Nossa América, nosso tempo

julho 2020 / Nossa América, nosso tempo / Democracia em vertigem: retrato da voltagem contemporânea

Texto publicado na edição #243

Democracia em vertigem: retrato da voltagem contemporânea

O que se perde nesse ambiente bélico?

> Por JOÃO CEZAR DE CASTRO ROCHA

A cineasta Petra Costa

A cineasta Petra Costa.

Desde quando?
No atual clima de polarizações acéfalas, em boa medida determinadas pela nefasta guerra cultural bolsonarista, quase não foi possível discutir, com alguma serenidade, o documentário de Petra Costa, Democracia em vertigem, lançado em 2019 e que alcançou a distinção de ser indicado ao Oscar. Em circunstâncias normais de temperatura e pressão, a simples indicação teria sido recebida com entusiasmo, como ocorreu em 2004, quando Cidade de Deus (2002), filme de Fernando Meirelles e Kátia Lund, recebeu quatro indicações: melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor edição e melhor fotografia. Fernanda Montenegro também foi indicada ao prêmio de melhor atriz. O país literalmente parou no dia da cerimônia como ocorre numa final de Copa do Mundo.

E a premiação do Oscar foi realizada no dia 29 de fevereiro de 2004.

Isto é, somente há dezesseis anos.

(Certo: foi um ano bissexto.)

Pelo contrário, no dia 9 de fevereiro de 2020, noite de entrega das estatuetas, a guerra cultural desenhou outro cenário. A milícia digital bolsonarista iniciou uma intensa campanha difamatória contra a diretora; programas de rádio e comentaristas de televisão favoráveis ao governo insistiram no samba de uma nota só:

(Eis um motivo bem-humorado para superar o universo cinza da guerra cultural: ele é monocórdio e espantosamente tedioso, pois sempre se sabe o que será dito antes mesmo do debate principiar.)

: o filme não deveria concorrer ao Oscar de melhor documentário, porém de ficção etc. etc. etc. Você certamente recordará outros argumentos: todos, no fundo, entoam a mesma cantilena: ou se considerava Democracia em vertigem uma realização excepcional, ou se reduzia o filme à categoria de uma má ficção.

(O conforto que só a ignorância propicia… Há décadas é um lugar-comum assinalar a subjetividade como dado indissociável do gênero documentário. Ora, se já no primeiro documentário de longa-metragem, reconhecido como marco fundador da antropologia visual, Nanook of the North (1922), seu diretor, Robert Flaherty, não hesitou em incluir elementos ficcionais…)

Nada de novo sob o império da guerra cultural.
O que se perde nesse ambiente bélico?
Tudo.
Tudo o que importa entender.
Vamos assistir mais uma vez ao filme?

(Desarme seu espírito e deixe o videogame para depois.)

Vertigens e voltagens
 é muito honesta no esclarecimento de sua perspectiva: ela pertence ao campo da esquerda democrática e considera o processo do impeachment um golpe contra a democracia, cuja vertigem anunciou o abismo na próxima esquina: a eleição de Jair Messias Bolsonaro. A frase final do filme, com narração da própria diretora, explicita sua posição, sobretudo pelo tom de sua voz: “de onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo?”.

A honestidade intelectual da cineasta não poupa sua família: de um lado, somos informados de sua ascendência privilegiada, seu avô foi sócio-fundador da empreiteira Andrade Gutierrez, envolvidíssima no escândalo revelado pela Operação Lava Jato; de outro, descobrimos que seus pais foram militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), ativos na luta contra a ditadura militar, e inclusive seu nome foi escolhido em homenagem a Pedro Pomar, importante dirigente político, assassinado na Chacina da Lapa, em 16 de setembro de 1976.[1]

Cartas na mesa, portanto.

A edição do filme, claro está, não pretende ser neutra, pois a parcialidade do olhar é a premissa do filme — para o bem ou para o mal. Percebe-se, assim, que a maior parte, se não a totalidade, das discussões sobre Democracia em vertigem apenas arranharam o problema real de sua narrativa.

(E isso sem chegar a reconhecer os méritos do filme — bem entendido.)

E essa questão conduz ao nervo da eleição de Bolsonaro, ou seja, a ascensão da direita no Brasil.

Passo a passo — no entanto.

Assumida a perspectiva de esquerda, a edição do filme naturalmente favorece a compreensão do impeachment como golpe e a eleição de 2018 como um retorno traumático ao passado recente, autoritário e desigual do período da ditadura militar. De igual modo, documentários produzidos por movimentos de direita, em geral lançando mão das mesmas imagens, defendem a legitimidade do processo, em virtude das célebres e controversas pedaladas fiscais.[2]

Mesmas imagens?

Cuidado: a origem social de Petra Costa e o passado militante de seus pais permitiram à cineasta um privilégio raro, inacessível a todos os demais: presença nos bastidores do poder, assegurando imagens únicas à diretora; aliás, aproveitadas com sensibilidade. Mais: em momentos decisivos, ela esteve nas entranhas mesmas dos altos escalões da política nacional. Em nenhum momento, esse acesso é questionado pela diretora, o que teria enriquecido a reflexão proposta pelo filme.

Aparada essa aresta, posso levantar o problema maior da narrativa de Petra Costa. Isto é, na minha perspectiva — claro está.

Eis: em seu filme, a direita, enquanto movimento organizado de ideias, visão de mundo própria, ação política determinada, conjunto de valores comportamentais, assim entendida, a direita simplesmente não existe em Democracia em vertigem e essa ausência é sintomática do impasse que o campo da esquerda não enfrentou de peito aberto, muito provavelmente porque nem sequer vislumbrou o fenômeno.

Um depoimento da então presidente Dilma Rousseff, em plena marcha do processo de impeachment, é precioso, embora não tenha sido explorado pela cineasta: “Erramos ao não perceber que a hegemonia pela direita era crescente, porque ela não estava posta inteiramente em 2014”.[3]

Compreende-se o cálculo: se o Partido dos Trabalhadores (PT) venceu as eleições num disputadíssimo segundo turno em 2014, a direita não havia conquistado a hegemonia do jogo político, muito embora o acirramento das tensões deveria ter servido como uma advertência. Na sequência de sua fala, Dilma Rousseff atribuiu o processo do impeachment à atuação política do então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

Pronto!

Perde-se a intuição e voltamos ao golpe perpetrado por políticos corruptos, por uma elite vendida e, claro, por uma direita-encarnação-do-mal. E, no entanto, muitos desses políticos participaram da cúpula dos governos petistas e essa mesma elite esteve presente nos banquetes palacianos com grande desenvoltura.

E apetite pantagruélico.

(Ou não?)

Essa interpretação continua dominante no campo da esquerda porque ela é cômoda. Tal análise transfere para o adversário a responsabilidade exclusiva do movimento que culminou na eleição de Jair Messias Bolsonaro. Desse modo, com habilidade de malabarista, o PT foi tirado do poder em virtude de suas qualidades. Esse malabarismo, contudo, não permite que se façam perguntas fundamentais: como explicar que nos últimos quinze anos uma numerosa juventude de direita tenha emergido no espaço público? Como entender que um discurso de direita tenha adquirido uma musculatura inédita no debate nacional? Ora, esse fenômeno não pode ter principiado em 2015, como Dilma Rousseff supôs, nem mesmo em 2013, como consequência inesperada das Manifestações de Junho.

(Você tem razão: e nem sequer mencionei as práticas nada republicanas do PT no governo federal.)

A ascensão da direita no Brasil contemporâneo, dada sua força e alcance, é um fenômeno necessariamente mais orgânico e longevo do que transparece nas interpretações dominantes no campo da esquerda. Desconsiderar esse panorama impede que se intelija o processo político atual.

Pois bem: a guerra cultural bolsonarista somente adquire sentido no âmbito desse movimento. Na verdade, a ascensão da direita é anterior à emergência do bolsonarismo e em boa medida preparou sua possibilidade de êxito.

Realizar essa arqueologia é tarefa urgente para o campo da esquerda democrática. Caso contrário, teremos dificuldade para convencer a sociedade do caráter inaceitável de aventura autoritária do bolsonarismo.

Na próxima coluna, levo adiante esse esboço de arqueologia por meio da análise do documentário 1964: O Brasil entre armas e livros, da produtora Brasil Paralelo.

(Brasil Paralelo? Pois é.)

NOTAS

[1] A Chacina da Lapa tem uma imagem icônica: Pedro Pomar e Ângelo Arroyo jazem assassinados no chão, com armas próximas a seus corpos, sugerindo que morreram em combate. Esta versão oficial foi contestada pela Comissão da Verdade, mas a foto existente inclui as armas. Petra Costa editou a foto, retirando o revólver e o rifle da cena. Compreendo sua decisão, porém creio que o mais adequado teria sido esclarecer sua opção para o espectador.

[2] Dois filmes se destacam: Não vai ter golpe (2019), produzido pelo Movimento Brasil Livre (MBL); o sexto episódio da série Congresso Brasil Paralelo, realizado pela produtora em 2019, Impeachment: do apogeu à queda.

[3] Fala que aparece no minuto 52 do documentário.

 

Print Friendly