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setembro 2018 / Rodapé / Duas Missas do Galo

Texto publicado na edição #221

Duas Missas do Galo

Missa do Galo, de Machado de Assis, é construído com sugestões, com silêncios, com não ditos — ou com ditos […]

> Por RINALDO DE FERNANDES

Missa do Galo, de Machado de Assis, é construído com sugestões, com silêncios, com não ditos — ou com ditos que não revelam as verdadeiras intenções de Conceição em manter a conversa de quase uma hora com o então adolescente Nogueira. A conversa dos dois é mesmo de não se fazer entender em vários aspectos. Afinal, o que quer Conceição? Ela é uma mulher casada, com um centro moral, devota de Nossa Senhora da Conceição, mas que está carente com as ausências ou “esquecimentos” do marido Meneses, que sempre parte para o seu “teatro”. Conceição chega à sala para encetar uma conversa com um adolescente que, ao narrar os fatos anos depois, mostra não ter ainda condições de decifrar de todo o teor dessa conversa. Um agora adulto-narrador que deixa dúvidas sobre a conduta de Conceição, sobre as lacunas de seus diálogos, sobre os gestos e os deslocamentos da mulher de Meneses na sala, diante de um Nogueira que, de tão envolvido, chega a esquecer por um momento a missa que combinara assistir com o vizinho. Um Nogueira que também vai se deixando mostrar através de palpites, de pequenas avaliações acerca da personalidade de Conceição — mas de modo a parecer um (quase) inocente, um indivíduo incapaz de, nos seus dezessete anos, saber julgar de modo apropriado as intenções de uma mulher de trinta. Daí dividir a narrativa com o leitor, como que o convocando a auxiliá-lo na decifração da personalidade de Conceição. Nogueira quer se fazer ingênuo, porém não consegue, no ato narrativo, omitir a perturbação, o embaraço diante de Conceição — tanto que, chegando à igreja, a imagem da mulher de Meneses se interpõe à imagem do padre. O profano, portanto, permutando-se com o sagrado. O que fez Moacyr Scliar ao recriar, em Missa do Galo: um outro enfoque, o conto famoso de Machado de Assis? Que tipo de intertexto foi produzido pelo escritor gaúcho, mais de cem anos depois da publicação de Missa do Galo? Scliar altera, deliberadamente, o ponto de vista da narrativa machadiana. Ou seja, faz a história ser contada por Conceição. Tem-se, assim, um outro narrador, uma voz narrativa que fará os sentidos da história primeira se modificarem, projetando a personagem de Conceição — que, no enredo machadiano, é uma mulher/esposa do século 19 — para o século 21. O que implica essa projeção, que sentidos e valores a personagem agora assume? E Nogueira, como é construído o seu desenho? Ainda será o mesmo “ingênuo” do conto machadiano? Não, Nogueira e Conceição tornam-se outros personagens, problematizando os personagens machadianos. Uma problematização enriquecedora, que jamais porfia com a construção machadiana (o que seria desproposital), mas estabelece com ela uma intertextualidade produtiva, fecunda. O que Scliar buscou foi exatamente isso: recontar o enredo machadiano alterando o ponto de vista narrativo e a construção dos personagens, os seus sentidos e valores. Algo que está na base das reescrituras literárias.

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