Tudo é narrativa

maio 2018 / Tudo é narrativa / Depois do baile verde

Texto publicado na edição #217

Depois do baile verde

Os livros de Lygia Fagundes Telles são um refúgio dentro da biblioteca que construí

> Por Tércia Montenegro

Ilustração: Aline Daka

Ilustração: Aline Daka

Eu tinha doze anos quando um livro transtornou minha vida. Li o conto num volume didático, e não sabia que era um conto, achava que a história continuava, e então precisava ler mais, ler o resto daquela história sobre Tatisa e seu pai, seu dilema no carnaval, enquanto preparava uma fantasia verde. Fui atrás do título — lembro até agora a forma como deitei na rede, pronta para a felicidade clandestina que depois entenderia através de Clarice, mas naquele momento era Lygia, Lygia Fagundes Telles que eu conhecia pelo primeiro livro que comprei por minha escolha.

Durante toda a infância, eu tinha sido uma privilegiada, com a farta biblioteca de pais professores e uma irmã também voraz leitora. Deram-me Ou isto ou aquilo, da Cecília Meireles, fábulas e mitos clássicos, O urso com música na barriga, do Erico Verissimo, A vida íntima de Laura, da Lispector, Histórias da velha Totônia, do José Lins do Rêgo, e o que mais? Os títulos de Orígenes Lessa, de Monteiro Lobato (mas esse último nunca me encantou de fato), muitas e muitas revistas em quadrinho, os livros da coleção Vagalume (todos), a série juvenil d’A Inspetora, criada por Ganymédes José sob o nome Santos de Oliveira, a coleção Cachorrinho Samba, da Maria José Dupré… Um repertório de prazer e aprendizado invejável, sim. Mas nada — antes de Antes do baile verde — tinha sido tão decisivo e fulminante.

Entrei na literatura adulta com este livro. E quis ser escritora porque, quem sabe?, poderia, manipulando as palavras, alcançar o tipo de sensação que experimentava ao longo daquelas páginas. A impressão de ser arrebatada, que tenho igualmente diante de certos quadros, fotografias, espetáculos, paisagens… Mas aos 12 anos, foi a experiência inaugural — e não sabia bem o que era aquilo, o êxtase que continuo falhando em descrever, embora hoje o reconheça perfeitamente e saiba que por causa dessa sensação fui e serei capaz de realizar longas viagens apenas para ver uma pintura num museu.

A história de Tatisa não continuava. Mas junto com Natal na barca, A ceia e Venha ver o pôr do sol, o conto me ensinou a beleza de suspender um relato para deixá-lo existindo na mente, muito mais vibrante do que se ali houvesse um final arrumadinho, pacificador. Os fragmentos e interrupções podiam ser mais significativos que uma estrutura ordenada: aprendi isso violentamente com As horas nuas, o livro seguinte de Lygia que busquei.

E quem era a pessoa que tanto me ensinava e levava por variados caminhos e reflexões? Fui achando informações sobre a autora: entrevistas, depoimentos, notícias esparsas. Ao longo das décadas — enquanto vários outros textos e estéticas passavam pela minha curiosidade —, mantive o interesse, construí uma familiaridade que fez com que, em 2013, eu visitasse São Paulo em grande parte guiada por esses vínculos.

Comecei o itinerário pelo cemitério da Consolação, onde Álvares de Azevedo transitava (e talvez ali ainda passe, como fantasma). O mapa indicou os locais em que Mário e Oswald de Andrade, Lobato, Tarsila do Amaral e Paulo Emílio Salles Gomes foram enterrados. Este último, cineasta, foi o grande companheiro de Lygia Fagundes Telles.

Em homenagem a ela, visitei também a Faculdade de Direito do Largo São Francisco — a San Fran. Na praça, conforme os relatos da escritora, notei a placa comemorativa ao Álvares de Azevedo, mas com a cabeça trocada pela de outro romântico, Fagundes Varela. E, como as nuvens conspiram a favor, quando saía da Catedral, meio estonteada com as torres longuíssimas, encontrei a sede da OAB que traz o nome de Goffredo Telles, o primeiro marido de Lygia…

Em outro mês daquele ano eu tornaria à cidade para ver uma palestra sua, conhecê-la enfim. Antes de posarmos para uma desejada foto, ela me disse que Clarice Lispector sempre lhe recomendava fazer cara séria: “Escritora não pode sorrir, tem que ser misteriosa”. Obviamente, nós duas fomos clicadas com imensos sorrisos — eu, por felicidade; ela, talvez por rebeldia.

Pois agora, em homenagem aos seus 95 anos, sou convidada para colaborar com um ensaio no dossiê temático da Passages de Paris, Revue Scientifique de l’Association des Chercheurs et Etudiants Brésiliens en France. Não sei como o organizador, Nilton Resende, adivinhou que eu não só admirava, mas também desenvolvia em silêncio pesquisa sobre os contos de Lygia. Para falar a verdade, prefiro nem descobrir os caminhos explícitos: quero somente aproveitar o percurso. E o meu texto significa um gesto de gratidão — porque os livros de Lygia Fagundes Telles, que fui adquirindo e conhecendo todos, são um refúgio dentro da biblioteca que construí. Esse é o lugar para onde sempre volto. É onde tudo começou para mim.

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