Ensaios e Resenhas

fevereiro 2014 / Ensaios e Resenhas / Desnorteio: só no título

Texto publicado na edição #167

Desnorteio: só no título

Nada mais belo para um escritor do que uma página em branco, seja ela de papel ou de Word. E […]

> Por LUIZ PAULO FACCIOLI

Nada mais belo para um escritor do que uma página em branco, seja ela de papel ou de Word. E nada também mais desafiador. Sem que o artista perceba com clareza esse dilema, duas forças antagônicas se digladiam em sua mente no momento em que ele decide encarar um novo trabalho: de um lado, a solidez da tradição, construída e esmerilhada ao longo dos séculos, que não pode e nem deve ser menosprezada; do outro, a volatilidade da imaginação que desconhece qualquer regra ou limite, e sabe-se que não existe liberdade maior do que aquela que a arte proporciona. Os dois extremos são sempre indesejáveis ¾ o principal vício do primeiro é o academicismo; o do segundo, o hermetismo ¾ e tão mais bem sucedida será uma obra literária (e de resto qualquer obra de arte) quanto melhor o autor conseguir equilibrar essas duas forças. Não é um exercício fácil ¾ se assim fosse, bons livros dariam em árvores, e muitos são os exemplos de autores que escreveram várias obras sem grande destaque até chegar num único título que imortalizou seu nome ¾, mas algo que a prática e a persistência vão sem dúvida alguma conseguir aprimorar.

No início, a tendência é voar acima do teto recomendável, nem sempre com resultados satisfatórios, uma ousadia que tem a ver mais com um impulso criativo ainda indomado do que com os riscos conscientemente assumidos que só a maturidade vai ensinar. Mesmo assim, o frescor da novidade desculpa eventuais deslizes a ele associados e jamais deixará de ser um dos principais propulsores da literatura.

Na folha de rosto de Desnorteio, primeiro romance de Paula Fábrio — vencedor do prêmio São Paulo de Literatura 2013 na categoria Autor Estreante —, encontramos uma Breve Nota da Autora:

A história deste livro foi-me chegando devagarzinho, em fragmentos, lembranças entrecortadas. Inspirada em histórias de família, misturada a ficções; esses desvios costumeiros de quem se dispõe a escrever não os fatos, mas impressões.

Para além do inusitado de a nota vir num espaço via de regra inadequado para abrigar esse tipo de adendo, seu teor é de pronto motivo de apreensão para o leitor. Pode a autora estar muito segura daquilo que pretende, mas a pressa de querer anunciá-lo por pouco não a faz colar na capa sua intenção, ou está titubeante, escreveu alguma coisa que talvez seja um romance, teve a sorte de conquistar um editor e conseguiu publicar seu opúsculo envolto numa bonita roupagem. Observe-se como a nota pode ser lida como um mero exercício de retórica: quem escreve sabe muito bem que uma história costuma chegar ao escritor exatamente dessa forma, devagarinho, fragmentada, mesclada a lembranças; cabe a ele organizar tudo, completar com a ficção as eventuais lacunas e moldar essa massa quase nunca inteligível em algo que faça sentido. Talvez a parte mais sofisticada, e o sonho de consumo de muito escritor, é o que encerra a última frase: a intenção de privilegiar as impressões mais do que os fatos. A conquista do São Paulo de Literatura, contudo, indica que Paula Fábrio conseguiu convencer pelo menos um segmento tarimbadíssimo de leitores e que não se deixa enganar tão facilmente, esse que lhe deu a vitória.

Desnorteio vem numa edição caprichada, quase artesanal em sua tiragem de 500 exemplares. O projeto gráfico de Leonardo Mathias inclui capa dura com ilustração em tons neutros que aparece repetida em p&b no miolo, título em vistoso branco, com as letras de cabeça para baixo, único toque de exagero numa concepção onde predominam os muitos detalhes em preto. O miolo, de enxutas 140 páginas, está impresso em papel pólen de gramatura privilegiada, e a tipografia limpa e elegante é muito confortável à leitura.

Inegáveis virtudes
Mas certamente não foi apenas a bela apresentação de Desnorteio o que lhe rendeu tão cobiçado prêmio, e aí entra o texto e suas inegáveis virtudes. Em primeiro lugar, Paula Fábrio é fiel, da primeira à última página, ao que anuncia de forma tão atabalhoada em sua Breve Nota. O livro abre com um capítulo intitulado Balancete, onde um narrador indefinido em primeira pessoa começa a catar suas reminiscências, divaga, conversa consigo mesmo, como a buscar o fio da meada que o levará a uma história pessoal. Seguem-se capítulos curtos e sempre ágeis que todavia nunca entregam completamente o que o leitor quer saber. Aos poucos, sem preocupação alguma com a cronologia dos fatos e alternando as cenas de forma aleatória, vai surgindo sutilmente a trama: o cenário é Sorocaba, no interior paulista; a época, os anos 1970-80; os personagens, uma família de poucas posses, pai dominador e mãe submissa, como tantas e tantas que existiram (e ainda existem) espalhadas pelo Brasil, à mercê de falsos milagres econômicos e de planos estapafúrdios que só fizeram agravar ainda mais a desigualdade social histórica deste país. Seis filhos, três homens e três mulheres. As moças progridem, uma mais do que as outras, mudam-se, casam, têm filhos e conquistam uma existência considerada normal, pelo menos na aparência. Já os três rapazes decidem ficar morando na decadente casa da família, empobrecem mais e mais a cada dia e acabam virando mendigos. A miséria chega a tal ponto que, numa cena triste e emblemática do abandono a que foram entregues, um deles aplaca a fome roendo pedaços das telhas de barro do casebre. Não menos eloqüente é a situação daquele que vive trancafiado num cubículo amaldiçoando as mulheres e extravasa sua misoginia contra uma indefesa boneca, que acaba com as pernas amarradas e sepultada no quintal. Ou a do cantor, que poderia ter tido melhor sorte na vida, não tivesse desistido de tentar e passasse a cheirar álcool de um galão guardado sob a cama.

Entender como os irmãos Oliveira, Rodolfo (o Dôrfo), Miguel e Benévolo (o Bené), personagens banais e semelhantes a tantos outros que vivem em nosso entorno, puderam chegar a tal nível de degradação é um desafio que transcende os limites da história para propiciar uma visão quase sociológica do Brasil que submergiu do regime dos generais e da crise gerada pelos sucessivos choques econômicos heterodoxos num passado não tão distante e que ainda provoca arrepios em quem viveu aquele período negro e desesperançado. Se eles tomaram a decisão de se tornar mendigos, como é sugerido, se isso foi mera consequência de outra decisão, a de não lutarem com mais empenho contra todo o elenco de adversidades que tiveram de enfrentar, ou ainda se alguma deficiência intelectual sonegou deles o progresso ao qual todo filho do povo abençoado por Deus tem direito, essa é de resto uma questão imprescindível em qualquer estudo sobre a realidade brasileira. Se pelo menos um dos irmãos tivesse nascido com um talento especial para brincar com a bola, a sorte de todos os três poderia ter sido outra, e muito sociólogo renomado sorriria e piscaria um olho ao ver mais uma vez sua teoria ser comprovada.

Invejável sutileza
Desnorteio, porém, não tem nada de didático ou panfletário, nem pretende ser uma obra ensaística. O que ele traz é a reprodução fiel de uma realidade há pouco vivida e cujas marcas ainda estão muito presentes no cotidiano brasileiro, construída com invejável sutileza, mas que, na estrutura algo fluída proposta por Paula Fábrio, serve apenas para dar alguma sustentação ao conflito principal do romance. E aqui entra o fator humano a comandar o espetáculo, o que não significa expressar inquietações ou dramas existenciais, mas pouco a pouco ir se fechando num silêncio conformado e autodestrutivo.

Os três irmãos são os protagonistas e com isso ganham o privilégio de terem as iniciais de seus nomes grafadas com letras maiúsculas, assim como um ou outro personagem que merecem esse destaque por outras e talvez diferentes razões. Todos os demais nomes próprios são grafados com iniciais minúsculas, um atentado à gramática que visa a satisfazer tão somente a um capricho autoral sem nenhuma conseqüência a não ser propor ao leitor um jogo de adivinhação do porquê dessas diferenças. (A bem da verdade, a explicação está reservada para a última página, mesmo assim não deixa de ser um capricho.) Numa narrativa já fragmentada, tudo o que desvie a atenção do leitor é pouco ou nada recomendável. Aliás, os melhores momentos do livro surgem quando Paula Fábrio engrena uma das várias histórias secundárias, que conduz com um discurso limpo, sutil e sempre muito bem estudado. Quando ela narra sem compromisso o que talvez ache menos importante, aí é que seu texto cresce e brilha mais.

Paula Fábrio estréia com talento, ousadia e um prêmio importante para chancelar suas convicções literárias. O caminho já está traçado, basta perseverar nele. O resto, só o tempo fará.

 

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Paula Fábrio

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Nasceu em 1970 em São Paulo. Formada em Comunicação Social, atuou como redatora de publicidade. No campo literário, idealizou e dirigiu a Rato de Livraria, gerenciou o acervo da Biblioteca de São Paulo e atualmente escreve artigos para revistas acadêmicas. Desnorteio é seu romance de estreia e mereceu o Prêmio São Paulo de Literatura de 2013 na categoria Autor Estreante.

Tudo feito como manda o figurino, primeiro a retirada da máscara ainda na saída do clube. Um susto, a moça era dentuça. Um calafrio lhe subiu pelas costas. Mas cabia terminar o que havia começado, e fábio beijou sua boca mesmo com receio daqueles dentes. A caminho de casa, havia um muro para os primeiros abraços. Atrás do muro, um mato baixo, para se levantar a saia. A dentuça disse não. Mas já estava tudo tão perdido que deixou a fome lhe subir pelas coxas. Para esta cena, bastam alguns minutos.

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Paula Fábrio
Patuá
141 págs.