Dom Casmurro

agosto 2017 / Dom Casmurro / Eduardo Langagne

Texto publicado na edição #208

Eduardo Langagne

Três poemas de Eduardo Langagne

> Por ADRIANA LISBOA

Eduardo Langagne, autor de Verdad posible

Eduardo Langagne, autor de Verdad posible

Tradução: Adriana Lisboa

Piedras

no tenemos la casa todavía.
tenemos piedras; algunas.
trozos de pan, algo de vino tenemos
pero la casa no;
sin embargo tenemos oscuridad,
porque luz no tenemos todavía;
tenemos algunas lágrimas y besos.
otras cosas igualmente ridículas tenemos,
pero la casa no. quizá
paredes que se levantan muy despacio,
mas no tenemos casa todavía
donde encontrar el frío, la soledad,
la lluvia,
pero arriba,
un cielo como sábana tenemos
y abajo un infierno delicioso
por donde deambulamos
recogiendo piedras.
“hoy no me llevas, muerte, calavera,
no me voy, no quiero ir.
hoy no voy ni entrego mi barco de papel,
mi brazo, mi guitarra, hoy no,
hoy solamente tiro piedras,
poemas,
muchas piedras contra tu rostro
— no niego, dulce rostro —
tiro piedras,

me arranco el corazón y te lo arrojo.
hoy no, muerte, hoy no voy, no quiero,
necesito hacer la casa.”
y estoy vivo
cuando arrojo palabras, muchas palabras.
fuego.
Pedras

ainda não temos a casa,
temos pedras; algumas.
temos pedaços de pão, um pouco de vinho,
mas a casa não;
temos contudo penumbra,
porque luz não temos ainda;
temos algumas lágrimas e beijos,
temos outras coisas igualmente ridículas,
mas a casa não. talvez
paredes que se levantam muito depressa,
porém ainda não temos casa
onde encontrar o frio, a solidão,
a chuva,
mas lá em cima
temos um céu como um lençol
e embaixo um inferno delicioso
por onde vagueamos
catando pedras.
“hoje não me levas, morte, caveira,
hoje não vou, não quero ir.
hoje não vou nem entrego meu barco de papel,
meu braço, meu violão, não hoje,
hoje só atiro pedras,
poemas,
muitas pedras no teu rosto
— não nego, doce rosto —
atiro pedras,
arranco meu coração e lanço-o sobre ti.
hoje não, morte, hoje não vou, não quero,
preciso fazer a casa.”
e estou vivo
quando lanço palavras, muitas palavras.
fogo.

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El proverbio árabe

Siempre vuelve el proverbio ancestral
del árbol, el libro y el hijo.

En un lugar vacío del desierto
— Rub al-Jali su nombre —,
la sentencia se hizo célebre.

Ahí los dátilos crecen
con los pies en el agua
y la cabeza en el fuego.

Los dátiles son dedos,
muestran la ruta de las dudas;
señalan la procesión de los camellos:
ven avanzar jorobas o dunas ondulantes.

La palmera solitaria sobrevive:
dátiles secos a sus pies.

Hacer crecer una palmera
que ofrezca frutos renovados.
Imaginar la palmera que rumora.

Se escuchan los secretos alojados en la arena;
los dispersa la estación del viento.

Aquí un espejismo:
Leer a vida que aún no hemo escrito.
Otros podrán vivir sus páginas
mientras hojean la propia.

Aquí un oasis:
El libro dicta los silencios
y escucha los lamentos del árbol de Teneré:
quejumbrosa pulpa de papel.

Tener un libro: un libro.

Plantar un árbol para dar sombra al hijo;
tener un hijo que imagine como un libro.
Escribir un libro.
O provérbio árabe

Volta sempre o provérbio ancestral
da árvore, do livro e do filho.

Num lugar vazio do deserto
— chama-se Rub al-Jali —,
a sentença se fez célebre.

Ali as tâmaras crescem
com os pés na água
e a cabeça no fogo.

As tâmaras são dedos,
mostram a rota das dúvidas;
indicam a procissão dos camelos:
veem avançar corcovas ou dunas ondulantes.

A palmeira solitária sobrevive:
tâmaras secas a seus pés.

Fazer crescer uma palmeira
que ofereça frutos renovados.
Imaginar a palmeira que sussurra.

Escutam-se os segredos alojados na areia;
dispersa-os a estação do vento.

Aqui uma miragem:
Ler a vida que ainda não escrevemos.
Outros poderão viver suas páginas
enquanto folheiam a própria.

Aqui um oásis:
O livro dita os silêncios
e escuta os lamentos da árvore de Ténéré:
queixosa polpa de papel.

Ter um livro: um livro.

Plantar uma árvore para dar sombra ao filho;
ter um filho que imagine como um livro.
Escrever um livro.

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El oficio

Tengo una mesa.
Puedo escribir tengo una mesa.
Tengo una silla.
Puedo escribir tengo una silla.
Aún más:
tengo papel y tinta.
Puedo escribir sobre el papel, con esta tinta.

Pero la poesía no está en lo que ya tengo.
La poesía me dice
que está en lo que me falta.
O ofício

Tenho uma mesa.
Posso escrever tenho uma mesa.
Tenho uma cadeira.
Posso escrever tenho uma cadeira.
E mais:
tenho papel e tinta.
Posso escrever sobre o papel, com esta tinta.

Mas a poesia não está no que já tenho.
A poesia me diz
que está no que me falta.

Eduardo Langagne
Nasceu no México, em 1952. Poeta e tradutor, publicou, entre outros livros, Donde habita el cangrejo (Prêmio Casa de las Américas), Contos para una exposición (Prêmio de Poesia Aguascalientes) e Verdad posible (Prêmio José Lezama Lima/Casa de las Américas). Sua obra foi incluída em dezenas de antologias no México e no exterior.

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