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maio 2016 / Quase-diário / Dercy, Trancredo, anamorfoses

Texto publicado na edição #192

Dercy, Trancredo, anamorfoses

Brasil 500 anos: um fracasso as comemorações

> Por AFFONSO ROMANO DE SANT'ANNA

Dercy Gonçalves: o bug do milênio

Dercy Gonçalves: o bug do milênio

01.01.2000
Rio de Janeiro, seis da tarde. Tempo nublado. O réveillon em Copacabana foi lindo: vimos a festa do apartamento do Luís Roberto Silva (ex-ministro da Cultura). Presentes: clã Luiz Carlos Barreto, Bruno e Amy Irving, o secretário geral do governo Itamar, fazendo-me muita festa. Antes, passamos pela casa do José Aparecido: Cony, Dercy Gonçalves, etc.

Digo a ela: “Dercy, o Brasil tem o Hino Nacional, o da Bandeira e você!”.

Ela: “Eu sou o bug do milênio”.

Estava lá também o Gullar com que falamos ligeiramente no elevador. Do apartamento do Zé ao do Luís, fomos andando na chuva fina que molhava 2,5 milhões de pessoas na praia.

23.03.2000
Estou escrevendo o ensaio/conferência para apresentar em Arábida/Portugal, em julho, a convite de Gilda Santos, assistente de D. Cleo Berardinelli. É sobre O Valente Lucideno[1] — texto que deveria ocupar mais espaço em nossa literatura pela sua singularidade.

Fui dar aula inaugural na Universidade de São João Del Rey: quatro horas de viagem.

Andei pela cidade sozinho. Vi os “passinhos” onde se fazem “procissões” célebres. Fui até ao cemitério onde está sepultado Tancredo, revivendo aquela cena marcante de seu sepultamento (1985) quando o pedreiro João Mário Grande demorou uma eternidade (em tempos de TV, diante das câmaras) dando acabamento ao fechamento da sepultura.

É sempre uma coisa mágica essa volta a Minas. Anotei frases para poemas, visitei a igreja de São Francisco ali na praça. Deram-me cinco queijos de Minas de presente.

22.04.2000
Fui a BH dia 25 fazer conferência na Faculdade Milton Paiva. Congresso sobre os “500 anos da língua portuguesa”. Grande auditório, prefessores vindos de Portugal. Falei sobre o Barroco, a partir do que escrevi em Barroco do quadrado à elipse. Foi ótimo. Estive solto, criativo, seguro. Na mesa D. Angela Vaz Leão pediu a palavra (todos dizendo que queriam ouvir mais): ela assinalou que tudo que sabia sobre o Barroco ficou pobre, a exemplo do que se sabe a partir de Woeflin, e que estava extasiada, etc. Foi um belo momento em que uma mestra da categoria dela, que domina vários campos como a linguística e a língua portuguesa, e várias literaturas, comprimentava seu antigo aluno. E emocionado disse: “Que Dona Angela é uma das comoções da minha vida, é um ponto luminoso nas minhas referências”, etc.

22.04.2000
Brasil 500 anos: um fracasso as comemorações. A “nau capitânia” (réplica da que existia ao tempo de Cabral) não navega, nem com o motor. Os índios que (na Bahia) se manifestaram foram pisoteados, as fotos saíram na imprensa internacional e FHC como Pilatos — lavando a mão. E o pobre Rafael Greca malhado como Judas por estar metido nisso[2].

26.04.2001
Ivan Junqueira, encantado com Barroco do quadrado à elipse, encontrando ali a explicação técnica do quadro de Holbein — “Os dois embaixadores”. Conta que quando estava na Funarte, Gullar, que presidia a instituição, pediu que ele localizasse aquele quadro que queria botar na “Piracema”. E dizia ao Ivan: “o cara é muito doido! Olha só, botou uma baguete no meio do quadro!”.

O Ivan tinha lido no meu livro que aquilo era uma “anamorfose”, efeito usual no barroco, e que a “baguette” do Gullar era, na verdade, a “ anamorfose” de uma caveira . Dou no livro uma consabida explicação da presença anamórfica dessa caveira.

Estou fazendo crônicas para o Estado de Minas. Cartazes enormes por toda a BH anunciando minha colaboração, tratamento de príncipe, estão pagando $ 500 por crônica[3].

Tentei convencer Fernando Sabino a colaborar aí, mas não deu certo.

Em BH há dois meses lancei no Palácio das Artes o livro Barroco do quadrado à elipse ao lado de Ângela Gutierrez que lançou seu livro sobre oratórios. Tudo muito lindo, incluindo um jantar na casa dela. Casa dela cheia de Guignard, ela sentada na cabeceira. Me conta que ali sentou-se Saramago num jantar, que saiu encantado com tudo.

Fui ao Marrocos e não anotei nada aqui. À Murcia (Espanha) também[4]. Um crime. Cadê a memória?

NOTAS

[1] In Que fazer de Erza Pound?, Imago, 2003. Aí estudo esse poema de Frei Manuel Calado. Retrata, em versos, a guerra contra a Holanda.

[2] Greca poderia ter sido Ministro da Cultura conforme conversa que Roberto Drummod e eu tivemos com Antonio Carlos Magalhães, lá no palácio em Salvador. Indicado, Grega preferiu outro ministério que tinha mais dinheiro.

[3] Publiquei crônicas nesse jornal até 2014. Aí trabalhei também como repórter policial em 1958, pensando que ia ser efetivado.

[4] Ver crônicas: Em terras de Espanha( 18.04.2001), “Quem não gosta de gentilezas”) 27.04.2001), “Ultima miragens marroquinas”( 27.04.2001).

 

 

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