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janeiro 2014 / Rodapé / Do que escorre sobre a materialidade do texto

Texto publicado na edição #165

Do que escorre sobre a materialidade do texto

O original, texto inerme, está pronto para a moldagem. Modelagem há de ser a tradução: que a escrita saia justa […]

> Por EDUARDO FERREIRA

O original, texto inerme, está pronto para a moldagem. Modelagem há de ser a tradução: que a escrita saia justa para deleite do leitor. Há que agarrar o sentido, fazê-lo parar de girar, paralisá-lo, tomar-lhe uma foto. Deter o movimento permanente dos significados — escorrendo pastosos sobre a materialidade do texto — para fixá-los, finalmente fixá-los, nem que pela brevidade de um átimo.

Quanto tempo poderá durar esse breve momento? Talvez o intervalo da próxima leitura, ou o tempo da chegada de novo leitor.

Mais fácil seria se o sentido dissesse sempre presente, visível à tona da materialidade do texto; sempre acessível aos olhos e à mente do leitor, como que mesclando, em desejável unidade, significante e significado. Mais fácil se a mente o pudesse apontar, com naturalidade, à primeira vista. Resolvidos todos os problemas — aparentes, então — do processo tradutório.

Essas carquilhas que nos oferecem todo texto, à simples leitura, nos fazem como que tomar desvios. Devanear um pouco, sobrevoando a materialidade da escritura. Duvidar do sentido que críamos. Despertar, após achar de volta o fio da meada. Franzir uma ruga a mais na testa, à espreita do pensamento que nos indicará o verdadeiro significado — mesmo que provisoriamente verdadeiro.

A potência das idéias de todo texto se multiplica no processo tradutório. Leitor especial e privilegiado, o tradutor aborda o texto com atenção redobrada — com faro particular para o detalhe e as multiplicidades dos sentidos. Faro aguçado pela experiência, preparado para identificar o falho e o raro em meio à densa materialidade do texto.

Com estupor vê o desmembrar-se do sentido que parecia ali — na materialidade do texto — tão liquidamente certo. Com estupor vê a proliferação dos significados tornar absurdamente complexa — para não dizer impossível — sua tarefa.

Por complexa que seja, eis uma operação que precisa ser feita, a qualquer preço — mesmo às custas da qualidade do texto final, como não raro acontece. O original impõe a tradução, quase naturalmente. Já se disse — e aqui repeti — que o original só pode sobreviver via tradução. Por isso impõe — impõe-se — esse rito de passagem, que poderá ser o sinal de madurez do texto.

Embora inerme, o original não deixa de impor suas virtudes e seus vícios ao texto traduzido. Desde que tudo seja mesmo traduzido. Mesmo o que esteja apenas em potência e só se possa adivinhar, como semente sob a materialidade da escritura.

O sentido, infelizmente, nem sempre estará ali presente — sensível à mera chamada. Essa aparente ausência do significado dá todo um sabor especial à tradução e pode provocar debates ácidos entre partidários dessa ou daquela solução. Debates que sempre correm o alegre risco do riso.

Há sulcos que — como armadilhas — as falhas de sentidos espalham pelo texto. Saliências e fissuras que desviam pensamentos e canalizam expectativas rumo a resultados inesperados. Explicação dos supostos erros de tradução?

A potência das idéias de um texto pode levar não apenas à admiração, mas à prolificação das possíveis formas de expressá-las. Potentes são as idéias que geram alternativas várias de textos — que semeiam novas idéias e abrem novas possibilidades de interpretação. Quanto mais instigante o texto, mais fluidos os sentidos que escorrem sobre a materialidade da escrita.

O estupor que provoca no leitor a tradução — em sua súbita opção por esta ou aquela dúbia alternativa — pode encontrar paralelo no assombro posterior do tradutor ao notar algo tão óbvio que lhe escapou. A falta, o excesso ou simplesmente a mera e necessária opção, corajosa ou desatenta. E o estupor sempre à espreita.

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