A literatura na poltrona

dezembro 2011 / A literatura na poltrona / Dilma e Serra diante do passado

Texto publicado na edição #125

Dilma e Serra diante do passado

Muitos dizem que a literatura não serve para nada. Penso, ao contrário, que ela é um potente instrumento de interpretação […]

> Por JOSÉ CASTELLO

Muitos dizem que a literatura não serve para nada. Penso, ao contrário, que ela é um potente instrumento de interpretação do mundo. Não que ela se pretenda dona da verdade, ou forneça respostas para nossas inquietações. A literatura não oferece soluções, mas dúvidas. Não é uma máquina de certezas, mas de perguntas.

Tracei um primeiro objetivo para esta coluna: transformá-la em uma conversa sem fim com meus leitores. Agora, me arrisco a experimentar um segundo caminho: fazer da literatura um instrumento de escuta do mundo. Em minha biblioteca, reencontro um romance estupendo: O passado, do argentino Alan Pauls. Releio trechos que sublinhei, retomo anotações que fiz às margens do texto. O livro — como uma lanterna — brilha em minhas mãos. Decido: é a hora de usá-lo.

Tenho que começar por algum lugar, resolvo começar pelas eleições de 2010. Em seu discurso de despedida da Casa Civil, Dilma Rousseff declara que não pretende “se desvencilhar” do governo do presidente Lula. Ao contrário dela, seu oponente, José Serra, sempre que pode parece se esquivar (“se desvencilhar”) de seus lados com o governo Fernando Henrique.

Não vou entrar no mérito do debate político, ou tomar posição. A literatura me ensinou a me deter nas palavras. Ela não se interessa pela correção, ou pela verdade. Tem outro tipo de compromisso com o mundo: ela o ilumina. A literatura me ensinou a respeitar as palavras. A desdobrá-las, para investigar sua força e seus ecos. É o que fazem os escritores: diante de uma pequena palavra, eles a quebram ao meio, e daquela pobre palavra partida (como um mágico de sua cartola) arrancam uma forte luz.

É o que venho tentar. Começo pelo verbo “desvencilhar”, que Dilma tem usado com insistência e que o dicionário apresenta como um sinônimo de “soltar, desatar, desprender”. Afastar-se, livrar-se — para dizer de forma mais direta. O verbo vem da palavra “vencilho”, o fio com que enrolamos os feixes e os molhos. Vem de algo, portanto, que prende mas, ao mesmo tempo, sustenta.

Quando Dilma diz que não quer se desvencilhar do passado, reafirma o fio que a prende e a mantém de pé. Ato contínuo, acusa seu oponente de, ao contrário, cortar o fio que o liga a seu próprio passado. Insisto: não me cabe, aqui, julgar as duas posições. As palavras ecoam (murmuram) muito além de qualquer opinião. No debate proposto por Dilma, alguma outra coisa se expõe. É onde a literatura entra.

Curiosa a relação que temos com o passado. Agimos, em geral, como se ele fosse uma reserva do sagrado, um tesouro intocável a que devemos, apenas, reverência e submissão. Em nome do fascínio pelo passado, porém, muitas vezes cometemos graves erros.

Muitos acusam o presidente Lula de ter simplesmente traído seu passado. Na oposição, ele dizia uma coisa. No governo, fez outra, afirmam seus inimigos, com desdém. A mesma acusação era feita ao presidente Fernando Henrique. Quando sociólogo, tinha certos ideais. Ao se tornar presidente, abandonou-os e adotou outros, indignos de sua história pessoal.

Sou indiferente às duas acusações. Ambas são cegas. Antes de tudo, porque os dois presidentes estão vivos. Em outras palavras: estão presos (como todos nós) ao complexo fio da vida, que não é estático, e aos laços do passado, que não cessam de pulsar. A vida se define pelo movimento e pela mudança, e não pela estagnação e pela morte.

A literatura sempre nos lembra, no entanto, que o passado nunca termina. Só que, em vez de se perpetuar, ele é instável e se transfigura. O passado é uma espécie de “delírio” que, a rigor, só existe no presente. É um efeito do presente, uma projeção dele — assim como o futuro também. Todos sabemos o quanto os historiadores e os arqueólogos, apesar de seus esforços, estão sempre imersos em ficções. Somos humanos: não podia ser o contrário. Eu diria mais: ainda bem que é assim! Fosse o contrário, e não seríamos homens, mas pedras.

Volto, então, a O passado de Alan Pauls, pois é graças a ele que rabisco essas idéias. Faço do romance de Pauls minha lanterna. Boa imagem a da lanterna. Ela não tem a pretensão de iluminar o mundo, ou de, enfim, nos devolver a claridade. Limita-se a realçar pequenas porções do real, é só um sutil facho de luz (um frágil esforço humano) em meio à imensa escuridão em que estamos imersos.

O passado, o livro de Pauls, é a história de dois amantes, Rimini e Sofia, que, depois de dez anos juntos, se separam. O primeiro sentimento de Rimini (Serra?) é o de que o passado, enfim, passou. Já Sofia (Dilma?) se mantém atada ao passado e se recusa a abrir mão dele. Nessas duas posições extremas, ambos cometem o mesmo equívoco: esquecem que o passado muda sempre de forma. E que ele não cessa de se presentificar. Que outra coisa é o presente, senão uma modificação do passado? Gritamos pelo passado e ele responde: “presente!”.

A questão não é, portanto, se desvencilhar do passado (Serra) ou, ao contrário, ostentá-lo (Dilma). A questão é o que fazer com o passado. Volto à bela idéia do filósofo: a experiência não é o que vivemos, mas o que fazemos do que vivemos. Rimini pretende se livrar do passado, mas descobre que ele não o abandona. Ora lhe parece um pesadelo, ora uma comédia, mas está sempre ali. Sofia, ao contrário, se agarra ao passado, certa de que ele é uma garantia do presente. Fracassa, pois o passado nunca está onde pensamos; a cada passo, ele já é outra coisa.

No fim das contas, ambos, Rimini e Sofia, fogem da mesma coisa: da dúvida. Ocorre-me, aqui, uma frase de outro grande argentino, Jorge Luis Borges: “Toda doutrina que descarte a dúvida e a negação é uma forma de fanatismo e de estupidez”. O passado só existe porque, no presente, mesmo cheios de dúvidas, falamos do passado. Porque nós (como os médiuns a um espírito) o invocamos — e ele sempre aparece. O que não significa que, quando surge, seja aquilo que esperamos receber.

Dilma precisa do passado para reafirmar quem é. Serra precisa esquecer do passado para, enfim, dizer seu nome. Ambos precisam de um espelho. Vem-me a frase final de um filme a que assisti outro dia: “Sempre precisamos de um espelho para lembrar quem somos”. Dilma precisa de um espelho luminoso, Serra de um espelho opaco. Os dois se agarram ao mesmo objeto. Para quê?

Talvez estejam, como diz o narrador de Joseph Conrad em Juventude: “procurando fixamente, sempre, com ansiedade, alguma coisa fora da vida que, enquanto se espera, já se foi — passa sem ser vista, como um suspiro, ou um relâmpago”. O passado, bom ou ruim, já passou. Dilma e Serra são o presente e a isso, sim, devem se agarrar. São o que temos — e que bom que os temos!

Acho que hoje escrevi demais. Dá nisso tomar a literatura como um instrumento: ela nos abre um abismo sob os pés.

NOTA
O texto Dilma e Serra diante do passado foi publicado em 1º de abril no blog A literatura na poltrona, mantido por José Castello, colunista do caderno Prosa & Verso, no site do jornal O Globo. A republicação no Rascunho faz parte de um acordo entre os dois veículos.

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