Ensaios e Resenhas

março 2018 / Ensaios e Resenhas / De volta ao centro

Texto publicado na edição #215

De volta ao centro

Fenômeno editorial nos anos 1980, Margaret Atwood retorna como símbolo de importantes lutas

> Por LÍVIA INÁCIO

Margaret Atwood, autora de O conto da aia.

Margaret Atwood, autora de O conto da aia.

A liberdade das mulheres ecoa em todo o Ocidente. O direito de ir e vir sem medo ou culpa, a emancipação econômica e simbólica e o fim de fronteiras que ancorem o mundo a um velho porto de preconceito e dominação machista se tornam pautas centrais para a consolidação de uma nova ordem de avanços sociais. Mas, na história, quando se quer dar um passo à frente, há sempre a força do retrocesso puxando o barco para trás.

Emerge das cinzas um impulso conservador, que, longe de ser motivado por razões aleatórias ou conspirações baratas, se prende basicamente a uma demanda central das elites: a de manter seus privilégios, deixar tudo como estava — e obedece quem tem juízo!

Em meio a esse movimento, o discurso de ódio cresce, o conservadorismo dá as caras e regimes retrógrados, não raro, chegam a ser defendidos até mesmo por pobres, mulheres, gays e negros.

O cenário lhe parece atual? Pois, pasmem: não estou falando de hoje. Conto de um fenômeno que aconteceu dos anos 1960 aos anos 1980. No pós-guerra, com homens mortos nos campos de batalha, as mulheres ocuparam o mercado (ainda que com salários e cargos medíocres). Em pouco tempo, tomaram consciência do poder que tinham e deram início a uma onda feminista, inserida em um contexto ainda maior de lutas por direitos sociais.

Claro, isso não agradou os setores conservadores. Nos Estados Unidos, o amplo apoio a Ronald Reagan foi endossado por movimentos aos moldes da Moral Majority, linha fundamentalista cristã que defendia o status quo. Na América Latina, ditaduras militares (responsáveis pela tortura de muita gente, inclusive, crianças) ganharam amplo apelo popular em eventos como a Marcha da Família com Deus (sic).

Foi nesse período de tamanhas aberrações políticas que a escritora canadense Margaret Atwood escreveu O conto da aia, ficção científica lançada em 1985 (um ano após a eleição de Reagan) e publicada no Brasil dois anos depois, imaginando uma república alicerçada em valores fundamentalistas de uma elite cristã que adapta não apenas a Bíblia como também todo o conhecimento ocidental aos seus preceitos ideológicos, econômicos e sociais.

Sim, é bom lembrar: O conto da aia não é uma crítica ao cristianismo, mas à forma como ele pode ser moldado por grupos avessos a avanços como os de minorias. Em certo momento, detentores do discurso opressor que rege a chamada República de Gilead, espaço fictício onde se passa o romance, chegam a usar até mesmo Karl Marx para justificar seu modus-operandi.

A própria autora reforçou em uma entrevista para o jornal El País que “o livro não é contra a religião. É contra o uso da religião como uma fachada para a tirania: são coisas muito diferentes”. 

O conto da aia mostra de que forma uma dominação moral e repressora consegue fragmentar e fragilizar grupos sociais minoritariamente representados, como o das mulheres.

Um passo à frente, dois para trás
Narrada por Offred, uma mulher de 33 anos que viu o mundo começar a mudar para, em seguida, ser aprisionada na escuridão de uma ditadura fundamentalista, O conto da aia mostra de que forma uma dominação moral e repressora consegue fragmentar e fragilizar grupos sociais minoritariamente representados, como o das mulheres.

No livro, elas estão divididas em diferentes castas. Após uma catástrofe que tornou muitas inférteis, a República criou a classe das Aias, responsáveis pela reprodução da espécie. Treinadas pelas chamadas Tias, elas são ensinadas a serem passivas, silenciosas e obedientes — tanto que, como dita o código de vestimenta instituído em Gilead, devem usar um chapéu branco com abas laterais para que não vejam nada ao redor.

Passadas de casa em casa, são friamente “fertilizadas” (estupradas) por homens cujas famílias não foram agraciadas com um filho. Se tiverem a “sorte” de engravidar, são ainda mais invejadas e odiadas pelas outras mulheres, sobretudo, as esposas que não puderam conceber. 

Divisão social
Além das Aias, há as Econoesposas, mulheres da classe média que bordam e observam docemente o jardim; as Marthas, que fazem todo o serviço doméstico e as viúvas. Nesta ordem, a vida segue regida por uma moral que dita o triunfo do homem e a queda das mulheres à submissão, em um esquema no qual elas são pecado e, ao mesmo tempo, a fonte de toda a vida que existe.

Vejam só: na República, é delas a culpa de qualquer infertilidade. Atwood explica que o que inspirou esta visão foi a perspectiva de Henrique VIII, que, na Inglaterra do século 14, rompia com suas esposas e, como bem se sabe, rompeu com a Igreja Católica para poder se divorciar porque não conseguia um herdeiro. A propósito, embora O conto da aia seja classificado como ficção científica, a autora fez questão de basear cada figura da obra em aspectos reais. Conforme ela mesma disse em entrevista ao The New York Times, nada ali é por acaso.

A divisão das roupas das mulheres (no livro, cada “casta” tem a sua própria) foi pensada com base em códigos de vestimenta comuns em governos que queriam controlar seus reféns. No Terceiro Reich, por exemplo, gays eram identificados por um triângulo rosa e judeus usavam estrelas amarelas nas roupas. No Canadá, prisioneiros de guerra usavam vermelho, cor escolhida por Margaret para vestir as Aias.

Fenômeno editorial
Como se vê, não é de ontem, nem de hoje, que a estratégia de dividir e enfraquecer um segmento, tendo como pano de fundo o discurso de ódio, é usada como mecanismo de poder por quem está lá em cima.

Foi por isso que o livro, que atraiu milhões de leitores nos anos 1980, voltou rapidinho à lista dos mais vendidos do mundo pouco depois da vitória de Donald Trump nos Estados Unidos e o avanço do conservadorismo na Europa e até em países de capitalismo dependente como o Brasil — onde grupos no Congresso, vestindo a camisa de oligarquias agrárias e de denominações religiosas específicas, hasteiam as mais variadas bandeiras do atraso.

A velha história ressurge, o medo da opressão se alastra e O conto da aia desponta como um dos mais emblemáticos símbolos dos nossos dias — a roupa da aia virou até fantasia de Halloween — e, não é para menos: quer história mais aterrorizante do que a vivida por Offred (e que não parece tão distante assim de nós)? 

Repercussão
O romance ganhou uma versão para TV no ano passado. A série, produzida pela produtora e plataforma de streaming Hulu, e cuja primeira temporada de dez capítulos foi destaque no Emmy, ajudou a realocar os holofotes da cena literária internacional em Margaret Atwood. Uma segunda temporada está prevista para sair em abril deste ano.

No Brasil, a Rocco relançou várias obras da canadense, com excelentes traduções, como a de Ana Deiró de O conto da aia, que não deixa escapar quase nada do terror vivido na República de Gilead.

Já querida há algum tempo entre os críticos literários e o público mais leigo, Atwood, que carrega na bagagem 17 romances, seis obras infantis, oito de não ficção, dez livros de contos e 15 de poesia, teve seu caráter de ícone pop legitimado. Amplamente citada nas redes sociais, foi novamente adaptada para a televisão por meio da série Alias Grace, baseada no livro homônimo que, no Brasil, ganhou uma republicação no ano passado com o título de Vulgo Grace.

Símbolo feminista
A mais recente onda de luta pelos direitos da mulher impulsionada pela ascensão da internet tem muito a ver com tamanha repercussão. Com a volta do sucesso de O conto da aia, Margaret passou a ser debatida e divulgada por grupos das mais diversas vertentes feministas. A atriz Ema Watson, por exemplo, conhecida por militar bem perto do que se conhece como feminismo liberal, escondeu vários exemplares do romance por Paris e colocou algumas dicas em seu Twitter, durante uma campanha em parceria com a The Book Fairies, organização que realiza a distribuição gratuita de livros em vários países.

Mas O conto da aia não é o único trabalho da escritora a perpassar um viés feminista. A maior parte da sua obra é marcada por uma abordagem que converge em elaborados caracóis de aspectos subjetivos e práticos da vivência feminina.

Em Dicas da imensidão, livro de dez contos, relançado no Brasil também no ano passado, a autora apresenta mulheres de classe média do pós-guerra, em meio a um período de intensa efervescência cultural, política e social. Descritas em primeira ou terceira pessoa, as personagens principais de cada texto, ao mesmo tempo em que vivem num mundo com oportunidades que suas mães jamais imaginaram ter, são levadas a enfrentar estigmas, preconceitos, resquícios e sombras do machismo difíceis de mandar embora. Problemas que ainda hoje perduram.

A atualidade desta abordagem de Atwood se encontra no conflito da mulher que se casa com um homem rico querendo conseguir dinheiro para montar uma casa de apoio a mulheres espancadas — após a morte da amiga, vítima do que hoje entendemos como feminicídio. Da jovem que se desenvolve profissionalmente como apresentadora de TV e sofre ataques do homem que a incentiva a crescer e, inconformado com seu sucesso, a inveja. Da estudante que tem um caso com um professor casado e se torna mero fetiche do mestre num jogo de poder aos moldes do que hoje entendemos como relacionamento abusivo.

É também pincelando esse tipo de relação entre homens mais velhos e mulheres mais novas que Atwood com frequência foca em uma contradição comum que o machismo de todos os tempos confere às relações afetivas heterossexuais. Guiada por padrões sociais do patriarcado, a mulher é muitas vezes levada a buscar parceiros de idade maior que a sua e os homens se aproveitam desta deixa para estender seu prazo de validade — como se tivessem nas amantes ou esposas uma espécie de fonte da juventude.

A lógica instrumentaliza as mulheres como artefatos perecíveis — além, claro, de culminar em relacionamentos marcados por posições assimétricas e frequentemente abusivas por parte de quem é mais experiente e se situa um degrau acima na cadeia da opressão: o homem.

Em boa parte das vezes que Atwood descreve os pares de suas protagonistas, quando fala da idade deles, dá mais ênfase à diferença etária entre o homem e a garota do que à mera idade do sujeito. E me parece haver uma intencionalidade por trás disso: mostrar o caráter do machismo impregnado às decisões da própria mulher e que, quase sempre, esbarra na chamada autonomia feminina. Assunto complexo, que divide opiniões e não se esgota em algumas linhas.

Em Vulgo Grace, por exemplo, a protagonista Grace Marks se sente muito mais velha do que o personagem Jamie Walsh (embora a diferença entre eles seja de apenas um ano) e, impelida a cogitar apenas relacionamentos com homens mais velhos, refuta o primeiro pedido de casamento do menino: “não sei por que uma moça de quinze ou dezesseis anos é considerada uma mulher, mas um garoto de quinze ou dezesseis ainda é um menino. Entretanto, eu não disse isso (…)”, narra a jovem. 

Uma boa coisa a se mencionar é que Atwood pode ser uma ótima fonte de informações para quem ainda pensa que o feminismo é uma coisa só, repleta de consensos.

Fonte de debate
Uma boa coisa a se mencionar é que Atwood pode ser uma ótima fonte de informações para quem ainda pensa que o feminismo é uma coisa só, repleta de consensos. São várias as polêmicas e divergências feministas encontradas nas entrelinhas da escritora.

Em O conto da aia, por exemplo, a autora cruza perspectivas acerca da pornografia em uma alusão às chamadas sex wars, que, nos anos 1980, dividiam o movimento em dois grupos: o de quem achava que a pornografia era opressora e estruturalmente nociva às mulheres (violentadas, humilhadas e objetificadas nos conteúdos pornôs tradicionais) e o que enxergava essa visão como mero moralismo e um entrave à liberdade de expressão. Fosse como fosse, a pauta do primeiro grupo chegou a ser erroneamente usada por fundamentalistas conservadores como justificativa moralizante.

No romance, é comum que o governo de Gilead exija a queima de peças pornográficas e condene a libido — masculina e feminina. Em boa parte das horas vagas com as Tias, as Aias são convidadas a assistir a filmes pornôs violentos. O importante é que elas se orgulhem do mundo em que vivem, vejam do que os homens são capazes e se lembrem de que é melhor estar numa prisão repressora a correr o risco de ser estuprada por devassos.

Mais uma vez, Atwood, acostumada a recortar matérias de jornais para embasar suas histórias, parte de causas reais para criar um universo que ilustre um contexto repleto de contradições.

Obra pretensiosa?
Por conta do nítido engajamento das obras de Atwood a causas evidentes, como as do movimento das mulheres, muito ainda se discute sobre o papel e a legitimidade do seu trabalho como instrumento de mudança. Teria ele algum propósito ante as transformações do mundo? Creio que sim. Se sua obra é tão bem calculada e alinhada à vida real, tenho a impressão de que, no fundo, a autora sempre teve consciência de seu papel como indivíduo histórico, literário e político. E não há problema nisso.

O medo de ser panfletário nas letras leva muita gente boa a fugir deste trio de condições inerentes a quem escreve. Mas não há nenhum demérito em reconhecer o caráter social e o potencial revolucionário de uma produção artística. Penso que é exatamente o oposto: nenhuma obra precisa ser só mais uma sondagem da vida — e existir por existir. Se sempre terá um efeito, por que não ter uma causa?

A aversão ao engajamento é uma ilusão barata, um clichê que já deveria estar superado. O escritor não é um sujeito místico, mas social. Por que não fazer bom uso disso?

E está aí um dos principais méritos de Atwood: em um contexto em que as pautas centrais para a mulher ainda se concentram, em boa parte, na esfera privada e íntima, o trabalho da canadense, extremamente rico em alegorias políticas e sondagens psicológicas, é um poderoso e impactante trunfo em favor da primavera feminista que ganha cada vez mais força em todo o planeta. 

Estilo
É fácil entender por que Margaret Atwood é tão querida pelos críticos. Com um estilo bem definido, a autora é extremamente hábil em compor personagens e narradores verossímeis e convincentes. E sua escrita criativa surpreende com bem-feitas quebras de linearidade e alternância de vozes narrativas.

A excelência da sondagem psicológica chega a ser espantosa: percebemos de pronto que estamos diante do texto de alguém que não apenas sabe manejar bem as palavras como também conhece os mais profundos escombros da alma humana.

Em Vulgo Grace, por exemplo, a história de uma jovem acusada de matar o patrão e a governanta da casa onde trabalha — também inspirada em matérias de jornal — é contada na voz de um narrador em terceira pessoa e a da própria Grace Marks, a ré. É clara a diferença entre os dois eixos: o primeiro é seco e objetivo. O segundo é doce e agradável. Mas ambos repletos de densos fluxos de consciência.

O romance funciona bem porque consegue traçar em dois âmbitos narrativos a voz da matéria e a voz do espírito; a voz de dentro e a voz de fora; a voz de quem acusa e a voz da acusada. Além disso, a voz de Grace gera em nós uma amigável empatia que nos leva a pensar na condição de gênero e classe da mulher camponesa que nos fala. Também confunde e intriga o leitor que, com a pulga atrás da orelha, se questiona a todo tempo: será que ela é mesmo inocente?

Heroínas reais
Mas inocentar mulheres não é, nem de longe, a intenção de Atwood. Um dos pontos altos de sua obra é a criação de personagens reais, que odeiam, matam, traem e tropeçam. Durante um vídeo chat com a escritora Alice Munro, realizado via hangout do Google, Atwood pergunta a sua conterrânea e contemporânea: “Pense no quão chato seriam os livros se todo mundo fosse inteiramente bom todo o tempo! Você leria algo assim?”. Ao que Munro devolve: “Alguém já escreveu um livro realmente bom com personagens inteiramente bons todo o tempo ou mesmo parte do tempo?”.

O consenso entre Atwood e Munro integra a série de elementos que fazem da obra de Margaret um trabalho honesto e admirável. Em nenhum momento, a autora pretende santificar nem isentar mulheres, colocando-as em pedestais. Até porque, como a própria escritora disse em entrevista ao Entertainment Weekly “feminismo não é só achar que elas estão sempre certas”.

E, com fortes vínculos ao mundo real, o trabalho da canadense parece estar engajado, sobretudo, em conduzir o olhar do leitor às incoerências que há séculos perduram no imaginário machista e arrogante de um mundo imperfeito. Que bom que ela voltou com toda força em um período tão frutífero como o nosso. É uma semente bem-vinda.

A AUTORA
Margaret Atwood
Nascida em 1939, em Ottawa (Canadá), é romancista, poeta, contista e ensaísta. Começou a produzir literatura aos 16 anos e estudou artes, inglês, francês e filosofia. Com grande apelo feminista, suas obras atravessam diversas ondas do movimento de mulheres como ícones de pautas importantes, como o direito ao próprio corpo. Já recebeu vários prêmios, como o Man Booker Prize (2000) e o Príncipe de Astúrias (2008). Também teve livros adaptados para teatro e televisão.

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