Ensaios e Resenhas

outubro 2011 / Ensaios e Resenhas / Dois inventores

Texto publicado na edição #129

Dois inventores

Byron e Keats — Entreversos, com seleção, traduções e apreciação crítica de Augusto de Campos, é uma obra que traz […]

> Por VILMA COSTA

John Keats

Byron e Keats — Entreversos, com seleção, traduções e apreciação crítica de Augusto de Campos, é uma obra que traz à tona uma série de questões e uma curiosa alegria para os amantes amadores da arte poética. Num primeiro plano, temos dois grandes autores da poesia romântica inglesa: Lord Byron (1788-1824) e John Keats (1795-1821), com recortes significativos da obra de cada um deles. Por outro lado, desfrutamos a apresentação bilíngüe de uma tradução-arte, realizada, nada mais nada menos, pelo poeta e tradutor Augusto de Campos. Isto significa que temos acesso a uma leitura múltipla e enriquecida pela recriação e releitura de um mestre.

Assim, dentro desse quadro tão amplo de possibilidades, é importante observar que o livro discute a poesia em diferentes níveis e perspectivas que englobam a produção poética propriamente dita, a abordagem crítica da tradução enquanto instrumento de criação artística. Tudo isso permite, hoje, a atualização de linguagens poéticas tão amarradas a contextos históricos de um passado, muitas vezes congelado por leituras ultrapassadas.

Campos caracteriza os poetas: “Byron, carnal e concreto, sarcástico, veraz, desmistificador, crítico da crítica, de si mesmo e de seu tempo” e “Keats, introvertido, metafísico, visionário da alma e da linguagem, perscrutando o mistério da vida e da morte”. São linhas que marcam muito mais a diversidade de dicções poéticas do que propriamente as linhas de proximidade e afinidades nas escolhas estéticas que os autores priorizaram. “Vejo-os hoje como opostos-complementares”, ou seja, “discórdias aparentes, ao cabo concordantes e parentes”.

As diferenças entre Byron e Keats são patentes, e o trabalho de seleção dos poemas e suas traduções nos conduzem a apreciá-los dentro dessa diversidade. Os pontos concordantes ou parentes não são tão claros assim, mas temos que concordar com Campos: “Inventors, a seu modo, e mestres-artífices, os dois, Byron e Keats”. A condição de inventores dos dois poetas suscita outra discussão quanto ao movimento com o qual são identificados. Haveria um movimento romântico no qual poderíamos enquadrar todos os mestres-artífices, como gatos num mesmo saco? Ou precisamos pensar os romantismos como movimentos que dialogam, disputam espaço, solidarizam-se e rivalizam-se numa literatura viva que leva em conta suas diferenças, vaidades, projetos coletivos e particulares, num determinado momento histórico, além de trazerem em si ruínas do passado e marcas de novos tempos?

O poeta tradutor não pretende oferecer “uma edição crítica ou comentada… Que outros o façam”. De certa forma, numa posição defensiva atribui ao cansaço e à idade a sua decisão. Entretanto, a questão é mais simples. Ou seja, a maturidade, longe de ser uma limitação, é a propulsora de uma inteira ligação da prática artística de produção poética, através da tradução, com a formulação teórica desta experiência estética.

Lord Byron

Ensaios
Três textos ensaísticos compõem o livro e acompanham os poemas em inglês e em tradução portuguesa: a Introdução, Das odes de Keats à Bizâncio de Yeats e Pós-tradução: dos cantos de Byron ao gato de Keats. Vejamos bem, não são teses ou trabalhos monográficos de fôlego. São ensaios que, se considerarmos a etimologia da palavra, ensaiam abordagens, suscitam questionamentos, anunciam caminhos de novas pesquisas e aprofundamentos. São, portanto, necessários e importantes enquanto lentes de leitura e, como tal, cumprem perfeitamente seu papel: definir objetivos gerais da proposta do tradutor e oferecer ao leitor uma perspectiva instigante e crítica.

De Byron foram selecionados fragmentos do poema Childe Harold — Excertos e Don Juan — Digressões (cem estrofes, cerca de 800 versos). No primeiro poema, a autodefinição do sujeito lírico é também a explicitação de uma poética não disposta a concessões: “O mundo eu não o amei, nem ele a mim;/ Não bajulei seu ar vicioso, nem dobrei/ Aos seus idólatras o joelho do sim./ Meu rosto não abriu risos ao rei…” Ou seja, derrama um olhar crítico sobre a sociedade em que vive, despertando, por tudo isso, muitos conflitos.

Segundo estudos de Daniel Lacerda, em sua tese Lord Byron — poeta crítico: As di(trans)gressões metalingüísticas em Don Juan (Universidade Federal do Paraná), esse épico de viagem vivencia o inexorável dilema do ego romântico: a busca compulsiva por um ideal e uma perfeição que não existem no mundo real. “Childe Harold é o registro desta busca e dos estados mentais que sucedem o reconhecimento de seu inevitável fracasso: a amargura, o remorso, a doce tristeza, o cinismo, o estoicismo forçado.”

Em Don Juan — Digressões, muitos são os elementos que nos permitem avaliar tanto evidências de modernidade quanto de uma estética formal clássica. O poeta propõe-se a realizar um poema épico e reproduz com rigor a sua forma, ao mesmo tempo em que estabelece suas diferenças. “Há só uma pequena diferença/ Entre este épico e os que vieram antes/ (…) Tanto embelezam que tornam maçantes (They so embellish, that’t is quite a bore)/ Os labirintos do seu artifício, (Their labyrint of fables to thread through,)/ Enquanto em meu cantar nada é fictício (Whereas this story’s actually true).

Dentre essas diferenças de traços modernistas está a ironia corrosiva que Byron destila em seus versos perfeitos. Ironia que anuncia uma perspectiva crítica, não apenas sobre os outros épicos que vieram antes, mas sobre sua própria obra anterior a Don Juan: muitas vezes bem marcada pelos embelezamentos maçantes ou envolvida nos labirintos do seu ofício.

Outro aspecto a considerar é a escolha do seu herói. Suas explicações carregadas de humor não são muito convincentes. Ian Watt, em Mitos do individualismo moderno: Fausto, Dom Quixote, Don Juan, Robinson, afirma que esses mitos só na modernidade poderiam sobreviver. Nascem sob o signo do individualismo, tão necessário é para o sujeito burguês em ascensão afirmar sua ideologia e buscar novas formas de expressão. Essa épica não expressa as aspirações de um sujeito coletivo ligado à luta de seu povo. O Don Juan de Byron não é, portanto, o herói da cultura clássica. Seu canto épico dá espaço para todas as digressões de um sujeito narrador individual e crítico. Além de tudo, o mito é desmistificado, quando o herói, ou anti-herói, de sedutor libertino torna-se ironicamente o seduzido. O próprio conceito de amor romântico é corroído: “Além do amor platônico, do amor/ De Deus, do amor sentimental, além do/ Amor fiel (a rima pede humor (…)”. Nosso Oswald de Andrade deve ter bebido nesta fonte com o seu Amor/humor.

De John Keats são traduzidas quatro de suas odes, dois sonetos e um pequeno fragmento do poema longo Endymion. O mito grego, condenado por sua beleza ao sono eterno, afirma os ideais de perfeição e eternização da beleza: “O que é belo há de ser eternamente (A thing o beauty is a joy for ever)”.

Além disso, a relação dialógica da vida e da morte permeia toda a obra, com uma clara obsessão pela elaboração da linguagem poética. Este aspecto aproxima Keats de Byron. Ambos se esmeraram no trato com a linguagem numa perspectiva modernista de experimentação e se debruçaram sobre o fazer poético a partir do próprio verso numa prática metalingüística. Traduções, leituras, biografias e especulações sobre a poesia e a vida dos nossos poetas não faltam. Recentemente, o filme O brilho de uma paixão, de Jane Campion, baseado na vida amorosa de Keats, narra uma bela história de amor incondicional à mulher e à poesia. Vale a pena conferir.

Para Campos, as escolhas dos poemas procuram apresentar diferentes facetas do poeta: os dois sonetos, Ao ler, pela primeira vez, o Homero de Chapman e Ao gato da sra. Reynolds, “querem exemplificar as duas faces de Keats: a dominante, sério-estética, e a recessiva, coloquial-irônica, minoritária evidente no Byron don-juanesco”. Suas odes fazem uma apologia além da beleza a outros valores estéticos e humanos, construindo imagens que vão além da sua materialidade objetiva e plasticidade.

No caso da Ode ao rouxinol, podemos observar que, garantidas todas as características da ave e da natureza que a circunda, a voz do rouxinol é a do sujeito lírico, a do poeta, a da sua poesia e a do seu tempo: “Tu não nasceste para a morte, ave imortal! (Thou wast not Born for death, imortal Bird!)”. Segundo Augusto de Campos “como a ave imortal, tal poesia não parece ter nascido para a morte, e como a uma urna, amiga do homem, ela não cessa de nos transmitir o seu motto perpétuo de beleza e verdade”.

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LORD BYRON e JOHN KEATS

LORD BYRON (George Gordon Byron) nasceu em 1788, em Londres. Poeta romântico e satirista, é autor de diversas obras poéticas influentes, como Don Juan e Beppo. Morreu em 1824, na Grécia. JOHN KEATS nasceu em 1795, em Londres. Poeta romântico, autor dos versos de Hyperion e Endymion, entre outras obras, teve vida curtíssima. Morreu em 1821, em Roma.

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Lord Byron e John Keats
Trad.: Augusto de Campos
Unicamp
154 págs.