Dom Casmurro

janeiro 2014 / Dom Casmurro / DENISE LEVERTOV

Texto publicado na edição #165

DENISE LEVERTOV

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert     A time past The old wooden steps to the front door where […]

> Por DENISE LEVERTOV

Tradução e seleção: André Caramuru Aubert

 

Ilustração: Theo Szczepanski

Ilustração: Theo Szczepanski

 

A time past

The old wooden steps to the front door
where I was sitting that fall morning
when you came downstairs, just awake,
and my joy at sight of you (emerging
into golden day —
the dew almost frost)
pulled me to my feet to tell you
how much I loved you:

those wooden steps
are gone now, decayed
replaced with granite,
hard, gray, and handsome.
The old steps live
only in me:
my feet and thighs
remember them, and my hands
still feel their splinters.

Everything else about and around that house
brings memories of others — of marriage
of my son. And the steps do too: I recall
sitting there with my friend and her little son who died,
or was it the second one who lives and thrives?
And sitting there ‘in my life,’ often, alone or with my husband.
Yet that one instant,
your cheerful, unafraid, youthful, ‘I love you too,’
the quiet broken by no bird, no cricket, gold leaves
spinning in silence down without
any breeze to blow them,
is what twines itself
in my head and body across those slabs of wood
that were warm, ancient, and now
wait somewhere to be burnt.

 

O tempo

Os velhos degraus de madeira da porta da frente
onde eu estava sentada naquela manhã de outono
quando você veio descendo as escadas, acabando de acordar,
e minha alegria em contemplá-lo (emergindo
num dia dourado —
o orvalho ainda congelado)
puxando-me pelos meus pés para te dizer
o quanto eu te amava:

aqueles degraus de madeira
se foram agora, apodrecidos
trocados por granito,
duros, cinzentos e elegantes.
Os velhos degraus vivem
somente em mim:
meus pés e minhas coxas
se lembram deles, e minhas mãos
ainda sentem suas lascas.

Tudo o mais sobre e em torno daquela casa
traz lembranças dos outros — do casamento
de meu filho. E os degraus provocam a mesma coisa: eu me lembro
de me sentar ali com minha amiga e seu filhinho que morreu,
ou será que foi o segundo, que vive e está bem?
E me sentar ali ‘na minha vida’, freqüentemente sozinha ou com

[meu marido.
Ainda assim naquele instante,
seu alegre, destemido, juvenil, ‘eu também te amo,’
a calma sem ser quebrada por nenhum passarinho, nenhum grilo,

[folhas douradas
caindo, girando, em silêncio sem
qualquer brisa que as levassem
são o que ata
minha cabeça e meu corpo àquelas tábuas de madeira
que um dia foram cálidas, veneráveis, e agora
esperam, em um lugar qualquer, para ser queimadas.

 

 

To the reader

As you read, a white bear leisurely
pees, dyeing the snow
saffron

and as you read, many gods
lie among lianas: eyes of obsidian
are watching the generations of leaves,

and as you read
the sea is turning its dark pages,
turning
its dark pages.

 

Ao leitor

Enquanto você lê, um urso branco tranqüilamente
faz xixi, tingindo de açafrão
a neve

e enquanto você lê, os deuses
repousam entre as trepadeiras: olhos de obsidiana
observam a reprodução das folhas,

e enquanto você lê
o mar está virando as suas páginas negras
virando
as suas páginas negras.

 

 

Ilustração: Theo Szczepanski

Ilustração: Theo Szczepanski

Lonely man

An open world
within its mountain rim:
trees on the plain lifting
their heads, fine strokes
of grass stretching themselves to breathe
the last of the light.
When a man
riding horseback raises dust
under the eucalyptus trees, a long way off, the dust
is gray-gold, a cloud
of pollen. A field
of cosmea turns
all its many faces
of wide-open flowers west, to the light.

It is your loneliness
your energy
baffled in the stillness
gives an edge to the shadows —
the great sweep of mountain shadow,
shadows of ants and leaves,
the stones of the road each with its shadow
and you with your long shadow
closing your book and standing up
to stretch, your shadow-arms
stretching back of you, baffled.

 

 

Homem só

Um mundo aberto
junto à borda da montanha:
árvores na planície, elevando
suas cabeças, leves pinceladas
de vegetação rasteira, esticando-se para respirar
o resto de luz.
Quando um homem
montado num cavalo, levanta poeira
sob os eucaliptos, um longo caminho, a poeira
é cinza-dourada, uma nuvem
de pólen. No campo
os girassóis púrpura se viram,
viram, todas as suas inúmeras faces
de flores bem abertas, para o oeste, para a luz.

É a sua solidão
sua energia
desfazendo-se na serenidade
que dá às sombras uma moldura —
a grande extensão da sombra da montanha,
sombras de formigas e folhas,
as pedras da estrada cada uma com sua sombra
e você com sua longa sombra
fechando o seu livro e se levantando
para se esticar, as sombras de seus braços
esticando-se atrás de você, desfazendo-se.

 

 

The sage

The cat is eating the roses:
that’s the way he is.
Don’t stop him, don’t stop
the world going round,
that’s the way things are.
The third of May
was misty; fourth of May
who knows. Sweep
the rose-meat up, throw the bits
out in the rain.
He never eats
every crumb, says
the hearts are bitter.
That’s the way he is, he knows
the world and the weather.

 

O sábio

O gato está comendo as rosas:
ele é assim.
Não o faça parar, não o faça
o mundo girando,
é assim que as coisas são.
O três de maio
foi encoberto; o quatro de maio
ninguém sabe. Espalhe
o miolo da rosa, espalhe os pedaços
lá fora na chuva.
Ele nunca come
todos os fragmentos, diz
que os corações são amargos.
Este é o jeito dele, ele conhece
o universo e o clima.

 

 

Ilustração: Theo Szczepanski

Ilustração: Theo Szczepanski

To the snake

Green Snake, when I hung you round my neck
and stroked your cold, pulsing throat
as you hissed to me, glinting
arrowy gold scales, and I felt
the weight of you, on my shoulders,
and the whispering silver of your dryness
sounded close at my ears —

Green Snake — I swore to my companions that certainly
you were harmless! But truly
I had certainly, and no hope, only desiring
to hold you, for that joy,
which left
a long wake of pleasure, as the leaves moved
and you faded into pattern
of grass and shadows, and I returned
smiling and haunted, to a dark morning.

 

 

Para a cobra

Cobra verde, quando eu a enrolei em meu pescoço
e golpeei sua fria, pulsante garganta
enquanto você assobiava para mim, reluzindo
tons dourados, como flechas, e eu senti
seu peso, em meus ombros,
e o sussurro prateado de sua aspereza
soprado bem junto aos meus ouvidos —

Cobra verde — eu jurei aos meus amigos que você era, certamente,
inofensiva! Mas de fato
eu não tinha certeza, e nenhuma fé, apenas aquele desejo
de segurá-la, pela alegria
que ficou
de um longo despertar de prazer, enquanto as folhas se moveram
e você se dissolveu na superfície
de grama e sombras, e eu retornei
sorrindo e assombrada, para uma sombria manhã.

 

 

Living

The fire in leaf and grass
so green it seems
each summer the last summer.

The wind blowing, the leaves
shivering in the sun,
each day the last day.

A red salamander
so cold and so
easy to catch, dreamily

moves his delicate feet
and long tail. I hold
my hand open for him to go.

Each minute the last minute.

 

 

Vivendo

O fogo na folha e na grama
tão verde parece
cada verão o último verão.

O vento soprando, as folhas
vibrando sob o sol,
cada dia o último dia.

Uma salamandra vermelha
tão fria e tão
fácil de pegar, em devaneio

move suas delicadas patas
e longo rabo. Deixo
minha mão aberta para que ela se vá.

Cada minuto o último minuto.

 

Denise Levertov por André Caramuru Aubert
O historiador Tony Judt (1948-2010), autor do clássico Pós-guerra, se considerava uma pessoa da fronteira, para quem a identidade era uma questão problemática. Inglês, vivendo e dando aulas em Nova York, com os olhos sempre voltados para a França e a Europa continental, este judeu secular, crítico de Israel, filho de belga que na verdade era refugiado apátrida do Império czarista, não conseguia se sentir claramente nem uma coisa nem outra. Ao invés de lamentar seus status, Judt, ao contrário, proclamava que as pessoas “da fronteira” são as mais interessantes, pois têm uma tendência natural para o estranhamento e a complexidade.

É exatamente o caso da poeta Denise Levertov (1923-1997). Nascida no País de Gales, viveu na Inglaterra e na Europa continental antes de atravessar o Atlântico para passar a maior parte da vida nos Estados Unidos. Denise era filha de Paul (Pavel) Levertoff, judeu russo (descendente de Shneur Zalman, um famoso rabino ortodoxo hassídico), teólogo convertido ao cristianismo e que se tornou pastor anglicano; e de Beatrice Spooner-Jones, uma galesa de antepassados celtas e religião cristã. Seus pais se conheceram, da forma mais improvável do mundo, em Istambul, onde ele ensinava teologia e ela dava aulas para meninas na Missão Escocesa de Constantinopla. O lar dos Levertoff era cheio de livros, de discussões abertas e de militância política humanista (a família se mobilizou para protestar, por exemplo, quando Mussolini invadiu a Etiópia; e seu pai não se incomodou quando a filha, adolescente, revelou-se atéia). Mas se por um lado os Levertoff incentivavam a cultura e o debate, por outro eram secos e pouco afetuosos. Denise nunca na vida conseguiu se sentir próxima a seu pai. Além disso, pouco convencionais, não acreditavam em mandar as filhas para a escola. Educada em casa, Denise Levertov jamais aprendeu matemática, tinha poucos amigos e passava muito tempo lendo ou passeando sozinha pelos arredores.

Denise cresceu inglesa sem ser vista como igual pelos ingleses. Era judia sem ser vista como judia pelos judeus, era russa sem ser russa, era celta sem ser celta, e nem mesmo cristã ela se sentia. Sua infância (os livros, a falta de afeto, os passeios, a questão da identidade) a marcaria pela vida toda, visível claramente na temática de sua produção artística. Ao mesmo tempo, ela sabia desde muito cedo que queria ser escritora e poeta. Com doze anos enviou secretamente alguns poemas para T. S. Eliot, que generosamente respondeu, incentivando-a a prosseguir. Ela seguiu o conselho do mestre e nunca mais parou de escrever.

Durante a Guerra, Denise trabalhou como enfermeira voluntária em Londres e, pouco depois, desesperada por novos ares, fez as malas e atravessou o Canal. Viveu primeiro na Holanda, de lá foi para Paris, para Genebra, para a Itália, que desceu de norte a sul, terminando na Sicília. Daí ela voltou para a França, onde acabou descoberta pelo poeta norte-americano Kenneth Rexroth. Incluída por ele numa coletânea de jovens poetas ingleses, o trabalho de Denise Levertov começou a ser, pouco a pouco, conhecido. Ainda na França ela se casou com Mitch Goodman, judeu nova-iorquino e estudante de Harvard, o que acabou por levá-la aos Estados Unidos. Foi lá que ela finalmente encontrou “sua voz” e, apadrinhada por um time de peso, Rexroth (que se apaixonou por ela, mas teve que se contentar com a modalidade platônica), Robert Duncan (seu maior confidente) e William Carlos Williams (declaradamente sua maior influência depois de Rilke), acabou por conquistar espaço e reconhecimento definitivos. Nunca fez parte de uma “escola”, mas se aproximou bastante dos poetas do Black Mountain, especialmente de Robert Creeley, e às vezes é vista como parte desse grupo. Teve um filho, se separou, naturalizou-se americana, teve outros relacionamentos e morou em diversas cidades por todos os Estados Unidos, e por dois anos, no México. Quando morreu, em dezembro de 1997, ela vivia em Seattle.

Poeta de sensibilidade excepcional, Denise Levertov é inexplicavelmente pouco conhecida no Brasil, muito embora nos países de língua inglesa ela tenha sido bastante celebrada (e premiada) em vida, e continue sendo citada, estudada e incluída em antologias. Publicou mais de trinta livros de poemas, alguns de tradução e quatro de ensaios, aos quais se somariam mais dois, editados postumamente e trazendo sua correspondência com dois de seus “padrinhos”, William Carlos Williams e Robert Duncan. Uma excelente biografia (Denise Levertov — A poet’s life, University of Illinois Press, 2012, que usei aqui) foi escrita por Dana Greene.

De múltiplas e nenhuma identidades, Denise era marcada por suas origens. Sua poesia visitava com freqüência temas religiosos e políticos (ela foi uma intensa ativista contra a Guerra do Vietnã). Mas, na minha opinião, seus melhores trabalhos são conduzidos por um espírito mais intimista, tratando da estranheza do mundo, de montanhas e paisagens, do amor e de suas impossibilidades e, finalmente, como boa discípula de William Carlos Williams, da beleza que se esconde nas situações cotidianas. Ou, num outro recorte, são os trabalhos de alguém cuja poesia o tempo todo tentava se equilibrar, numa tensão sem fim, entre o otimismo (diante de toda a beleza que há no mundo) e o pessimismo (e suas infinitas causas, das universais às domésticas). Algo típico, enfim, de uma pessoa da fronteira.

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