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maio 2015 / Nossa América, nosso tempo / Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (3)

Texto publicado na edição #181

Dom Casmurro: a obra-prima da reciclagem (3)

Otelo foi exposto a uma sucessão nada desprezível de “evidências”

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

 

 

Ilustração: Carolina Vigna

Ilustração: Carolina Vigna

A imprudência
Na última coluna, recordei o espanto de Bento Santiago diante do drama do mouro, cujo acicate pareceria antes um puro nada: “— um simples lenço!”. Como se sabe, Otelo nele se enredou, assim como Dom Casmurro se encontrou à deriva depois de supor “algumas lágrimas poucas e caladas…”, vertidas por Capitu no velório de Escobar.

(Você pode verificar: releia o capítulo CXXIII, Olhos de ressaca” e veja se não tenho razão.)

Pois bem: “— um simples lenço!”.

Contudo…

Retornemos à reconstrução da textualidade shakespeariana.

Sem dúvida, o lenço constitui um elemento decisivo, mas apenas num contexto dominado pela imprudência de Miguel Cássio e pelo capricho de Desdêmona.

Começo por aquela.

Geralmente representado como um personagem nobre, vítima da vilania do alferes, no fundo, pelo menos no que se refere à vida amorosa, Miguel Cássio é um vulgar kiss and tell, e somente por isso a trama imaginada por Iago torna-se verossímil.

Vejamos.

Na primeira cena do segundo ato, Cássio chega à ilha de Chipre no primeiro navio; logo depois, será a vez de Iago, Emília e Desdêmona. Por fim, e sintomaticamente, o navio de Otelo será o último a alcançar o porto — não mais seguro, o leitor começa a desconfiar.

Eis como o futuro comandante da ilha apresenta a mulher do mouro, seu superior hierárquico:

Por sorte;

traz uma esposa que ultrapassa toda

descrição e alta fama … [1]

No entanto, homem cheio de recursos, arrisca-se a defini-la numa única palavra: “a divina Desdêmona”. Surpreso, Montano, ainda chefe militar de Chipre, parece não entender a loquacidade de Cássio:

MONTANO: Quem é ela?

CÁSSIO: A de quem vos falei, a capitoa

            de nosso capitão. (…)

Não sejamos tão rigorosos. Talvez o florentino apenas expressasse um entusiasmo inócuo; afinal, como ele diz ao ver a divina Desdêmona:

Possa diante de ti ficar a Graça

celestial, por detrás, por toda a parte,

envolvendo-te toda. (621)

Mas o que dizer da efusão de Cássio ao ver Emília?

Recorde-se a cena:

Bem-vindo, bom alferes. (A Emília). Vós, senhora,

também sois mui bem-vinda. Que não seja

causa de se enturvar vossa paciência,

bondoso Iago, a extensão dos meus saudares.

É minha educação que me confere

saudações de tamanho atrevimento. (621)

A indicação de cena é reveladora: Beija a Emília. O alferes tinha toda razão em seu juízo cirúrgico sobre o comportamento do rival:

(…) O exterior de Cássio.

e seu todo insinuante o predispõem

a tornar-se suspeito facilmente.

Foi feito para seduzir mulheres. (619)

E, sobretudo, para vangloriar-se de suas conquistas. É o que ocorre na primeira cena do quarto ato — o momento-chave para a resolução de Otelo.

O truque é tão fácil que constrange. Iago não tem nenhuma dificuldade em fazer Cássio falar com grande liberalidade de seu relacionamento com Bianca. A cortesã irrompe em cena, involuntariamente colaborando para o enredo de Iago, pois Otelo a escuta:

Que o diabo e sua mãe vos persigam! Que pretendeis fazer com aquele lenço que me deste há pouco? (…) É presente de alguma sirigaita, e eu ainda terei de copiar o modelo! Pois aqui o tendes; dai-o à vossa queridinha. (644)

Você me acompanha: o lenço pouco vale em si mesmo, porém adquire peso considerável na situação engendrada pela imprudência de Miguel Cássio. Imprudência corroborada por um lance de sorte: o aparecimento de Bianca. Isto é, um lance de dados que favorece os planos de Iago; agora, Otelo tem bons motivos para acreditar na evidência oferecida pelo alferes. E não por ser um ciumento pouco razoável, mas porque, nessa cena, o lenço esteve diante de seus olhos.

O capricho
E não é tudo.

Um pouco antes desse desfecho, Otelo procurara Desdêmona, a fim de averiguar a veracidade da história contada por Iago. Após encarecer a importância do objeto-chave da peça:

Tomai cuidado, pois, e o tende sempre

como joia tão cara quanto os olhos.

Perdê-lo ou dá-lo a alguém fora desgraça

de proporções incríveis. (639)

Otelo vai direto ao ponto, vale dizer, direito ao lenço:

OTELO: Então, trazei-o aqui; desejo vê-lo.

DESDÊMONA: Ora, senhor; faria se o quisesse;

mas não agora. (…)

A jovem veneziana ainda confia em sua força junto ao mouro: por isso, bate o pé como a adolescente voluntariosa que ainda é: somente atenderá o pedido de Otelo quando assim o desejar.

Nem um minuto antes — claro está.

No fundo, Desdêmona precisava mesmo ganhar tempo.

Porém, se o propósito era legítimo, o passo seguinte foi temerário:

DESDÊMONA: (…) Vejo que isso é um meio

para que eu não vos faça meu pedido.

Por obséquio, chamai de novo Cássio.

OTELO: Ide buscar o lenço; meu espírito

pressente algo funesto. 

DESDÊMONA: Vamos, vamos;

não achareis ninguém mais competente.

OTELO: O lenço!

DESDÊMONA: Por favor, falai de Cássio.

OTELO: O lenço!

DESDÊMONA: Uma pessoa que durante

toda a vida fundou sua fortuna,

sobre vossa amizade e sempre esteve

nos perigos convosco.

OTELO: O lenço, digo!

DESDÊMONA: Sois digno de censura.

OTELO: Fora, fora! (639-640)

Furioso, o mouro sai de cena e, ao retornar ao palco, verá o lenço nas mãos de Bianca. Ao vê-lo nesse estado, Emília pergunta, não sem uma ponta de ironia:

Então esse homem não será ciumento? (640)

Não necessariamente — você pensa; afinal, as circunstâncias parecem confirmar as insinuações do alferes.

Portanto, os caprichos de Desdêmona precisam ser incluídos na equação.

Um passo atrás, aqui, se impõe.

Ora, após prometer a Cássio assumir sua defesa, a jovem talvez tenha levado o compromisso um ponto além do necessário.

(Ou dois. Ou três. Muitos, de fato.)

No mínimo, não chegou a temperar sua vontade imperiosa, pois, a partir do terceiro ato, passa toda a peça bombardeando o marido com o nome de Cássio:

DESDÊMONA: (…) Chama-o, caro!

OTELO: Mais tarde, agora não, cara Desdêmona.

DESDÊMONA: Mas será logo?

OTELO: Logo que possível,

minha querida, já que assim desejas. (631)

Batalha ganha! Porém, acostumada a ter seus desejos imediatamente atendidos, Desdêmona volta à carga:

DESDÊMONA: Hoje de noite à ceia?

OTELO: À noite, não.

DESDÊMONA: Então, amanhã cedo, à hora do almoço?

OTELO: Não estarei em casa amanhã cedo;

almoçarei com os capitães no forte.

DESDÊMONA: Quando? Amanhã à noite? Ou terça-feira

pela manhã? ou à noite? ou quarta-feira

cedinho? Por obséquio marca a data;

contanto que não passe de três dias. (631-632)

A veemente “Apologia de Cássio” prossegue por longas 16 linhas e só é interrompida pela impaciência (ou devo dizer: surpresa) do mouro:

Por favor, não prossigas. Pois que venha.

quando bem entender; não te recuso

coisa nenhuma. (632)

Guerra vencida, pois. E mais uma vez. Desdêmona, contudo, não é de contentar-se com pouco:

Ora, isso não é graça;

(…) Não, se vos faço algum pedido, para

pôr vosso amor em prova, será sempre

de muito peso e mui penoso fardo,

de grave concessão. (632)

É nesse cenário que Iago principia a colocar em prática seu “plano B” — o projeto original do alferes era pular na sela do mouro, fazer o seu trabalho em seus lençóis. Não alcançando a ventura, Iago deseja saber mais sobre Miguel Cássio; na verdade, busca projetar na fantasia de Otelo um triângulo perturbador: o florentino privara do convívio de Desdêmona antes de virem todos à ilha de Chipre? O mouro respondeu sem titubear, como todo homem confiante; excessivamente confiante, talvez. Em suas palavras:

Oh! Conhecia!

Muitas vezes serviu de intermediário

entre nós dois. (632)

(Você pensa em Escobar, desempenhando idêntico papel de mensageiro junto a Capitu. Você tem razão, mas espere um pouco; a leitura de Conto de Inverno guarda surpresas ainda maiores.)

O poder da evidência
Se minha leitura pode ser considerada fecunda, então, é preciso rever o estatuto da evidência em Otelo. O mouro dispôs de indícios razoáveis — a imprudência de Miguel Cássio e o capricho de Desdêmona. Isso para não mencionar as evidências “diretas”: o lenço em mãos de Bianca e o discurso do florentino relatando suas aventuras eróticas.

Outra vez: não é tudo.

Na primeira cena do quarto ato, Otelo escutou a seguinte resposta de Desdêmona à pergunta de seu primo Ludovico sobre o rompimento do mouro com seu ex-tenente:

Muito de lastimar. Daria tudo

para reconciliá-los, pelo afeto

que dediquei sempre a Cássio. (645)

Na sequência da cena, o cenário torna-se mais sombrio. Ludovico anunciou uma decisão que dificilmente o mouro poderia tolerar:

(…) ordem lhe veio de ir para Veneza,

deixando Cássio, aqui, no lugar dele.

Desdêmona, como se ignorasse o efeito que a notícia produziria em seu marido, alegrou-se, como a boa advogada de defesa que nunca deixou de ser do florentino:

Isso me alegra, podeis crer-me. (645)

Você já sabe aonde quero chegar: ao contrário do que sempre se disse, Otelo foi exposto a uma sucessão nada desprezível de “evidências”; seu comportamento, portanto, nada tem a ver com qualquer tipo de descontrole causado por um ciúme obsessivo.

Hora de seguir adiante.

Na próxima coluna, examinarei Cimbelino.

(Não deixe de reler a peça — como sempre.)

[1] William Shakespeare. Otelo. Teatro Completo. Tragédias. Tradução de Carlos Alberto Nunes. Rio de Janeiro: Agir, 2008, p. 620. Nas próximas ocorrências, indicarei apenas o número de página.

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