Rabisco

outubro 2016 / Rabisco / Delírios geniais

Texto publicado na edição #198

Delírios geniais

Em "Felizmente, o leite", Neil Gaiman transforma uma simples tarefa cotidiana em grande aventura

> Por ADRIANO KOEHLER

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O pai recebe uma missão simples de sua família: ir até a esquina comprar um litro de leite para o cereal matinal dos filhos. Claro, algo que será resolvido em poucos minutos. Mas e se aparecer um disco voador logo no momento em que se está chegando em casa? Pior, e se esses alienígenas abduzirem esse pai? E se, pouco antes dos extraterrestres destruírem a Terra, um estegossauro cientista salvar o pai e o levar em uma viagem no tempo? Ninguém pode saber os perigos que uma simples ida à esquina contém. Ninguém, exceto Neil Gaiman, um dos mais produtivos escritores infantojuvenis da atualidade. Com uma imaginação delirante, ele transforma um evento banal em uma aventura intergaláctica transespacial de alta categoria e muita diversão.

Dizer que há um enredo é quase um exagero, pois ele basicamente não existe. É a história de uma mãe que viaja e deixa para o marido uma série de missões domésticas e de cuidados com os filhos. A primeira delas — esquentar o jantar — dá errado. Na manhã seguinte, a desatenção do pai com os detalhes da casa resulta na falta de leite para acompanhar o cereal do casal de filhos. Ele prontamente se dispõe a ir até a esquina comprar o leite, mas demora uma eternidade para retornar, na percepção das crianças. E quando chega, a história que ele conta para explicar o porquê do atraso é absolutamente sem pé nem cabeça, mas uma delícia que faz todo o sentido para crianças com um mínimo de imaginação que não se preocupam com a coerência do mundo dos adultos.

Gaiman nos leva a um passeio absurdo em que alienígenas com gostos estéticos duvidosos, dinossauros muito mais inteligentes que seres humanos, cientistas e viajantes intergalácticos, povos primitivos que idolatram vulcões e vampiros se misturam sem que o caldo desande. Entender as ligações entre uma cena e outra não é tarefa fácil e, em alguns casos, é um desafio à lógica. Mas é perfeitamente compreensível desde que o leitor e o ouvinte (afinal, esse é mais um livro para se ler com os filhos no colo e mostrando as figuras) embarquem na viagem proposta por Gaiman.

A narrativa tem o mesmo ritmo das aventuras do pai, ou seja, é rápida e sem pausas, em alguns momentos até frenética. Em outros, tenha certeza de que você voltará algumas páginas para entender como o litro de leite que é jogado em um buraco no espaço aparece no passado e no futuro ao mesmo tempo, pois não ficou muito claro como isso aconteceu. Em todos, haverá sempre um pai que está sim preocupado com o leite das crianças, mas a seu modo e enfrentando os desafios devido ao sequestro pela tripulação de um disco voador.

Os autores
Gaiman é um autor bastante conhecido do grande público. Nos anos 1980 ele ficou famoso principalmente por seu trabalho como roteirista de histórias em quadrinhos, em especial Sandman, o Mestre dos sonhos, que até hoje é reverenciada pelos amantes dos gibis. Dos anos 1990 em diante, ele direcionou seus esforços para a publicação de livros e peças de teatro, como Stardust, American Gods e Coraline, por exemplo, sendo essa última transformada em um filme de animação de grande sucesso. Gaiman também escreve roteiros para TVs e hoje é um grande ativista em defesa do livro impresso e das pequenas livrarias, tendo o costume de autografar um ou outro livro seu à venda em aeroportos e ver o resultado aparecer no Twitter.

E como um bom livro infantojuvenil não se faz sem gravuras, como bem disse Lewis Carroll na voz de Alice, o ilustrador Skottie Young solta as amarras para dar formas visuais ao texto de Gaiman. São desenhos engraçados e cheios de detalhes, que longe de roubar o espaço da imaginação do leitor, o estimulam a procurar mais coisas a cada página. Parece um jogo para ver quem descobre o maior número de referências.

No fim, quase esquecemos do leite, mas o título do livro nos diz que ele chegou à casa e as crianças tiveram um café da manhã feliz. Agora, sorte da criança que tem um pai que vive tantas aventuras apenas indo até a mercearia da esquina e sabe contar todos os lances de sua epopeia. O leite acaba sendo um detalhe. O que importa mesmo é a história.

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Felizmente, o leite
Neil Gaiman
Trad.: Edmo Suassuna
Ilustrações: Skottie Young
Rocco – Jovens Leitores
128 págs.

TRECHO
Felizmente, o leite

Escutamos um tump e um bam na porta da frente, e meu pai entrou.

— Por onde você andou esse tempo todo? — perguntou minha irmã.

— Ah! — respondeu meu pai. — Hum… então… engraçado você perguntar isso.

— Esbarrou com alguém que você conhecia — arrisquei. — E perdeu a noção do tempo.

— Eu comprei o leite — disse meu pai. — E, realmente, dei um oi para o senhor Ronson, o vizinho da frente, que estava comprando jornal. Sai do mercadinho e ouvi uma coisa estranha que parecia vir de cima. Era um barulho assim: tumm-tumm. Olhei para cima e vi um disco prateado enorme flutuando sobre a rua Marshall. Uau, disse a mim mesmo, não se vê um negócio assim todo dia. E então uma coisa esquisita aconteceu.

— Isso já não foi esquisito? — perguntei.

 

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