Ensaios e Resenhas

agosto 2020 / Ensaios e Resenhas / Do negro exige-se que seja um bom preto

Texto publicado na edição #244

Do negro exige-se que seja um bom preto

"Bom Crioulo, de Adolfo Caminha", é a primeira obra brasileira a explorar a subjetividade homossexual e ganha nova edição

> Por Ramon Ramos

Adolfo Caminha, autor de Bom Crioulo

Adolfo Caminha, autor de Bom Crioulo

Olá, jovem marinheiro
Você foi traído e
não sabe como dançar com a morte.
Maya Angelou

Publicado em 1895, época em que o romance naturalista já não era internacionalmente um gênero de destaque, Bom Crioulo chocou pelo seu teor explicitamente sexual ao explorar a relação amorosa entre dois homens. Alvo de detração pela prática que ia contra a moral da família e da sociedade dos fins do século 19, o romance do cearense Adolfo Caminha foi sucesso de vendas pelo mesmo motivo.

Mais do que bagunçar o moralismo da família brasileira, a história tem a Marinha como ambiente em que o “vício” homossexual acontecia recorrentemente. A publicação, inclusive, causou grande mal-estar neste ramo das Forças Armadas (cujo regimento considera criminosa a prática homossexual), que não aceitou o cenário descrito por Caminha. Vale lembrar que o autor cearense ingressou na Marinha em 1883 (afastando-se em 1889), o que confere certa credibilidade ao cenário exposto para além do exercício de invenção ficcional.

O protagonista Amaro (apelidado “Bom Crioulo”) é um escravo fugido que acaba se tornando marinheiro por iniciativa própria ou por recrutamento compulsório (o livro não deixa claro). A liberdade é um ponto em que Amaro toca com frequência, refletindo sobre os companheiros que ficaram na fazenda trabalhando sem ganhar dinheiro e mostra, ao longo do livro, não abrir mão da condição que arduamente conquistou. Apaixona-se por um grumete da tripulação, Aleixo, a quem protege e com quem se relaciona em terra e mar.

Amaro aluga um quarto à rua da Misericórdia quando pode passar dias na cidade. A proprietária, uma portuguesa gorda de nome Carolina, o acolhe com admiração após o negro salvá-la de um assalto. Bom Crioulo passa a viver com Aleixo no quartinho e, quando o protagonista é obrigado a regressar ao mar em uma expedição, Carola e o grumete se amigam. Amaro, de volta a terra, descobre o caso (após não receber notícias de seu amado e neuroticamente fantasiar o desenlace) e, em uma cena de raiva e possessão, assassina o jovem grumete. Assim termina tragicamente o enredo da história.

Finda a leitura de um livro como Bom Crioulo, a questão do romance-tese naturalista fica posta, de modo que a impressão inicial do negro Amaro (como um exemplo de sua raça e, por isso, dado a vícios como a bebida e a degeneração sexual) é ratificada no desfecho.

Observamos que o protagonista, em sua aparição inicial, é descrito primeiro pela sua condição física e biológica para, então, seu nome e sua alcunha serem apresentados. Lemos:

Seguia-se o terceiro preso, um latagão de negro, muito alto e corpulento, figura colossal de cafre, desafiando, com um formidável sistema de músculos, a morbidez patológica de toda uma geração decadente e enervada, e cuja presença ali naquela ocasião, despertava grande interesse e viva curiosidade: era o Amaro, gajeiro da proa — o Bom Crioulo na gíria de bordo.

Não bastasse a relação entre a morbidez e a “geração decadente” cafre (oriunda de região africana, termo usado pejorativamente), mais à frente no texto a questão da têmpera e do vício é aprofundada:

A força nervosa era nele uma qualidade intrínseca sobrepujando todas as outras qualidades fisiológicas (…). Esse dom precioso e natural desenvolvera-se-lhe à força de um exercício continuado que o tornara conhecido em terra, nos conflitos com soldados e catraieiros, e a bordo, quando entrava embriagado.

O mesmo ocorre em outras obras clássicas naturalistas como O cortiço (1890) e O mulato (1881), ambas de Aluísio Azevedo, nas quais personagens negros são derrotados por um sistema social e familiar que os marginaliza e produz seu fracasso.

Viés de denúncia
No prefácio desta edição de Bom Crioulo publicada pela Todavia, o crítico norte-americano James N. Green escreve que Adolfo Caminha se trata de “um ardente abolicionista e autor de um conto sobre o uso abusivo da chibata na imposição da disciplina durante a escravidão ou na Marinha”. Mesmo em um leitor mais arguto, fica a dúvida de por que dois autores abolicionistas como Caminha e Azevedo sustentam desfechos negativos para o enredo de seus personagens negros.

Sabe-se que o uso da crítica social em meio a uma narrativa ficcional ainda não está em voga no Brasil nos fins do século 19, somente com Lima Barreto (e depois com os modernistas) tal procedimento é incorporado na literatura de ficção. Aos naturalistas, cabe a exposição.

A exposição, portanto, parece ser utilizada com viés de denúncia (crítica surda, como denomina Salete de Almeida Cara), como se, ao trabalhar ficcionalmente graves questões sociais, os problemas e as hipocrisias pudessem ser iluminadas aos olhos do grande público. Quanto à questão da hipocrisia acerca da homossexualidade na Marinha, a exposição do tema parece cumprir seu papel revelador (o que torna a obra importante para seu tempo). A exposição dos abusos realizados durante as expedições marítimas com punições por meio de chibatadas também repercutiu como denúncia. No que tange às questões raciais, nem tanto.

Isso porque, conforme lemos Lilia Moritz Schwarcz explanar em O espetáculo das raças, “conceitos como ‘competição’, ‘seleção do mais forte’, ‘evolução’ e ‘hereditariedade’, passavam a ser aplicados aos mais vários ramos do conhecimento inclusa a literatura naturalista, com a introdução de personagens e enredos condicionados pelas máximas deterministas da época”.

Desse modo, torna-se questionável a eficácia da exposição banalizada e naturalizada da condição do negro em uma sociedade ainda escravocrata e senhoril como a brasileira dos fins do 19. Tal estratégia, ainda que sem intenção, parece contribuir mais para internalizar na população as teorias raciais segundo as quais o negro e o mestiço seriam delinquentes natos.

Questão racial
Retomando a discussão anterior acerca do modo como a obra aborda a questão racial, é possível observarmos que o narrador de Bom Crioulo alterna sua perspectiva, oferecendo ao leitor a onisciência, o ponto de vista de Amaro e a visão social comum acerca dos tipos em questão. É exatamente essa última maneira de narrar que explicita certo fetiche com o corpo negro ao mesmo tempo em que o trata como besta enjaulada, animalizando o indivíduo.

A primeira descrição de um tipo negro se dá da seguinte forma: “té que surgiu, correndo, a figura exótica de um marinheiro negro, d’olhos muito brancos, lábios enormemente grossos, abrindo-se num vago sorriso idiota, e em cuja fisionomia acentuavam-se linhas características de estupidez e subserviência”.

Além de ratificar estereótipos hiperbólicos comportamentais e físicos, o texto mostra a questão do sorriso vago e idiota, que Franz Fanon (em Pele negra, máscaras brancas), retomando Léopold Senghor, denomina “riso banania”, como sendo “um sorriso estereotipado e um tanto quanto abestalhado, reforço ao racismo difuso dominante”. O riso banania atrelado à noção de subserviência e passividade (comportamentos que o darwinismo social embasava, hierarquizando as raças) contrastam com o físico forte e bestial. Daí a importância de observarmos o adjetivo bom na alcunha de Amaro.

Bom é a domesticação do negro, típica linguagem do reforço positivo utilizada no trato com cachorros em processo de adestração, proferindo good dog! a cada ação correta executada pelo animal. Ser bom seria a única possibilidade para Amaro, pois, como diz o título que Fanon nos empresta: “do negro exige-se que seja um bom preto”.

Apesar do progressismo da pauta que explora a subjetividade homossexual, vemos que Bom Crioulo a apresenta como condição de vício, que, junto à negritude, sobrepõem-se em relação ao livre arbítrio do ex-escravo. Aleixo, branco de olhos claros, morre antes de ser julgado por sua conduta homossexual. Morre vítima das mãos do negro, que era bom, mas não escapa ao destino de sua condição biológica catalisada pela bebida e pela sexualidade concretizadas em um crime passional. A narrativa não mata o negro — para que na morte pudesse romanticamente se purificar. O negro, que começa domesticado e querido, vive para se tornar vilão.

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Bom Crioulo
Adolfo Caminha
Todavia
169 págs.

O AUTOR
Adolfo Caminha
Nasceu em 1857, em Aracati (CE). Muda-se para o Rio de Janeiro (RJ) na adolescência e ingressa na Marinha em 1883. Além de Bom Crioulo, escreveu A normalista (1893), No país dos ianques (1894) e Tentação (1896). Morre de tuberculose em 1897.

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