Dom Casmurro

fevereiro 2019 / Dom Casmurro / Eduardo Silveira

Texto publicado na edição #226

Eduardo Silveira

Dois poemas de Eduardo Silveira

> Por Eduardo Silveira

Eduardo Silveira_226

Canção de despertar
para Clara

Nas cordas ritmadas do charango
sinto a vibração de tua chegada
o som tímido e constante
de um coração tluf tluf tluf
abrindo espaço no mundo de cá

Eu pude ouvir, minha filha
deitado na barriga da tua mãe
por sobre camadas de carnes
e água e sangue e suor
as batidas de teu pequeno coração

cada mínima batida tluf tluf tluf
abrindo espaço no mundo de cá
anunciando tua presença constante
porque você nasce, filha
e cada chute toque som soluço

cruzando a misteriosa fronteira entre mundos
erguendo o ventre de tua mãe
torna a frágil silhueta do monitor
menos confusa, porque humana
mais intensa, porque serena

e quando o frágil fio da respiração
arder seus pulmões a um só golpe
cicatrizar tua chegada ao lado de cá
aquele som abafado e distante
tluf tluf tluf

acordará cada vez maior.
Algo sobre o mistério

Não, não há mistério.
Não há mais mistério algum,
ouviram?
Não há mistério.
O que resta é óbvio,
suas cores pastéis,
movimentos limpos e ordenados.
Nenhum sussurro daquele mistério
que nos fazia esfriar o fundo da barriga.
Tudo o que resta é claro,
tão claro que faz arder o seco dos olhos,
os ossos.
Todo aquele emaranhado
de fluídos e secreções
que antigamente se chamava: corpo.
Onde há pouco,
muito pouco,
diziam localizar-se a alma.
Nada resta
daquele antigo mistério da infância,
a sensação de ter o mundo saltando pela garganta
e perceber que sempre há mais:
além dos olhares e das palavras.
Nada.
Acordo pensando em escrever
algo sobre o mistério.
Sobre a sensação que permanece fisgando
de que algo se perdeu,
de que há muita coisa ficando para trás
e se avolumando e crescendo e gritando
calada.
Logo o dia se agiganta
com sua reserva de obviedade,
clareza inédita
e tudo desaparece.

Print Friendly