professora Maria João Gomes, que nos propõe lermos o texto como uma alegoria, da “viagem para o lado do misterioso e da descoberta impensável — ao preço da própria vida, como, de certa forma, aconteceu com seu autor”. Uma alegoria que é, também, um belo exercício de fantasia.

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Mário de Sá-Carneiro

Mario de Sa-Carneiro

Nasceu em 1890 em Lisboa e morreu em 1916, em Paris. Jovem tímido e inadaptado, escreveu primeiramente para o teatro. Um dos idealizadores da revista Orpheu, foi um dos mais importantes nomes do modernismo português, ao lado de Fernando Pessoa, Almada Negreiros, entre outros. Entre suas obras estão o livro de poesia Dispersão (1914), a novela A confissão de Lúcio (1914) e o volume de contos Céu em fogo (1915).

Contudo, a sua intensidade não será tão grande que sufoque os vestígios de sentidos doutrora, como quando estamos acordados, e assim uns e outros trabalharão em conjunto. Daí toda a incoerência dos sonhos, o destrambelhamento da realidade, visto que as sensações serão meras sombras de sensações estagnadas, interpretadas por vislumbres de sentidos doutra vida, transmitidas ao nosso cérebro pelos nossos sentidos actuais morfinizados, vacilantes.

Mario de Sa Carneiro_livro

Mário de Sá-Carneiro
7 Letras
88 págs.