Dom Casmurro

fevereiro 2012 / Dom Casmurro / Dinu Flămând

Texto publicado na edição #109

Dinu Flămând

Tradução: Sonia Coutinho Introitus com espanto minha querida com toda minha raiva e com todo meu espanto entrelaçados em seu […]

> Por DINU FLĂMÂND

Tradução: Sonia Coutinho


Introitus

com espanto
minha querida
com toda minha raiva e com todo
meu espanto
entrelaçados em seu colo
com raiva e com mais do que
toda raiva e todo meu espanto
e com mais do que todos os detritos que o
bloco de gelo da minha vida vai arrastando atrás dele
com um silêncio que não encontra sua mudez
e com um tremor de mãos vibrantes
e com toda a minha gaga urgência, salivando
a falsidade verdadeira das minhas falsas-verdadeiras palavras
que saem como sonâmbulas com o camisão de dormir da morte
e com todo o ardor grudado ao meu medo
de uma massa de madeira de cerejeiras azedas e molhadas sob uma chuva antiga
e com tudo o que não sei sobre o que penso que sei
e com toda a minha força eu poderia estar ausente de mim mesmo
ingresso clandestinamente na serenidade que
a surpresa da sua existência traz para a minha vida
eu me adio indefinidamente dentro de você

 

Amor fati

sabemos que prazer não significa também verdade
mas quem ainda desejaria que significasse,
quando conseguimos apenas não renegar a esperança

a verdade é que estou envelhecendo
mas a esperança evita iluminar
com demasiada insistência o incompreensível beco sem saída
onde o homem encurralado não pode mais escalar a parede
nem passar adiante dos seus perseguidores

amor fati ou a escolha de Adão confrontado com
a única Eva
é claro
mas só porque se segue a interminável expedição
de um para dentro do outro
e essa perda através da dupla realidade da ignorância
termina como a sobra de um início
uma felicidade verdadeira-mentirosa

e se você entra em minha vida agora
e é a nuvem que apaga por um momento
o ponteiro de sombra do relógio de sol
não me esqueço de que o tempo continua a trabalhar
secretamente
amor mio
caríssima

 

Anima mal nata

o vento levanta de repente um redemoinho de fumaça
um gato caminha a passos lentos pela beira do muro
pensando que talvez os pardais tenham esquecido de como voar

leio sobre os infelizes
que herdam a anima mal nata
como um sinal de nascença mas na alma

enquanto a mesma confusão paira — o côncavo
da interioridade começando a jorrar para fora —
sigo adiante com igual tristeza carnívora

sem saber por que dou de testa com todas as pedras no meu caminho
quando ficaria satisfeito com a clara sombra da sua axila
e com o migratório triângulo embaixo do seu ventre…

 

Exame de sangue

Minha carne viva é meu espírito
minha dor
bioespiritual
na pura revolta dos seus sentimentos

sua paz instintiva
assim como a enormidade do insuportável
conseguem afastar os limites

com uma pétala  de lírio abro em mim
as mais inocentes sensações lascivas
e como ninguém pertence a ninguém
eu desejaria uma mulher com braços de feno
esfolada dentro de mim e eu próprio esfolado dentro dela

tragam-me a mais feia
a fêmea do chacal
aquela de quem se pode desapossar
apenas dessa tristeza que ninguém jamais oferece

e então eu empurraria em suas entranhas nevoentas
o meu frio
biodegradável

estou todo doente com arranhões oblíquos
com aftas de palavras
na mucosa da minha boca

bebo o petróleo das lâmpadas
em todos os bordéis livrescos
atormento minha baixeza
com excitações mecânicas

dêem-me o álcool-limite
a fúria que se aninha na veia de cada doente etílico
quando sua musa aidética vem pedir-lhe
um exame de sangue

meu instinto suicida copula inefavelmente
com essa noite de inefável angústia…

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