Ruído branco

outubro 2011 / Ruído branco / Desastres naturais

Texto publicado na edição #132

Desastres naturais

O que significa um terremoto? Um tsunami quer dizer o quê? O que significam 8,9 pontos na escala Richter? Onde […]

> Por LUIZ BRAS

O que significa um terremoto? Um tsunami quer dizer o quê? O que significam 8,9 pontos na escala Richter? Onde fica o Japão?

Estive em Tóquio, em 2008, mas não tenho certeza de ter estado no Japão. Eu vi os edifícios, visitei os museus e os restaurantes, tirei fotos. Escutei muita gente falando japonês. Dois dias antes de voltar pra casa, até fui numa excursão de ônibus pelos arredores da capital. Vi o monte Fuji e um santuário xintoísta, visitei muitos lugares turísticos e sagrados. Mas ainda não tenho certeza de ter estado no Japão.

A viagem não foi inútil. Jamais diria isso. Foi uma aventura numa distante terra exótica. Ainda fico perplexo quando olho para baixo, para meus pés, e penso, caramba, vocês pisaram no outro lado do mundo!

Encontrei muita coisa interessante no outro lado do mundo, mas não encontrei o que eu procurava. Fantasia? Emoções literárias?

O que eu procurava era o Japão dos livros de Akatagawa, Kawabata e Mishima. O Japão dos filmes de Kurosawa e Miyazaki. Dos mangás de Otomo, Tezuka, Matsumoto e Toriyama. Das gravuras de Hokusai.

Viajar é a forma mais trabalhosa de desencontro. A agência de viagens, o passaporte, as malas, as muitas horas de aeroporto e no avião, os hotéis, o fuso horário, a dificuldade de comunicação, tudo isso pesa demais nos ombros.

Quando aceitei embarcar para o outro lado do mundo, pensei que meu esforço seria recompensado de outra maneira. Eu queria mesmo era encontrar a atmosfera e as pessoas dos livros, filmes e mangás.

Foi mais ou menos como embarcar para Oz ou Wonderland ou Neverland ou Nárnia e encontrar apenas um parque temático com brinquedos e gente fantasiada.

Agora eu sei. Foi ingenuidade minha pensar que podia ser diferente. Do outro lado do mundo eu encontrei pessoas e edifícios em tudo parecidos com os daqui. A mesma carne, o mesmo concreto, as mesmas aflições. É por isso que a notícia do terremoto, do tsunami e das usinas nucleares é tão terrível. O desastre atingiu, matou ou aleijou gente como a gente. Seria impossível não se comover, não se revoltar contra a natureza cega.

Ryunosuke Akatagawa, pouco traduzido no Brasil, é considerado o Pai do Conto Japonês. Suas narrativas mais conhecidas aqui são Rashomon, de 1915, e No matagal, de 1922, porque foram reunidas numa adaptação de Akira Kurosawa para o cinema.

Em 1927 ele publicou um conto intitulado Kappa, sobre um fabuloso país habitado por estranhas criaturas do folclore japonês, os tais kappas. Nessa narrativa, o paciente de um manicômio relata a um visitante as experiências que viveu quando esteve lá.

Experiências excêntricas e irreverentes. Durante a estada do narrador maluco no divertido país dos kappas, nossa sociedade humana passou a ser medida com outra régua. De repente nosso mundo e nossos valores mais arraigados ficaram de ponta-cabeça.

Ter vivido no país dos kappas, ter aprendido seu idioma e assimilado sua cultura, abriu os olhos do narrador também para as bizarrices do mundo dos homens.

O Japão de minha fantasia tem algo do país dos kappas de Akatagawa: um espelho irônico atravessado por uma luz delicada, em que podemos enxergar nossa própria sociedade delirante.

Na composição de meu Japão mítico também entram elementos mais difusos, trazidos certamente pelos contos curtos de Yasunari Kawabata, autor muito mais presente nas livrarias brasileiras. Sua prosa sensual e sensorial, por vezes impressionista, mexe com minha noção de tempo.

Ler os contos de Kawabata é desacelerar. Voltar muitas décadas e tocar um Japão de névoa e sonho. O desejo, jamais a razão, é o que comanda a ação de seus personagens impulsivos e passionais.

O mundo dessas narrativas é movido pelos sentimentos e pelas vontades lúbricas. O neo-sensorialismo de Kawabata promove o encontro pouco comum do Oriente com o Ocidente: o beijo do sensualismo da arte japonesa com a filosofia de Schopenhauer.

Na composição de meu Japão mítico as únicas catástrofes naturais são as dos mangás e animês: manifestações poéticas da natureza contra a crueldade pragmática dos homens.

Terremotos, tsunamis e avalanches muitas vezes com mensagem ecológica. Em tudo diferentes dos terremotos, dos tsunamis e das avalanches do mundo real, irracionais, sem qualquer mensagem.

De todos os filmes de Hayao Miyazaki, meu predileto é Princesa Mononoke. Nessa animação rica em simbolismo, a floresta agredida revida lançando contra os agressores um deus-animal gigante e mutilado. A terra treme. Minha paisagem interior também.

Ao desembarcar no aeroporto Haneda — o maior do planeta, dizem —, eu queria era estar finalmente numa Tóquio em que todas as pessoas, máquinas e avenidas emitissem sinais apocalípticos, como em Akira, de Katsuhiro Otomo.

A Tóquio dos mangás e dos animês, diferente da Tóquio real, já foi destruída inúmeras vezes por répteis descomunais e explosões atômicas. O destino de seus cidadãos passa pela perpétua reconstrução de sua metrópole.

Os roteiristas e desenhistas japoneses insistem obstinadamente no tema da hecatombe. Faz sentido. Os artistas do paleolítico pintavam seus temores e desejos na parede das cavernas. Essa mesma magia simpática pode ser percebida nos mangás e nos animês. As sucessivas destruições do mundo japonês no plano da fantasia são uma tentativa de impedir que aconteçam no plano da realidade.

Uma forma de aplacar a fúria dos deuses. Para que a Tóquio real seja poupada, ela precisa ser devastada mil vezes nos quadrinhos, na tevê e no cinema.

Em 1998 viajei ao Japão e não encontrei o Japão. Encontrei apenas outro país globalizado: assustador e potente como todos os países globalizados.

O Japão real é exótico e impressionante como todos os países reais, exóticos e impressionantes. Porém meu Japão imaginário, construído lentamente ao longo das décadas com a substância dos livros, quadrinhos e filmes, é muito mais exótico e impressionante.

Contei isso a um amigo escritor e ele foi categórico: “Pra que viajar, se temos a imaginação?”

Quando era criança eu me apaixonei por uma jovem princesa que, filha única, era obrigada a se fingir de garoto, do contrário coisas terríveis aconteceriam a seus pais e ao reino. Sempre que lembro dessa velha paixão, fico um pouco encabulado. Eu tinha cinco anos e a princesa Safiri foi minha primeira namorada.

Desde que me tornei adulto, jamais deixei de pensar que amadurecer é perder pelo caminho nossa melhor parte. Mas a passagem da infância para a idade adulta não é algo pacífico e completo. A infância nunca nos abandona pra valer. Sorte nossa.

Se eu tivesse amadurecido como mandam os manuais do positivismo contemporâneo, é certo que meu Japão imaginário vagarosamente teria sido substituído pelo Japão real, sem deixar vestígios.

Não haveria mais conflito interno. Eu desembarcaria no aeroporto Haneda como a maioria dos turistas: deslumbrado com a Tóquio cosmopolita. Com o outro-lado-do-mundo palpável e concreto, repleto de belezas e encantos que eu não consegui ver, porque entre meus olhos e a realidade havia uma interface de sonho.

Interface feita de imagens e conceitos sólidos, líquidos e gasosos. Ninjas fantasmas invadindo sonhos e manipulando a matéria-prima da consciência. Samurais cibernéticos duelando em planícies cobertas de neve. Dragões e vampiros. Florestas habitadas por seres mágicos. Um país onde os terremotos e os tsunamis não são manifestações de um cosmo indiferente a seus habitantes.

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