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julho 2015 / Nossa América, nosso tempo / Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (4)

Texto publicado na edição #182

Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (4)

  Atar as pontas Este é o quarto artigo da série dedicada à leitura de Dom Casmurro. Hora, portanto, de […]

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

 

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

Atar as pontas
Este é o quarto artigo da série dedicada à leitura de Dom Casmurro. Hora, portanto, de uma breve recapitulação.

Nas colunas anteriores, procurei virar pelo avesso a interpretação dominante de Otelo, mostrando, em primeiro lugar, que o verdadeiro ciumento da peça é Iago, e, em segundo lugar, reconstruindo, do ponto de vista do mouro, a solidez das evidências que assombraram o general. Se minha leitura fez sentido para você, então, estamos próximos a descobrir uma nova peça.

(Sim, eu vejo muito bem seu sorriso irônico: “ele ainda acredita nesses exercícios de leitura…”. E também escuto seu sussurro: “pretensão e água benta…”.)

No fundo, o propósito é simples: compreender o estatuto da evidência na tragédia do mouro, a fim de compará-lo com duas outras peças de William Shakespeare: Cimbelino e Conto de inverno. Tal comparação, se não me iludo, iluminará o método machadiano na composição de Dom Casmurro.

Eis minha aposta.

O próximo lance de dados é a leitura que proponho das desventuras de Póstumo Leonato.

Mãos à obra.

Uma peça-colagem
Escrita provavelmente por volta de 1610, Cimbelino é uma autêntica peça-protótipo da estrutura textual shakespeariana.

Explico — e nesse arrazoado, você começará a intuir a escrita de Dom Casmurro.

Os eruditos identificaram três fontes principais da fabulação de William Shakespeare.

Em primeiro lugar, as Crônicas, de Raphael Holinshed, forneceram o argumento “histórico”, relativo à figura do Rei bretão Cunobelinus, educado em Roma e sagrado cavaleiro por Augusto. Se você me permitir, forço a nota: um agregado de luxo!

O Decameron, de Boccaccio, foi devidamente apropriado e teve duas histórias fundidas na peça. A narrativa de Belário, fiel servidor, que, tendo sido injustiçado pelo rei, sequestra seus dois filhos, internando-se na floresta. Para meu argumento, a intriga decisiva reúne o casal de recém-casados Imogênia e Póstumo Leonato, respectivamente, filha do Rei Cimbelino e um gentil-homem, órfão, pois, morto o pai, a mãe faleceu ao dar à luz. O texto esclarece a circunstância social do jovem:

Ficou o Rei com a criança, o nome deu-lhe
de Póstumo Leonato, como pajem
o criou do seu serviço, sobre ter-lhe
ministrado instrução de quanto lhe era
possível aprender em sua idade.
Tudo ele assimilava sem trabalho,
como com o ar fazemos. [1]

No vocabulário duro de Bento Santiago, esse jovem é bem um agregado; sem dúvida, com méritos que surpreenderiam o modestíssimo José Dias. Não importa: Póstumo Leonato foi criado na corte como se fosse um nobre. Contudo, socialmente, não passava de um agregado: você desculpará o anacronismo, pois assim jogo água para o meu monjolo, aproximando a trama shakespeariana do universo casmurro.

Mas estou apressando muito o rumo da prosa.

Um passo atrás.

Dizia que Cimbelino é uma peça-protótipo, cujo procedimento foi retomado na escrita de Dom Casmurro.

Vejamos.

Shakespeare mescla três fontes, a fim de colocar em cena ações narrativas diversas, cuja convergência ocorre apenas no final, e, ainda assim, graças às generosas licenças poéticas características do romance play, gênero ao qual a peça pertence.

Machado mescla três peças shakespearianas, concentrando-se no núcleo que associa o drama do mouro Otelo, do agregado Póstumo Leonato e do Rei Leontes: o ciúme. Melhor dito: o estatuto da evidência que justifica (ou não) as tribulações do homem ciumento.

(Machado aprendeu com Shakespeare a arte de reciclar a tradição literária: é sempre a partir do alheio que se inventa a própria obra.)

Viva o anacronismo!
Cimbelino articula três núcleos narrativos, porém, destacarei somente o dilema vivido pelo casal Imogênia e Póstumo Leonato.

Começo completando a citação que apresentava o “agregado”:

(…) A colheita
seguiu-se à primavera. Viveu Póstumo
na corte — coisa rara — sempre amado
por todos e elogiado, exemplo excelso
para os moços, espelho em que os mais velhos
folgavam de se ver e, para os homens
de entendimento grave, uma criança
que os velhos conduzia. (445)

A passagem importa, e muito, pela oposição, forte, entre o mérito individual de Póstumo Leonato — autêntico príncipe renascentista — e sua posição social — na hierarquia da corte, ele é um pajem, um agregado que se casou com a filha do Rei.

(Você pensou o mesmo que eu: essa situação evoca o comportamento do mouro, que, acolhido na casa do Senador Brabâncio, terminou por se casar, às escondidas, com sua filha, a bela e disputada Desdêmona.)

O preço a ser pago foi alto: o exílio; banido dos domínios do Rei Cimbelino e, sobretudo, afastado de sua esposa; afinal, à filha de um rei, reserva-se um casamento de Estado e não um enlace sentimental.

(Mais uma vez, você tem razão: essa peripécia espelha, ainda que com os sinais invertidos, o drama de Ofélia e seu malogrado romance com o príncipe herdeiro da Dinamarca.)

Tudo é dito com deliberada brutalidade no encontro do Rei com seu pajem, cujo objetivo era afastar Imogênia do marido:

Póstumo: Oh dor! Oh Rei!
Cimbelino:         Ser desprezível, fora!
Fora de minha vista! Se ficares
por mais tempo na corte a molestá-la
com tua indignidade, morres! Fora,
que o sangue me envenenas. (447)

O contraste não poderia ser mais agudo, pois não há mediação linguística entre o “exemplo excelso” e o “ser desprezível”. A mediação é antes social: um mero agregado, ainda que extremamente talentoso, não pode aspirar ao leito de uma futura rainha.

Simples assim.

Aqui principia a trama que retoma a temática do ciúme, estimulando o diálogo que estabeleço entre as tribulações do mouro e as angústias do agregado.

Qual evidência?
Banido do reino da Bretanha, Póstumo Leonato busca abrigo na Itália, sob a proteção de Filário, amigo de seu pai. Em Roma, contudo, as boas-vindas são amargas, pois ele encontra Iachimo, um cortesão italiano disposto a desafiar o bretão. Inconformado com a alta fama que o precede, revela sem rodeios seu pensamento: “O fato de haver desposado a filha do seu soberano — o que nos leva a avaliá-lo menos pelos merecimentos próprios do que pelos da esposa — contribui, sem dúvida, para lhe exagerar a fama”. O ressentido vai além, concluindo que a união pode “ser anulada, uma vez que se trata de um casamento com um mendigo desclassificado” (450).

Para levar o projeto adiante, Iachimo pesa a mão numa aposta improvável e arriscada: propõe ao bretão nada mais nada menos do que colocar à prova a fidelidade de Imogênia. Os termos da proposta são difíceis de engolir. Eis como Iachimo refere-se à filha do Rei, isto é, à esposa do agregado: “De nome podereis continuar como dono dela; mas, como bem o sabeis, sobre a lagoa do vizinho também voam pássaros” (415).

O altivo Póstumo, reduzido ao papel do agregado, não abate o atrevido voo do romano, antes aceita a aposta, redigindo uma carta de apresentação à esposa. Imogênia reage indignada às insinuações de Iachimo. Porém, ele dispõe de uma última cartada, alegando ter trazido para o Rei Cimbelino “uma baixela de desenho raro, pedraria custosa e trabalhada, de mui grande valor” (456). Então, solicita à princesa que guarde a valiosa encomenda em seus aposentos. Desse modo ardiloso, Ulisses às avessas, Iachimo ingressa, escondido num baú, no quarto de Imogênia, onde pretende passar a noite.

O cenário está armado: depois de ler “durante três horas”, Imogênia decide repousar: “o sono me domina” (458). A indicação de cena é precisa: (Adormece. Iachimo sai de dentro da mala.)

A sequência da ação vale por um tratado de epistemologia. Transcrevo uma passagem longa, mas você verá que essas linhas sintetizam todo o drama do mouro nos três últimos atos de sua tragédia:

Mas meu intuito é examinar o quarto.
Vou tomar nota por escrito: quadros
de pintura com tal e tal assunto; (…)
Oh! Bastará um sinal qualquer do corpo —
de valor probatório dez mil vezes
maior do que o de objetos inferiores —
para deixar meu inventário mais rico. (…)
         (Tira um bracelete de Imogênia)
Agora me pertence. Como prova
exterior vai servir (…).
         Sobre o seio
do lado esquerdo, cinco nevozinhos. (…)
                   Semelhante
particularidade tem mais força
do que as leis em conjunto. Esse segredo
vai obrigá-lo a imaginar que eu pude
quebrar os fechos e alcançar o rico
tesouro de sua honra. Basta! Basta! (458-459)

Iachimo coleta indícios como se fosse um entomologista de adultérios.

Vejamos.

Conhecer a decoração dos aposentos de Imogênia é uma evidência circunstancial — nada além disso; no fundo, pois ele poderia ter sido admitido no quarto, sem que esse fato comprometesse a constância da filha do Rei.

O bracelete é mais comprometedor, agora se trata de uma evidência indireta. No vocabulário shakespeariano, uma “prova exterior” — perturbadora, mas ainda insuficiente. Ora, assim como ocorreu com Desdêmona e seu famoso lenço, Imogênia poderia ter perdido o bracelete.

Iachimo precisa de uma prova “irrefutável”. Pronto: a evidência direta cai em suas mãos, isto é, em seus olhos, na forma dos sinais particulares do corpo de Imogênia.

O círculo se fecha. Confrontado com o conjunto das “evidências”, Póstumo Leonato cai na armadilha, ameaçando vingar-se da esposa (até que tudo se esclareça e o happy end se imponha):

Ah! Se a tivesse à mão para rasgá-la
membro por membro. (464)

Otelo, o mouro, viu o lenço em mãos de Bianca e ouviu as confissões discretas de Miguel Cássio.

Póstumo Leonato, o agregado, foi exposto a evidências fortes, mas não teve oportunidade de presenciar cena alguma que indicasse a traição da esposa.

O que aconteceria com um Rei envolvido em situação similar?

Eis o que veremos na próxima coluna, dedicada à leitura de Conto de inverno.

(Você já sabe: aproveite o mês para reler a peça; desta vez, deixo uma dica: machadianamente, leia, releia e tresleia o julgamento na segunda cena do terceiro ato.)

NOTA:
[1] William Shakespeare. Cimbelino. Teatro Completo. Tragédias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 445. Nas próximas ocorrências, indicarei apenas o número de página.

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