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agosto 2015 / Nossa América, nosso tempo / Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (final)

Texto publicado na edição #184

Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (final)

Machado/Shakespeare inventa uma forma literária que envolve o leitor no dilema do ciumento: ele não sabe, não pode saber.

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

A prova dos nove
E agora o final está próximo.

Nos últimos cinco meses, estivemos relendo algumas peças de William Shakespeare.

Minha aposta, nada modesta, confia no poder explicativo da noção de reciclagem literária, a fim de iluminar ângulos inexplorados da máquina textual Dom Casmurro.

(Como assim? Cinco meses? Poder explicativo? Você é mesmo um caso perdido.)

Tudo se passa como se Machado de Assis enfrentasse o problema descortinado em Otelo, Cimbelino e Conto de inverno. Isto é, como avaliar o estatuto da evidência no caso concreto do típico homem ciumento?

Entenda-se o potencial epistemológico da questão: o ciumento é antes de tudo alguém atormentado pela dúvida, pela virtual impossibilidade de saber ao certo o que correu — no fundo, se algo efetivamente aconteceu, nunca saberemos.

Um prato cheio: o ciúme.

Um banquete: autêntico diálogo socrático, contudo, sem maiêutica alguma à espreita; nenhum filósofo de tocaia, quero dizer.

A seu modo, Shakespeare deu um xeque-mate — e isso jogando com as peças pretas. Afinal, ele mostrou que a evidência não é avaliada por um critério objetivo, porém depende da autoridade de quem fala.

Você se recorda, não?

O mouro Otelo foi exposto a evidências diretas, numa sucessão capaz de abalar o mais seguro dos homens.

O pajem Póstumo Leonato perdeu a compostura ao ouvir um relato ardiloso, mas que apenas oferecia evidências indiretas, ainda que sugestivas.

Outro horizonte emoldura as ações do Rei Leontes.

Pior para Apolo!
O momento emblemático para essa discussão encontra-se no terceiro ato de Conto de inverno. Releia a segunda cena com calma.

Eis o que tenho a propor: a prosa do narrador casmurro traduz a atmosfera da ação dramática shakespeariana numa impecável forma literária, dominada por um paradoxo que leva longe.

Passo a passo.

Retornemos à segunda cena. Assim reza sua indicação:

Sicília. Uma corte de justiça. Leontes, nobres e oficiais.

A fala do Rei não deixa margem a dúvidas; um julgamento está prestes a principiar.

Escutemos:

LEONTES: Esta sessão — com grande pesadume
é o que dizemos — nos abala o peito.
A ré é filha de um monarca e nossa
muito prezada esposa. A pecha tira-nos
de tirania o fato de ser público
todo o processo, que há de seguir nisso
seu curso natural, até à sentença
condenatória ou à plena absolvição.
Trazei a prisioneira.

OFICIAL: Apraz a sua Alteza que a Rainha
Apareça em pessoa ante esta corte.
Silêncio.

(Entram Hermíone, com guardas, Paulina e damas de companhia.)

LEONTES: Lede a acusação.[1]

Todos conhecem a convicção do Rei, embora ninguém lhe tenha dado ouvidos. Por isso mesmo, Leontes obedece as formalidades do processo. Em todo o caso, trata-se de impor sua vontade e, ao mesmo tempo, agir como se ele se curvasse à lei geral. Como o julgamento é público, a pecha tiranos de tirania: os súditos são adequadamente advertidos.

A aparência de legalidade exige a leitura da pesada acusação:

OFICIAL: “Hermíone, esposa do digno Leontes, Rei da Sicília, és acusada e aqui citada por crime de alta traição, por teres cometido adultério com Políxenes, Rei da Boêmia, e conspirado com Camilo para tirar a vida do Rei, nosso soberano senhor, teu real esposo. (592)

Ganha uma viagem ao Reino da Sicília quem descobrir o autor da catilinária. As digitais de Leontes são visíveis em cada palavra. Segue-se o interrogatório que exaspera o Rei. Impaciente, volta a acusar a ré: “Não quereis confessar”. (592)

Acuada, Hermíone lança mão de um último recurso:

Quanto a minha honra, desejara vê-la
sem mancha alguma. Sendo eu condenada
por suspeitas, apenas, dormitando
todas as provas favoráveis, menos
as que vosso ciúme ora desperta,
digo que isso é crueldade, não justiça.
A vós, nobres, declaro que confio
plenamente no oráculo. Há de Apolo
ser meu juiz. (593)

Em tese, a sentença do deus supera o arbítrio do Rei. Hermíone, portanto, não tem o que temer, pois, ciente de sua inocência, aguarda o retorno de Cleômenes e Dion, encarregados de consultar o oráculo e trazer à corte sua revelação.

A sequência merece ser transcrita; afinal, as palavras de Apolo deveriam selar o destino da Rainha:

OFICIAL: “Hermíone é casta; Políxenes, sem mancha; Camilo, um súdito leal; Leontes, um tirano ciumento; seu inocente filho, legitimamente concebido; e o Rei viverá sem herdeiro, se não for achado o que foi perdido”. (593-594)

O alívio é geral, pois as suspeitas do Rei não haviam persuadido seus súditos. A expansão de todos é sintomática:

NOBRES: Bendito seja o grande Apolo!

HERMÍONE:      Seja
louvado eternamente! (594)

Parece que tudo vai acabar bem.
Mas só parece.
Leontes decide estragar a festa: 

LEONTES: Leste certo?

OFICIAL: Sim, milorde; tal como se acha escrito.

LEONTES: Não há verdade alguma nesse oráculo.
Continue a sessão. É só mentira. (594)

O dono da voz
O oráculo pouco vale diante da autoridade do Rei. Como se fosse um inesperado Édipo, Leontes também despreza o seu Tirésias. Infelizmente, para ele, Apolo tudo vê e, por isso, a punição pela blasfêmia vem a galope.

Assim mesmo.

Logo após a fala do Rei, a indicação de cena é precisa:

(Entra um criado.)

Servo de Apolo, dir-se-ia, já que seu anúncio equivale à punição pela arrogância de Leontes: Mamílio, seu filho, acabara de morrer, não suportando a humilhação de considerar-se bastardo. Como o Rei havia mandado expor sua filha recém-nascida, o oráculo reassume seu poder divinatório: o Rei viverá sem herdeiro, se não for achado o que foi perdido.

Abalada pela notícia, Hermíone desfalece e todos creem que a (aparente) morte súbita da Rainha é o castigo final. O Rei acusa o golpe e, finalmente, dá o braço a torcer (já não era sem tempo):

Dei crédito excessivo às minhas próprias
suspeitas (…).
Perdoa, Apolo, a minha irreverência
com relação ao teu sagrado oráculo.
Hei de reconciliar-me com Políxenes,
reconquistar a esposa, o bom Camilo
chamar de novo. (594)

Outra vez, as metamorfoses de Leontes são particularmente violentas e, como um anacrônico homem cordial, ele transita entre extremos com a naturalidade de uma respiração artificial.

Paremos por aqui.

Você releu a peça e sabe que, como deve ser, pois se trata de um romance play, no final tudo acaba bem.

Reciclagem como forma
Hora de retornar a Dom Casmurro.

O narrador Bento Santiago deve ter sido um leitor atento de Conto de inverno, adotando uma estratégia similar, pois ele se apresenta como vítima — da infidelidade da esposa —, procurador — sua narrativa não deixa de ser uma peça de acusação — e juiz — cujo veredicto encerra o romance:

E bem, qualquer que seja a solução, uma cousa fica, e é a suma das sumas, ou o resto dos restos, a saber, que a minha primeira amiga e o meu melhor amigo, tão extremosos ambos e tão queridos também, quis o destino que acabassem juntando-se e enganando-me…[2]

Não é tudo.

Duas cenas-chave do romance podem ser lidas como apropriações da segunda cena do primeiro ato de Conto de inverno.

Você se recorda o que vimos na última coluna: sem mediação alguma, Leontes persuade-se de que foi traído e, ato contínuo, deduz que seu filho, Mamílio, é fruto da traição de sua primeira amiga e de seu melhor amigo.

Pois bem: habilmente, Machado dissemina o episódio em dois capítulos, despistando o leitor.

Vejamos.

Estamos no capítulo CXXIII, Olhos de ressaca, justo no momento do enterro de Escobar. Bentinho tem um discurso preparado para celebrar seu quase irmão. A consternação domina a todos e Sancha se mostra inconsolável. Deixo a palavra ao narrador, mas perceba a ausência de transição entre Bento Santiago e Dom Casmurro, convencido, num piscar de olhos, da infidelidade da mulher:

A confusão era geral. No meio dela, Capitu olhou alguns instantes tão fixa para o cadáver, tão apaixonadamente fixa, que não admira lhe saltassem algumas lágrimas poucas e caladas

As minhas cessaram logo. (328, grifos meus.)

Pronto: como os sorrisos estudados, que levou Leontes longe em suas suposições, as lágrimas poucas e (sobretudo) caladas se derramam nas reveladoras reticências que concluem a frase.

O início do parágrafo seguinte vale por uma condenação: As minhas cessaram logo. Absolutamente seguro do triângulo amoroso desfeito apenas pela ressaca que tragou Escobar, o agora desorientado Bento Santiago mal consegue pronunciar o elogio do amigo — ex-amigo, melhor escrito.

Dono da voz, mas sem a resolução de um Leontes, o narrador precisa esperar uns quinze capítulos antes de atar as pontas da cena shakespeariana.

Saltemos para o capítulo CXXXVII, Segundo impulso. Bento esteve muito próximo a oferecer a Ezequiel uma xícara de café envenenada. No último instante, arrepende-se, mas não de todo, como se percebe na sequência, evocadora da brutalidade do tratamento dispensado a Mamílio por Leontes:

Mas não sei o que senti que me fez recuar. Pus a xícara em cima da mesa, e dei por mim a beijar doudamente a cabeça do menino:

— Papai! papai! exclamava Ezequiel.

— Não, não, eu não sou teu pai! (352)

O paradoxo do narrador
Hora de encerrar.

Machado/Shakespeare dá um passo adiante na formulação do paradoxo do narrador.

Bento Santiago é o dono da bola, mas não chega a ser um artilheiro. Ora, a fim de persuadir o leitor, ele ordena sua memória cuidadosamente. No entanto, não consegue nem mesmo convencer-se.

Não fui convincente.

Tento de novo.

Machado/Shakespeare inventa uma forma literária que envolve o leitor no dilema do ciumento: ele não sabe, não pode saber.

Digo de outro modo: o leitor de Dom Casmurro conclui o romance experimentando o mesmo impasse epistemológico do narrador: não pode afirmar nada com absoluta certeza.

Vamos, todos, à História dos subúrbios.



[1] William Shakespeare. Conto de Inverno. Teatro Completo. Comédias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 592. Nas próximas ocorrências, indicarei apenas o número de página.

[2] Machado de Assis. Dom Casmuro. São Paulo: Ateliê Editorial, 2008, p. 368. Nas próximas ocorrências, indicarei apenas o número de página.

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