Ensaios e Resenhas

março 2012 / Ensaios e Resenhas / Diálogos mínimos

Texto publicado na edição #143

Diálogos mínimos

Nos contos de Luís Pimentel, crueldade e degradação entram como elementos de reflexão

> Por MAURÍCIO MELO JÚNIOR

A concisão não é nenhuma novidade na literatura. Cortar frases, descarnar textos e chegar ao osso da linguagem é uma prática já tão difundida que muitos escritores atingiram o que se pode chamar de estética da gagueira, onde praticamente cada palavra merece ser seguida de um ponto. Com o crescimento descomunal da internet e dos diálogos mínimos cibernéticos, fugir ao barroquismo tão caro aos românticos e realistas tornou-se quase uma obrigação, ou, por outro lado, uma canseira.

É preciso equilíbrio neste momento. O texto enxuto tem seus méritos, mas o escritor não pode se prender a uma fórmula que arrisca levá-lo ao vazio, à falta de comunicação. Dalton Trevisan com seus contos quase haicais consegue dosar concisão com precisão, e faz arte fugindo de todas as armadilhas.

Agora quem entra na linha do desafio é Luís Pimentel. O bom contista traçou um novo projeto para o livro que acaba de lançar, Cenas de cinema — contos em gotas. Aliás, a obra não chegou a nascer como um volume coeso. Pimentel se impôs um compromisso de escrever breves textos para um blog, e nomeou as colunas de Cenas de cinema, onde as narrativas, além da brevidade, tinham o movimento de uma câmera de cinema, e Contos em gotas, onde a única determinante era o espaço curto das redes sociais. Daí para o livro, o parto, parece, transcorreu sem dores.

O resultado, em princípio, é bem interessante. De certa forma estão preservadas todas as marcas de uma literatura que sempre se voltou para um olhar trágico da vida. Luís Pimentel, não que tenha se feito um obcecado, optou sempre por trabalhar com vidas miúdas, medíocres em alguns momentos. Vidas que, num clímax próprio da literatura, conquistam o instante em que ganham consistência e garra. E aí está a força deste escritor. E aí está o diferencial que o afasta do geral da literatura da moda, onde a violência e a sexualidade perdem sentido e vigor. Nos contos de Pimentel a crueldade e a degradação do homem entram como elementos de fundamental reflexão, em outras palavras, suas dores e seus sangramentos estão bem contextualizados.

Em Cenas de cinema — contos em gotas, o escritor partilha seu mundo com o público de maneira aberta, passando sempre a bola para o leitor. Toda ambientação, e até mesmo a seqüência das ações, exige a parceria de quem lê. No conto Lembranças, Pimentel cobra de maneira explícita nossa cumplicidade. E neste ponto o corte, aquele soco que deve atingir quem se debruça sobre o texto, parece ganhar consistência, densidade. Os cortes no cotidiano, na vida, estão mais cirúrgicos, enfim.

Nota-se que as principais características do autor estão preservadas. Formado na escola do jornalismo diário, seus textos, mesmo de ficção, já nascem carregados de concisão e objetividade. Em alguns momentos beiram à crônica, à descrição mesmo de uma vivência momentânea e trágica, como no conto Flores em vida, do livro Grande homem mais ou menos, onde conta os instantes finais do compositor Nelson Cavaquinho. É o hábito, a manha do jornalista infiltrando-se no ofício do escritor.

Daí que estes textos curtos, econômicos, quase metrificados de agora não chegam a surpreender o leitor comum de Luís Pimentel. Parecem mesmo complementos de uma obra em curso. Entretanto, não há como fugir de comparações. Se em seus contos, digamos, normais, de fôlego um pouco mais longo o escritor se revela um paisagista precioso que trabalha com descrições inovadoras, agora ele abre mão do artifício para se dedicar à ação pura e simples. E mesmo assim não se afasta de uma literatura de qualidades inquestionáveis.

Naturalmente que por ter vindo do conto e da poesia, desvencilha-se bem e melhor da tarefa de trabalhar textos ainda mais concisos. Ainda assim o exercício de conter a respiração de maneira mais espaçada é um elemento novo e desafiador em sua obra. Por breves momentos nos leva a acreditar que todo engessamento que se propôs o induzirá ao erro. No entanto, dribla o anticlímax com jogos de corpos surpreendentes. Ou seja, usa a surpresa final como método de sedução e segue contando com firmeza suas histórias.

Estamos diante de um escritor que se dispõe, sem qualquer recalque, à construção de obra una e linear. O lirismo trágico que atravessa todos os seus livros anteriores volta aqui com uma vontade irreprimível. Ele sabe nos conduzir à piedade, sabe nos levar a um certo sentimento de dor pelas dores que marcam seus personagens, pessoas fragilizadas e decaídas, apesar de carregarem a grandeza da vida.

E isso nos coloca, enfim, diante de um verdadeiro Luís Pimentel, um escritor que olha o mundo com doses cavalares de pessimismo, mas que no fundo do infindo túnel de suas reflexões sabe acender esperanças.

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Luís Pimentel

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Nasceu em Itiúba (BA), em 1953. É jornalista, biógrafo e roteirista. Sua obra já recebeu o Prêmio Cruz e Sousa, por Grande homem mais ou menos, e o Prêmio Jorge de Lima, com as poesias de As miudezas da velha. Pimentel também escreveu roteiros para programas humorísticos de TV, como Escolinha do Professor Raimundo e Zorra Total. Vive no Rio de Janeiro (RJ).

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Luís Pimentel
Myrrha
128 págs.