Ensaios e Resenhas

novembro 2018 / Ensaios e Resenhas / Dez bibliotecas fantásticas

Texto publicado na edição #223

Dez bibliotecas fantásticas

I Não se sabe exatamente se por ventania, magia ou tecnologia, mas o fato é que certa manhã as histórias […]

> Por JOSÉ ROBERTO TORERO

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I
Não se sabe exatamente se por ventania, magia ou tecnologia, mas o fato é que certa manhã as histórias dos livros da Biblioteca de Tiblacobei acordaram embaralhadas. Num livro, Hamlet vê um espectro, mas não é seu pai e sim Pluft, o fantasminha. Num outro, O pequeno príncipe juntou-se com O príncipe, de Nicolau Maquiavel, resultando num livro infantil de conselhos cruéis, um dos mais lidos na biblioteca. Também fazem muito sucesso O crepúsculo de Harry Potter, no qual o jovem mago se torna vampiro, “Orgulho e castigo”, de Jane Dostoiévski, e o distópico “A revolução dos bichos em 1984”. Por outro lado, um pequeno grupo de leitores de óculos grossos discutem diariamente os mínimos detalhes de “Ulisses em busca do tempo perdido”. Mas, entre todos estes livros mestiços, o favorito do bibliotecário é “Madame Quixote”, no qual Emma Bovary abandona seu marido pelo cavaleiro Alonso Quijano, e os dois vivem felizes para sempre numa casa cheia de livros.

II
A Biblioteca de Winchesteros não para de crescer. Começou num pequeno bangalô, mas aos poucos foram colocando-lhe mais uma sala, depois outra, um banheiro, um andar superior, um sobre este, escadas, janelas, portas, salões, torres e jardins internos. Ela está em reforma permanente. Todos os dias levanta-se um pedaço de parede, põe-se uma luminária, colocam-se tábuas para um corredor, assentam-se telhas. Talvez alguém pense que a Biblioteca de Winchesteros é uma metáfora. E seria uma das boas. Ela poderia simbolizar uma obra de arte, pois jamais está pronta; o capitalismo, que nunca se satisfaz e sempre quer mais; ou o próprio universo, que desde o Big Bang se expande sem parar. Mas seu bibliotecário tem uma explicação mais simples: como ele não quer se desfazer de nenhum livro e deseja ter todos os novos que aparecerem, a única saída é se espalhar lentamente como a gema de um ovo quebrado, crescendo alguns centímetros por dia, avançando pela rua em frente, pela quadra seguinte, engolindo casas, a cidade vizinha, o estado ao lado, o país da fronteira. Um dia a biblioteca de Winchesteros cobrirá todo o planeta e chegará à porta da sua casa.

III
A Biblioteca Péssima, de Melbourne, tem este nome porque só aceita livros ruins. Seu acervo, formado a partir de conselhos de críticos renomados e respeitados acadêmicos, tem o que há de pior do ponto de vista literário. Clichês? As prateleiras estão cheias. Contos piegas? Idem. Aventuras inverossímeis e romances sem nenhuma inovação? Ibidem. A ideia é que a Biblioteca Péssima sirva como exemplo de como não se deve escrever. O que causa espanto é que os leitores são muito fiéis e voltam sempre, mesmo depois de, teoricamente, já terem aprendido como não deve ser um bom livro. Às vezes alguns usuários são flagrados rindo ou chorando, e se explicam dizendo que riem de dó do autor ou que o texto é tão medíocre que dá vontade de chorar. O bibliotecário anda meio intrigado e começa a desconfiar que os frequentadores vão lá por gosto.

IV
A Biblioteca dos Loucos, em Urus, na Chechênia, não é apenas uma biblioteca. Também é um hospício. Os internos são leitores patológicos, daquele tipo que se apaixona por um personagem, que xinga um outro, que imita aqueloutro, que sofre quando lê uma batalha, que chora com a narração de uma morte, que canta e dança com um final feliz. Os leitores insanos entram de tal forma nos livros que é como se estivessem assistindo tudo ao vivo. Eles andam entre as estantes do manicômio com suas obras preferidas nas mãos. Alguns apenas leem em voz alta, outros fazem gestos largos, uns soltam palavrões de quando em quando e há quem dê socos no livro, tentando acertar o queixo de algum vilão. O sonho de todo escritor é ter seus livros na Biblioteca dos Loucos.

V
A Biblioteca do Meio do Caminho tem apenas livros que ainda estão sendo escritos. Por conta de uma avançada tecnologia gráfica (ou, talvez, uma magia antiquíssima), os leitores podem ver as letras surgindo nas folhas assim que os autores a escrevem. E também podem vê-las sendo apagadas, riscadas, corrigidas. Acompanhar a escrita pode ser divertido, mas também pode ser angustiante. Às vezes o leitor lê um livro quase até o seu final, mas aí o escritor muda de ideia e modifica tudo, matando personagens, trocando o narrador, suprimindo cenas ou, o pior de tudo, abandonando o livro, com o que todas as páginas ficam imediatamente negras. Às vezes veem-se leitores chorando de raiva na Biblioteca do Meio do Caminho, e já foram registradas algumas agressões às obras.

VI
A cidade de Tabriz era conhecida por suas grandezas. Ela se vangloriava de seus imensos portões de cobre, que só podiam ser abertos por dez homens fortes; de seu gigantesco tabuleiro de xadrez, no qual as peças tinham que ser carregadas por três pessoas; e de seu enorme chafariz, onde toda a cidade tomava banho no primeiro dia de verão. Mas o maior orgulho de Tabriz eram os livros de sua biblioteca, que de tão grandes precisavam de várias pessoas para virar suas folhas. Por conta disso, seus cidadãos se acostumaram a ler em grupo. Dez, vinte ou mesmo cem pessoas se amontoavam em frente a um livro, liam suas páginas e as viravam. Há quem diga que a cidade de Tabriz inventou o cinema.

VII
Em Bórgia fica a famosa Biblioteca dos Mapas, que possui livros sobre cartografia, enciclopédias geográficas e, é claro, mapas. Muitos mapas. Há exemplares de todos os tempos, de todos os formatos, de todos os tamanhos e, principalmente, de todos os lugares. Há mapas de um mesmo lugar em épocas diferentes (que assim não são mapas só de espaço, mas também de tempo), há um pequenino mapa do universo desenhado sobre a cabeça de um alfinete e ocupa toda a parede Norte o gigantesco mapa de um grão de areia da praia de Ulalaia. Na Biblioteca dos Mapas há até um mapa da própria biblioteca. Ele foi concebido pelo seu bibliotecário, que mandou forrar o teto com espelhos. Assim ele criou o mais perfeito dos mapas, pois ele mostra a biblioteca em seus mínimos detalhes e com atualizações instantâneas. Por outro lado, é também o mais imperfeito, pois representa tudo invertido, ao contrário do que é. Dizem que, quando o bibliotecário percebeu esta amarga sutileza, deu graças por estar ficando cego.

VIII
O tanque-biblioteca foi uma arma decisiva na Guerra de Prokajna, entre os taedos e os karans. É que, como os karans são profundos admiradores da literatura, os taedos, que não tinham como produzir carros blindados, cercaram seus modestos tanques com centenas de livros. O resultado foi que os karans não conseguiam disparar contra os tanques-bibliotecas, e assim os taedos invadiram Prokajna e venceram a guerra. Os karans, derrotados, vingam-se fazendo poemas satíricos sobre os taedos. Mas isso não tem lá muita utilidade. 

IX
A Biblioteca da Floresta de Barnaul não fica entre as árvores, mas nas próprias. É que muitos anos atrás os habitantes do lugar começaram a escrever seus textos preferidos nos caules da região. As árvores mais estreitas receberam haicais, os poemas mais longos ficaram nos coqueiros, ensaios foram escritos nos carvalhos, contos foram gravados em baobás e romances, em enormes sequoias. Na primavera, nenhuma biblioteca cheira melhor que a da floresta de Barnaul, aquela que não tem bibliotecário, mas jardineiro.

X
A Biblioteca de Sinar, na Suméria, não tinha livros, mas contadores de histórias. Eles ficavam à disposição dos leitores, digo escutadores, e cada um tinha sua especialidade: havia os que narravam histórias para crianças, os que lembravam o passado, os que sonhavam o futuro, os que sussurravam mistérios, os que recitavam poemas, os que relatavam histórias de amor etc… Porém (as histórias sem um “porém” geralmente não valem a pena), um dia, a esposa do bibliotecário, que era surda, disse que estava muito triste por não ouvir o que os contadores contavam. Foi quando ele teve a ideia de transformar os sons em símbolos. E assim, num gesto de amor do bibliotecário, inventou-se a escrita.

(Post scriptum: Em algumas versões, a surda é a rainha de Sinar e o bibliotecário inventa as letras para ganhar um aumento em seu soldo. Em outras, o surdo é um pintor que em troca faz um belo quadro do bibliotecário. E, numa última, a surda é a mais bela prostituta do lugar. Juntando-se as quatro variações pode-se concluir que, desde o começo, quem escreve quer ser pago com amor, dinheiro, fama ou sexo.)

 

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