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outubro 2011 / Translato / Duas traduções de Dom Casmurro

Texto publicado na edição #129

Duas traduções de Dom Casmurro

Dom Casmurro é realmente um livro como poucos. A história de uma suspeita, que se torna convicção doentia, dessas que […]

> Por EDUARDO FERREIRA

Dom Casmurro é realmente um livro como poucos. A história de uma suspeita, que se torna convicção doentia, dessas que fazem matar ou morrer. Bentinho titubeou entre as duas alternativas, acabou driblando ambas. Mas despachou a mulher para morte lenta na Suíça e, a si mesmo, concedeu-se triste sobrevida solitária na casa que reconstruiu para remoer todos os rancores.

Li duas traduções de Dom Casmurro: em inglês (Dom Casmurro, Penguin Classics, 1994, trad. Robert Scott-Buccleuch) e em francês (Dom Casmurro et les yeux de ressac, Éditions Métailié, 2002, trad. Anne-Marie Quint).

São duas traduções distintas, que revelam estratégias distintas de traduzir.

A tradução inglesa se caracteriza por um sentimento de impotência de Scott-Buccleuch diante de uma dupla economia: a natureza sintética do português e a elegante concisão do autor. Deve ter sido essa frustração que o levou a cortar certos trechos do livro — oito capítulos no total, mais outros trechos esparsos. Algo como uma compensação pelas palavras que teve que escrever a mais: propôs trocar alguns capítulos — quem sabe pouco significativos — pela liberdade para esparramar pelas páginas o caráter analítico do inglês, sem deixar de entregar ao leitor texto mais fluido e, talvez, mais palatável ao público alvo.

Dentre outros excessos de Machado, Scott-Buccleuch decidiu expurgar a chatice — Bentinho que o diga — do panegírico de Santa Mônica e a longa e aborrecível divagação de Dom Casmurro sobre o soneto que nunca fez. Quando da entrada do protagonista no seminário, o tradutor foi logo ao que mais importava: apresentar o grande amigo Escobar, com quem dividiria tantas coisas na vida, inclusive — ou seria ilusão de Bentinho? — a própria mulher.

O tradutor escocês também procurou imprimir suas preferências. Cor dos olhos, por exemplo. O Escobar inglês não tinha apenas olhos claros, mas olhos azuis — o que certamente o faria ainda mais irresistível aos olhos oblíquos e dissimulados de Capitu. Quanto a esta, seus olhos ingleses não trazem mais a força oceânica reativa da ressaca (já havia naquela época o sentido etílico de hoje?), mas a sucção-atração destruidora da voragem (“whirlpool eyes”). Capitolina deixou de ter no olhar o movimento traiçoeiro e arrasador das ondas — mesmas ondas que engoliriam seu amante, em manhã de ressaca —, para exprimir o giro hipnótico-devorador do vórtice. São escolhas, nada mais. Esta, conceda-se, forçada pela dificuldade de encontrar uma palavra inglesa que exprima “ressaca”. Vá lá: Scott-Buccleuch não chutou tão longe do gol.

Anne-Marie Quint não teve esse problema. Usou o óbvio: “ressac”. A relação mais próxima do par francês-português a favoreceu. Definiu sua escolha já no título, caracterizando o casal com o principal traço de cada um: a casmurrice obstinada de “Monsieur du Bourru” e os olhos revoltos de Capitu.

A tradutora para o francês fez um trabalho bem comportado. Não cortou o texto. Não suprimiu capítulos inteiros. Teve a pachorra de dedicar todo um capítulo — curto, é verdade — ao bom sogro de Bentinho, além de não poupar o leitor nem do panegírico nem do soneto. Seguiu o texto passo a passo — padecendo aljubes e presigangas — e até incluiu algumas notas para ajudar o leitor francófono a entender o contexto daquele Rio antigo (o leitor brasileiro atual também carecerá de alguma ajuda, diga-se de passagem).

Scott-Buccleuch parece ter ousado mais, forçado talvez pela maior diferença entre as duas línguas, talvez por injunções da editora. No rosto do casal de amantes mais sobressai sua audácia: os olhos azuis e inquietos de Escobar aliados ao fundo turbilhão capitulino.

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