Ensaios e Resenhas

fevereiro 2013 / Ensaios e Resenhas / Dois poetas

Texto publicado na edição #98

Dois poetas

Dois livros de poesia, felizmente. No quadro atual da poética brasileira, isso tem significado especial. O país tem ainda alguns […]

> Por ÁLVARO ALVES DE FARIA

Dois livros de poesia, felizmente. No quadro atual da poética brasileira, isso tem significado especial. O país tem ainda alguns poetas que primam pela palavra e pela poesia: O cristal dos verões, de Sérgio de Castro Pinto, e Mais que sempre, de Luis Antonio Cajazeira Ramos.

Sérgio de Castro Pinto, nascido em João Pessoa, em 1947, está nessa vida de poeta já há um tempo, caminhando sempre com uma poética de criatividade, de quem leva isso a sério, sem enganos. Sobre ele escreveu José Paulo Paes: “Agrada-me o constante empenho de concisão, que beira com freqüência a lapidaridade e o gosto da objetividade, que faz dos seus melhores poemas, poemas-coisa, da mais ilustre linhagem da poesia moderna”. É exatamente isso. Professor de Literatura Brasileira da Universidade Federal da Paraíba, Sérgio de Castro Pinto é um poeta desse brilho que falta por aí. O poeta reuniu neste volume 40 anos de sua poesia, incluindo poemas de Zôo imaginário, O cerco da memória, A ilha da ostra, entre outros livros. Este é um poeta que sabe lidar com as palavras na elaboração do seu poema. Pena que não tenha escolhido mais poemas de A duas mãos, de 1996. Escolheu dois. Mas isso, na verdade, revela o que é o poeta consciente de si mesmo. Sua poesia, no entanto, não se resume nos poemas que escolheu para este O cristal dos verões. Esta poesia vai muito além. Numa resenha anterior, escrevi sobre Zôo imaginário (2005), em que o poeta passeia com os bichos e deles faz retratos exuberantes, poemas perfeitos. Para concluir e exemplificar, vejamos o poema Zebra: “a zebra/ é a edição/ extra/ de um cavalo/ que virou/ notícia”.

Luís Antonio Cajazeira Ramos, nascido em Salvador, em 1956, abre Mais que sempre desta maneira: “Não leia agora. Aguarde a solidão tomar conta de você”. O aviso é pertinente. E também poético. Este também é um poeta. Poeta de poemas que revelam as imagens que mostram a poesia vista apenas por alguns. Cajazeira reuniu neste livro poemas de toda sua obra, comemorando 50 anos de vida. O poeta diz: “Há anos tento lapidar com cinzel rude esta pedra que se derribou em meu caminho, que me atraiu para seu campo magnético e cuja radiação me contaminou para sempre”. Uma confissão de fé. A poesia verdadeira necessita, sim, de confissões de fé que não podem ser feitas pelos aventureiros que habitam essa paisagem melancólica da poesia brasileira. Luís Antonio Cajazeira Ramos é um poeta consciente ao lidar com seu ofício de escrever poemas marcados especialmente pelo domínio da palavra e principalmente pelo que tem a dizer em forma de poesia. Um grande sonetista da poesia brasileira, quando falar-se em soneto parece ser loucura para internação imediata. Mas não é. É exatamente aí que um poeta pode se mostrar como poeta, conhecedor de sua língua, de sua métrica, de sua música, de sua palavra. Poesia de artesanato fino. Poesia de encantamentos.

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Sergio de Castro_livro1

Sérgio de Castro Pinto
Escrituras
159 págs.

Mais que sempre
Luís Antonio Cajazeira Ramos
7Letras
159 págs.