Manual de garimpo

outubro 2014 / Manual de garimpo / Doramundo

Texto publicado na edição #175

Doramundo

É tão grave o estigma de subliteratura que pesa sobre a ficção policial que boa parte da crítica simplesmente exclui […]

> Por ALBERTO MUSSA

É tão grave o estigma de subliteratura que pesa sobre a ficção policial que boa parte da crítica simplesmente exclui desse conceito as obras que envolvam crime e investigação, ou incluam algum tipo de expectativa ou de mistério no desenvolvimento narrativo. É quase impossível — para dar apenas um exemplo — que um romance excepcional como Os irmãos Karamazóv seja denominado “policial”, apesar de se adequar perfeitamente ao cânone do gênero. Ou seja, se um romance é bom, não pode ser policial — ainda que tenha crimes, assassinos, detetives.

No caso de textos que subvertem as próprias regras do gênero (como, por exemplo, Crime e castigo, para ficarmos no âmbito de Dostoiévski), a resistência é ainda maior: pouca gente tem coragem de identificá-lo como policial, porque não segue rigorosamente a “fórmula”. É o mesmo, me parece, que retirar o Grande Sertão da literatura brasileira porque subverteu, ou renovou, a língua do Brasil.

Essa breve consideração tem como propósito lembrar o romance Doramundo, de Geraldo Ferraz. Embora muitíssimo bem recebido pela crítica, por suas múltiplas qualidades literárias, não me lembro de quem o tenha enaltecido por ser uma das mais originais e subversivas obras da novelística policial do século 20, em todo o mundo.

Estamos na cidade ficcional de Cordilheira (certamente no interior de São Paulo, dadas as referências a lugares próximos, como Amparo e Jundiaí). O pequeno burgo se situa num morro, em frente a uma estação da companhia férrea. Residem nele muitos dos ferroviários nas cerca de cem casas que se acavalam no aclive.

De repente, Cordilheira passa a ser palco de várias mortes sucessivas, todas com a mesma característica: a vítima recebe uma pancada na cabeça com um barra de ferro e depois é posta nos trilhos, para que o trem desfaça os vestígios do crime e pareça tudo acidental. Mas o artifício falha e logo se constata que se trata mesmo de homicídios. São enviados um delgado, policiais e até um secreta — mas nada se descobre. Os moradores, todavia, sabem exatamente o que acontece: são os homens casados que matam os solteiros com quem as esposas andam se deitando. Mas ninguém fala nada. Impera a mais severa solidariedade entre os habitantes.

A atmosfera é densa, pesada, obscura. Tudo no romance, aliás, é escuro: há o “smog” permanente, o carvão, o ferro, o óleo, a noite. A narrativa é toda em fragmentos, sem rigor cronológico. As personagens são esboçadas em traços sucintos: profundos, mas um tanto imprecisos.

Nessa construção absurdamente difusa está a grande sacada de Geraldo Ferraz: com esse clima em que tudo se sabe e nada se revela, ele consegue acoplar ao eixo puro e simples da investigação uma questão ética, relativa à oposição conceitual entre amor e sexo. Porque os assassinatos praticamente cessam quando a companhia leva à cidade três prostitutas. Mas o maior dos crimes ainda estará por ocorrer.

O título do livro é a junção dos nomes de duas personagens fundamentais: Teodora e Raimundo. Deles virá a grande revelação do romance. Geraldo Ferraz mostra que, numa novela policial, nem sempre é o assassino o verdadeiro objeto da investigação.

Doramundo saiu em 1956, numa edição de baixa tiragem, pela Sociedade dos Amigos de Fernando Pessoa. A segunda edição é de 1959, da José Olímpio (em conjunto com o romance A famosa revista, dele e de Patrícia Galvão). Mas esses exemplares são raríssimos e caros. Vale garimpar a edição da Melhoramentos ou a da Ática, posteriores, que ficam em torno dos R$ 10,00.

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