A literatura na poltrona

outubro 2015 / A literatura na poltrona / Do que fugir?

Texto publicado na edição #185

Do que fugir?

Tão importantes quanto as coisas que fazemos são aquelas que não fazemos. Que — para nos proteger e para chegar […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Anton Tchekhov

Anton Tchekhov

Tão importantes quanto as coisas que fazemos são aquelas que não fazemos. Que — para nos proteger e para chegar a nós mesmos — optamos por não fazer. Na arte do não-fazer, o russo Anton Tchekhov também foi um mestre. O que evitar? A que se negar? O que recusar? Em que situações é melhor ficar imóvel e quieto, a simplesmente agir? Escrevendo a Ivan Leóntiev, em junho de 1888, e referindo-se a uma crítica feita pelo amigo a Fogos, Tchekhov diz: “Não é obrigação do psicólogo compreender o que ele não compreende. Além disso, não é obrigação do psicólogo aparentar compreender aquilo que ninguém compreende”. A lição não serve apenas aos psicólogos, mas a todos nós. Muitas vezes, a afirmações incertas — como as de Leóntiev — é bem melhor o silêncio.

Encontro as palavras sábias de Anton Tchekhov em Sem trama e sem final (Martins Fontes, 2002), coletânea de pensamentos do autor russo organizada por Piero Brunello. Além de grande contista e dramaturgo, Tchekhov foi também um corajoso pensador. Um escritor que não se limitou apenas à literatura, mas que pensava sobretudo suas relações com a vida e com a realidade. “Somente os imbecis e os charlatães é que sabem e compreendem tudo”, ele insiste na mesma carta a Leóntiev. Disso certamente devemos fugir (e não só os escritores): da pretensão, ou da simulação de “tudo saber”. Ao contrário, Tchekhov não se esforçava para disfarçar os próprios erros. Em outra carta, a Vukol Lavrov, de 1890, ele diz claramente: “Toda a minha atividade literária tem consistido numa série ininterrupta de erros, por vezes grosseiros”. Mais à frente, sem nenhuma autopiedade, continua: “Tenho muitos contos e artigos de fundo que de bom grado jogaria fora por não prestarem, mas não há uma só linha de que agora deva me envergonhar”.

Mais do que fugir dos erros (dissimulá-los, renegá-los), um escritor, diz Tchekhov, deve fugir dos julgamentos. O escritor não é um juiz. A ficção não existe para proferir vereditos, ou verdades absolutas. Em carta ao editor Alexei Suvórin, Tchekhov é claro: “Você me repreende pela objetividade, chamando-a de indiferença para o bem e para o mal, de ausência de ideais e de ideias. Você quer que, ao representar ladrões de cavalos, eu diga: roubar cavalos é um mal”. Não: o escritor não escreve para julgar. Não emite avaliações, ou sentenças. “Deixemos aos jurados julgá-los, a minha função é apenas mostrar como eles são.” Sabia Tchekhov que as coisas nunca são uma coisa só. A realidade é múltipla e traiçoeira. É preciso sabedoria para respeitá-la. “O roubo de cavalos não é um simples roubo, mas uma paixão”, ele afirma. Dizia escrever para incorporar seus personagens, isto é sentir como eles sentem. “Quando escrevo, eu confio inteiramente no leitor, supondo que ele mesmo acrescentará os elementos subjetivos que faltam ao conto.”

Um escritor, acrescenta Tchekhov, deve também fugir do exibicionismo. Não deve pontificar sobre os assuntos com que trabalha. Não deve “esconder algo” e, assim, trair a si mesmo. Aconselhava aos escritores, ainda, que fugissem do transitório. Do passageiro, dos modismos, das tendências. “O bom romancista deve passar ao largo de tudo o que tenha significado transitório”, aconselha. Deve fugir de “todas as observações críticas que se pretendem certeiras e atuais”. O que antes era “profundo”, como é insignificante hoje em dia! Atento ao real, o escritor não deve, porém, deixar-se por ele hipnotizar. Até porque o real é também feito de máscaras, de disfarces, de armadilhas. Melhor centrar-se em si — e deixar que a realidade siga seu caminho.

Diz ainda: o escritor deve fugir dos ornamentos, preferindo ser simples e sincero. Os principais atrativos de um conto, afirma, são a simplicidade e a sinceridade. Deve fugir, ainda, dos jargões especializados — seja em nome da ciência, do direito, da religião —, fugir da língua dos burocratas e preferir a linguagem comum. Considerava expressões como “outrossim” e “em conformidade com” meras “invenções dos burocratas”. Arremata: “Leio e tenho engulho”. Não poupa, sequer, os escritores mais novos: “Os jovens, particularmente, escrevem muito mal. São obscuros, frios e deselegantes; escrevem como se estivessem mortos e enterrados”. Sempre defendeu uma linguagem viva, que fuja das ideias prontas, das frases de efeito e da argumentação pedante. O segredo principal seria: “não ter medo de parecer estúpido”. Conclui: “Não tenho medo de parecer estúpido; o livre-pensamento é necessário e só é livre-pensador quem não teme escrever bobagens”. Em resumo: não ter medo da liberdade. Liberdade de ser o que se é. Diz Tchekhov, em outra carta, a Leóntiev: “Trate de si mesmo e de seu dom”. E isso deve bastar.

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