Dom Casmurro

janeiro 2020 / Dom Casmurro / Derek Mahon

Texto publicado na edição #237

Derek Mahon

Cinco poemas de Derek Mahon

> Por Derek Mahon

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

Kinsale

The kind of rain we knew is a thing of the past —
deep-delving, dark, deliberate you would say,
browsing on spire and bogland; but today
our sky-blue slates are steaming in the sun,
our yachts tinkling and dancing in the bay
like racehorses. We contemplate at last
shining windows, a future forbidden to no one.
Kinsale

O tipo de chuva que conhecíamos é coisa do passado —
profunda, sombria, você diria até mesmo deliberada,
a navegar por picos e pântanos; mas, hoje,
nossas ardósias cor de azul-celeste fervem ao sol,
nossos veleiros tilintam e dançam na baía
como cavalos de corrida. Contemplamos, até que enfim,
janelas a reluzir, um futuro a ninguém vedado.

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A lighthouse in Maine

Edward Hopper

It might be anywhere, that ivory tower
reached by a country road. Granite and sky,
it faces every which way with an air
of squat omniscience, intensely mild,
a polished Buddha figure warm and dry
beyond vegetation; and the sunny glare
striking its shingled houses is no more
celestial than the haze of the world.

Built to shed light but also hoarding light,
it sits there dozing in the afternoon
above the ocean like a ghostly moon
patiently waiting to illuminate.
You make a left beyond the town, a right,
you turn a corner and there, ivory-white,
it shines in modest glory above a bay.
Out you get and walk the rest of the way.
Um farol no Maine

Edward Hopper

Poderia estar em qualquer lugar, aquela torre de marfim
à qual se chega por uma pequena estrada. Granito e céu,
ela olha para todos os lados com um ar
de espessa onisciência, intensamente terna,
figura polida de um Buda quente e seco
escondida no mato; e o brilho do sol
batendo nos telhados de suas casas não é mais
celestial do que neblina do mundo.

Feito para emitir luz e também para armazenar luz,
ele fica lá, sonolento, à tarde,
sobre o oceano, como uma lua fantasmagórica,
esperando pacientemente para iluminar.
Vire à esquerda depois da vila, à direita,
dobre a esquina e então, branco-marfim,
ele brilha, em sua recatada glória, sobre a baía.
Dali você sai e anda pelo resto do caminho.

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Everything is going to be all right

How should I not be glad to contemplate
the clouds clearing beyond the dormer window
and a high tide reflected on the ceiling?
There will be dying, there will be dying,
but there is no need to go into that.
The lines flow from the hand unbidden
and the hidden source is the watchful heart;
the sun rises in spite of everything
and the far cities are beautiful and bright.
I lie here in a riot of sunlight
watching the day break and the clouds flying.
Everything is going to be all right.
Tudo vai dar certo

Como eu poderia não ficar feliz ao contemplar
as nuvens se dissipando além da janela do sótão,
e a maré alta refletida no forro?
Haverá mortes, haverá mortes,
mas não precisamos falar disso agora.
As linhas fluem espontaneamente da mão,
a fonte oculta é o coração vigilante;
o sol nasce, apesar de tudo,
e as cidades ao longe são belas e brilham.
Eu aqui deitado, nesse tumulto ensolarado
A observar a aurora e as nuvens que voam.
Tudo vai dar certo.

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The Mayo Tao

I have abandoned the dream kitchens for a low fire
and a prescriptive literature of the spirit;
a storm snores on the desolate sea.
The nearest shop is four miles away.
When I walk there through the shambles
of the morning for tea and firelighters
the mountain paces me in a snow-lot silence.
My days are spent in conversation
with deer and blackbirds;
at night fox and badger gather at my door.
I have stood for hours
watching a trout doze in the tea-gold dark,
for months listening to the sob story
of a stone in the road — the best,
most monotonous sob story I have ever heard.

I am an expert on frost crystals
and the silence of crickets, a confidant
of the stinking shore, the stars in the mud —
there is an immanence in these things
which drives me, despite my scepticism,
almost to the point of speech,
like sunlight cleaving the lake mist at morning
or when tepid water
runs cold at last from the tap.

I have been working for years
on a four-line poem
about the life of a leaf;
I think it might come out this winter.
O Tao de Mayo

Abandonei as cozinhas dos sonhos pelo fogo baixo
e uma literatura impositiva do espírito;
a tempestade ronca no mar desolado.
A loja mais próxima está a quatro milhas daqui.
Quando eu caminho através da algazarra
da manhã, em busca de chá e acendedor de lenha
a montanha me segue com o silêncio da neve.
Meus dias são vividos em conversas
com veados e melros;
à noite, raposas e texugos se reúnem na minha porta.
Fiquei por um bom tempo
olhando uma truta a dormitar no escuro dourado,
por meses ouvindo a história triste
de uma pedra no caminho — a melhor,
mais monótona história triste que jamais ouvi.

Virei especialista em cristais de neve
e no silêncio dos grilos, um confidente
do cheiro forte da costa, das estrelas no lodo —
há uma imanência nessas coisas
que me leva, a despeito de meu ceticismo,
quase ao ponto do discurso,
como a luz do sol penetrando a neblina do lado de manhã
ou quando a água, tépida
sai finalmente fria da torneira.

Tenho trabalhado por anos
num poema de quatro linhas
sobre a vida de uma folha;
talvez o termine neste inverno.

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The chinese restaurant in Portrush

Before the first visitor comes the spring
softening the sharp air of the coast
in time for the first seasonal ‘invasion’.
Today the place is as it might have been,
gentle and almost hospitable. A girl
strides past the Northern Counties Hotel,
light-footed, swinging a book bag,
and the doors that were shut all winter
against the north wind and the sea mist
lie open to the street, where one
by one the gulls go window-shopping
and an old wolfhound dozes in the sun.

While I sit with my paper and prawn chow mein
under a framed photograph of Hong Kong
the proprietor of the Chinese restaurant
stands at the door as if the world were young,
watching the first yacht hoist a sail
— an ideogram on sea cloud — and the light
of heaven upon the hills of Donegal;
and whistles a little tune, dreaming of home.
O restaurante chinês em Portrush

Antes do primeiro visitante chega a primavera
suavizando o ar cortante da costa,
em tempo para a primeira “invasão” da temporada.
Hoje o lugar está como provavelmente já foi,
digno e quase hospitaleiro. Uma garota
passa caminhando diante do hotel North Counties,
ligeira, balançando a sacola com livros,
e as portas, que estiveram fechadas por todo o inverno
protegendo-se do vento do norte e da névoa do mar
agora abrem-se para a rua, onde, uma
por uma, as gaivotas inspecionam as vitrines
e um velho wolfhound cochila ao sol.

Eu, sentado com meu jornal e meu camarão chow mein,
sob uma foto emoldurada de Hong Kong,
enquanto o proprietário do restaurante chinês
permanece na entrada, como se o mundo fosse leve,
observando o primeiro iate içar as velas
— um ideograma nas nuvens acima do mar — e a luz
do firmamento sobre as colinas de Donegal;
ele assobia uma canção, sonhando com seu lar.

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